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Nº 149 - 21/11/2006
Saindo da Gaveta
O projeto Saindo da Gaveta é uma iniciativa da professora, atriz
e diretora teatral Viviane Juguero, da atriz Letícia Schwartz e do autor
teatral Jorge Rein. A idéia é possibilitar um espaço para
que escritores, poetas, roteiristas, letristas e outros criadores que se utilizam
da palavra e tenham suas obras inéditas possam apresentá-las ao
público e ouvir comentários deste. A iniciativa, sem fins lucrativos,
havia conseguido que o Café Concerto Mário Quintana, localizado
no terraço da Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre), sediasse
os encontros. Mas só foi possível realizar ali o coquetel de lançamento,
em 24 de outubro. A seguir, os próprios idealizadores do projeto explicam
porque estão precisando buscar outro local, em função de
atitudes dos atuais responsáveis pelo Café.
(Fabio Gomes)
* * *
Saindo da Gaveta fora da Casa
É bastante comum a classe artística reclamar do descaso que o
poder público com raras exceções costuma
dedicar ao tratamento das questões da cultura. Desta feita, porém,
o desrespeito, que fazemos questão de denunciar, teve sua origem na iniciativa
privada, na figura da administração do Café Concerto Mário
Quintana. Por se tratar de alguém que recebeu a concessão de exploração
comercial de um espaço integrado a um complexo cultural mantido com verbas
públicas, a situação adquire ainda maior gravidade. O café,
que, por sua localização, deveria funcionar como uma extensão
ou complemento natural das atividades artísticas e culturais que dão
sentido à existência da Casa de Cultura, demonstrou, neste episódio,
uma vocação meramente mercantilista, atropelando compromissos
assumidos com um projeto que, sem fins lucrativos, pretende criar um novo espaço
para a literatura através da realização de debates e leituras
públicas.
OS FATOS:
- Na condição de idealizadores do projeto Saindo da Gaveta,
entramos em contato com diversos locais que poderiam acolher este tipo de evento,
sendo que vários deles demonstram interesse na nossa iniciativa. Optamos
pelo Café Concerto Mário Quintana por entender que se tratava
de um espaço apropriado em termos de localização, tamanho,
condições e (acreditávamos) afinidade com as atividades
que pretendíamos desenvolver.
- Nesse contato inicial, uma única exigência da nossa parte foi
claramente exposta e prontamente aceita pela administração do
café: nos dias dos encontros programados não existiria nenhuma
restrição com relação ao ingresso, circulação
e consumo do público habitual, mas não seria marcado qualquer
outro evento, para não interferir nas condições mínimas
necessárias para o desenvolvimento adequado das leituras e debates. É
verdade que não foi selado nenhum contrato escrito e assinado nesse sentido.
Talvez, na nossa condição de apaixonados pela literatura, fomos
levados a acreditar que, em qualquer circunstância, o que vale é
a palavra.
- Aparentemente, para a administração do Café Concerto Mário
Quintana, a palavra não possui o mesmo valor que nós lhe atribuímos.
No dia 14 de novembro, data marcada com muita antecedência para o nosso
primeiro encontro, ao chegar ao café, nos deparamos com o salão
interior, mais apropriado para nossas reuniões, decorado para a celebração
de algum aniversário. Outras duas festas, com mesas grandes e de gente
animada na conversa, aconteciam simultaneamente na área externa. Conversamos
com as pessoas e soubemos que ambas tinham sido previamente reservadas com o
proprietário.
- Nosso erro, talvez, tenha sido o de, em respeito aos que compareceram atendendo
à nossa convocação, insistir em iniciar o encontro em tais
condições, completamente adversas. O primeiro autor a ler seu
texto sofreu as conseqüências, forçado a enfrentar o constrangimento
de perceber que sua voz, por mais que ele tentasse, não tinha condições
de atingir os ouvidos da platéia e que os sons circundantes comprometiam
qualquer possibilidade de estabelecer o clima da sua história ou de incluir
o público nessa atmosfera.
- Encerramos, assim, de forma abrupta, a nossa parceria com o Café Concerto
Mário Quintana, indignados pela falta de respeito demonstrada e, juntando
nossas tralhas, literalmente saímos da casinha, retomando a vocação
das transumâncias.
- Não fomos muito longe. O restaurante e cafeteria Estação
do Sabor, vizinho da casa de Cultura, logo nos acolheu generosamente, permitindo
que, apesar dos percalços, o encontro acontecesse e, ainda que desistindo
de algumas das leituras programadas, alcançasse um sucesso que, esperamos,
anime todos nós a persistir nessa empreitada. Aproveitamos a ocasião
para agradecer ao respeito que recebemos do referido local, de seus funcionários
e de sua proprietária Fátima.
- A continuidade dos encontros é também um compromisso e uma forma
de expressar o nosso reconhecimento aos patrocinadores que, apostando no projeto,
colaboraram na divulgação e na confecção do material
gráfico. É com pesar que verificamos o prejuízo financeiro
acarretado pela falta de ética do Café Mário Quintana,
pois cartazes, panfletos, convites e spot de rádio ficaram inutilizados.
Sabemos que nossos apoiadores continuarão parceiros da iniciativa, pois
todos demonstraram compreender a importância de um evento desse tipo,
inédito em nossa cidade.
- Contamos com a colaboração de todos na ampla difusão dessa
denúncia. A cultura é fundamental para a sociedade e deve ser
levada a sério. Como todos os demais segmentos, merecemos respeito e
comprometimento.
Aproveitamos a oportunidade para confirmar a data do nosso próximo encontro
dedicado à poesia para o dia 28/11, em local que em breve
estaremos divulgando.
Obrigado aos verdadeiros donos do projeto, autores, leitores e debatedores
que o tornam possível e que, com certeza, nos ajudarão a remover
esta e outras possíveis pedras do meio do caminho.
Viviane Juguero, Letícia Schwartz e Jorge Rein
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