Mistura e Manda
Nº 41 - 22/3/2004
Canção (des)Necessária - uma bigamia?
Guinga entregou uma valsa para que José Miguel Wisnik
colocasse letra. Como a parceria demorasse, o violonista precisou recorrer a um
gesto extremo: pediu a Wisnik que devolvesse a música para que outro letrista,
Manuel Aguiar, concluísse a obra, nascendo assim "Canção
Desnecessária". Guinga devia estar acostumado, afinal Chico Buarque
levou anos para letrar "Você, Você". Wisnik chegou a fazer
um apelo desesperado a Guinga: "Não desista de mim", mas precisou
ceder.
Tempos depois, quando um show no SESC Pompéia (São
Paulo) reuniu os dois, Guinga deu uma de falso malandro e avisou a Wisnik que
ia aprontar uma sacanagem com ele: em pleno palco, anunciaria que o parceiro iria
interpretar "Canção Desnecessária". Como havia
alguns dias entre o aviso e o show, Wisnik encontrou a motivação
para enfim fazer a letra, nascendo aí "Canção Necessária".
Quando Guinga soube, ficou preocupado: "E agora, como é que fica?
Um caso de bigamia na música popular! Como vamos fazer?". Ao final,
tudo bem, Wisnik acertou com Guinga que cantará sua letra nos shows que
fizer, enquanto o parceiro canta a letra de Aguiar.
(Fabio Gomes)
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Outras "bigamias"
Guinga
não devia se espantar tanto, afinal esse não foi o primeiro caso
do que ele chamou de "bigamia". Muitas músicas do começo
do século 20 tinham duas letras, caso do samba de Sinhô "Gosto
que me Enrosco", com versos de Bastos Tigre numa versão e do próprio
Sinhô em outra (que, gravada por Mário Reis em 1929, se consagrou
como definitiva).
Um outro caso, polêmico e famoso, foi o que
levou ao rompimento do cartunista J. Carlos com Ary Barroso. Os dois haviam composto
"Na Grota Funda" para um espetáculo de teatro de revista. Lamartine
Babo, assistindo a peça, detestou a letra de J. Carlos, mas adorou a melodia
de Ary, para a qual escreveu novos versos, rebatizando a composição
de "No Rancho Fundo" e passando a cantá-la no rádio. Ary
nunca comentou o fato, mas em seguida autorizou gravações para a
música com o novo nome e a letra de Lamartine, sem consultar J. Carlos,
que desde então jamais voltou a falar com o autor de "Aquarela do
Brasil".
(F. G.)
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Os polivalentes (música & arte)
J. Carlos, um gênio do cartum brasileiro, teve uma breve experiência
como letrista - a referida acima, da qual evidentemente ele não gostou
muito, voltando em seguida a seus pincéis e tintas. Outros artistas também
aliaram o exercício da música com as artes plásticas ou gráficas:
Dorival Caymmi e Heitor dos Prazeres talvez sejam os mais conhecidos. Caymmi,
quando jovem em Salvador, desenhava tabuletas, trabalhava como auxiliar numa redação
de jornal e cantava no rádio enquanto aguardava a nomeação
em concurso público que fizera (e que caducou sem que ele fosse nomeado).
Ao decidir ir para o Rio, em 1938, levava algumas composições e
o desejo de ser ilustrador na imprensa. A música falou mais alto com o
sucesso de "O que é que a Baiana Tem?", mas mesmo assim em 1943,
já famoso, freqüentou aulas de desenho na Escola Nacional de Belas
Artes, no Rio, chegando a dedicar-se com afinco à pintura no final da década
de 40. Destacou-se depois na Exposição de Artistas do Rádio,
organizada por Henrique Pongetti em 1957.
Heitor dos Prazeres, um pioneiro
das escolas de samba, começou a se interessar por pintura em 1937, sendo
incentivado pelo jornalista e desenhista Carlos Cavalcanti. Embora continuasse
compondo e cantando na década de 40, o samba deixava para Heitor de ser
sua forma de expressão artística e passava a ser o tema de sua pintura.
Chegou a participar de três Bienais de São Paulo e foi selecionado
para representar o Brasil no Festival de Arte Negra no Senegal, em 1966.
Noel
Rosa estava compondo cada vez menos no começo de 1937, preferindo desenhar.
Levava a nova atividade a sério, querendo inclusive a opinião do
pintor Di Cavalcanti, que o aconselhou a cantar sambas... Noel pretendia trabalhar
como ilustrador no jornal O Globo e pelo menos um desenho seu ficou famoso:
uma auto-caricatura fumando, de perfil. É difícil saber se, não
tivesse falecido naquele ano, Noel optaria entre a música ou o desenho
ou conciliaria as duas atividades.
(F. G.)
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Nássara, o maior polivalente
Afora os já citados J. Carlos, Caymmi, Heitor e Noel, o único caso conhecido de artista brasileiro que conciliou música e arte gráfica, brilhando simultaneamente nas duas áreas, foi Nássara (1910-1996). Aluno da Escola Nacional de Belas Artes, formou um grupo musical, a Turma da ENBA, em 1928, quando já desenhava para O Globo. Começou a compor em 1931 e teve seu primeiro sucesso dois anos depois: "Formosa" (parceria com J. Rui), gravada por Francisco Alves e Mário Reis. Até o final da década de 50, acumularia sucessos indiscutíveis como "Meu Consolo é Você", "Alá-lá-ô", "Balzaquiana" e "Mundo de Zinco", ao lado de um belo e destacado trabalho em jornais e revistas como A Noite, Crítica, Careta, O Cruzeiro (onde desenhava duas páginas de charge com enorme sucesso durante a Segunda Guerra Mundial), Última Hora e O Pasquim. Mesmo longe das redações a partir dos anos 70, continuou desenhando, sendo seu último trabalho as ilustrações do livro infantil Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão (1996), de Daniela Chindler, que ele não chegou a ver publicado, pois foi chamado pra desenhar no Céu.
(F. G.)
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