1º ato
Overture
Rosina: Dom Bartolo! Já estou cansada de aturar o senhor e sua casa de secos e molhados!
Dom Bartolo: Calma, Rosina! Estás nervosa hoje, meu benzinho?
Rosina: Sim, senhor! Estou nervosa e o senhor sabe por quê.
Dom Bartolo: Por quê?
Rosina: Então o senhor não sabe que minha neurastenia é causada pelo excesso de trabalho e pela falta de distração? Eu trabalho mais que uma escrava e me divirto menos que uma freira. O senhor nunca me deu mil e cem réis para um cinema!
Dom Bartolo: (canta Condeno o Teu Nervoso)
(Batem à porta)
Polícia: Abra em nome da Lei!
Dom Bartolo: Ah! É a polícia! Pode entrar! Eu sou negociante honesto.
Polícia: Nós estamos procurando o bicheiro Alma Viva e... parece que ele entrou aqui!
Dom Bartolo: Viste o Alma Viva, Rosina?
Rosina: Se o senhor não viu, muito menos eu! A última vez que o vi foi anteontem, quando entreguei a lista que o senhor mandou.
Polícia: Até logo! Se o senhor encontrar esse bicheiro telefone para o distrito.
Dom Bartolo: Está bem!
(Barulho de porta que se fecha)
Rosina: Boa-noite, Dom Bartolo! Já são horas de dormir!
Dom Bartolo: Boa noite, Rosina, e... não se esqueça de levantar mais cedo para conferir a caixa antes do armazém abrir.
(Na rua)
Alma Viva: Ó, Fígaro! Como vais?
Fígaro: Alma Viva!? A polícia anda à tua procura. Tem cuidado! Todos os meus fregueses da barbearia já sabem que estás em Niterói!
Alma Viva: Agora, eu mudei de nome e me chamo Lindoro, o empresário. Vou pôr um bigode postiço e raspar o cabelo. Ficarei horrível e irreconhecível.
Fígaro: Soube que estás apaixonado pela Rosina. É verdade?
Alma Viva: É. E quero que me auxilies.
Fígaro: Por que não cantas agora debaixo de sua janela? Aqui está o meu violão! Rosina é louca por uma serenata.
Alma Viva: É esta a janela?
Fígaro: É! Pode começar!
Alma Viva: (dá uns acordes no violão e canta)
Dom Bartolo: Ó, seu jardineiro! Vá cantar no jardim zoológico! Eu trabalhei o dia inteiro e... você não me deixa dormir.
Alma Viva: A serenata não é para o senhor!
Dom Bartolo: Que não é para mim eu bem sei! Você pensa que Rosina se deixa iludir com cantigas?
Alma Viva: O senhor está fazendo mais barulho do que eu e... daqui a pouco o guarda municipal nos vem meter o pau!
Dom Bartolo: Eu faço barulho porque estou na minha casa e... ninguém me prende. Você é que vai preso!
(Apitos, gritaria)
Fim do 1º ato.
2º ato
Rosina: Fígaro! Eu preciso que você me faça um favor!
Fígaro: Com muito prazer, dona Rosina! O que manda?
Rosina: Queria que você entregasse este bilhete ao Alma Viva. Mas... não deixe dom Bartolo perceber!
Fígaro: Já adivinhei o que a senhora escreveu no bilhete! Naturalmente, não gostou da serenata e pede para que ele não a procure mais! Não é isso?
Rosina: Nada disso! Eu vou ler para você ouvir... (canta Envio Estas Mal Traçadas Linhas)
Em vão te procurei,
Notícias
tuas não encontrei
Mas, ontem, te escutei
E este bilhete ao Fígaro
entreguei,
Sem mais, para acabar
Recebe o beijo eu que vou mandar.
Eu amo... Com o amor não brinco!
Niterói, 30 de outubro de 35.
Fígaro: Muito bem, dona Rosina! Aí vem dom Bartolo! Até logo!
Rosina: Até logo, Fígaro, e... obrigada!
Dom Bartolo: O que é isso, Rosina?
Rosina: Nada!
Dom Bartolo: Não mintas! Entregaste um bilhete ao barbeiro! Para quem? Responde, Rosina!
Rosina: (gaguejando) O... o... bilhete que eu mandei foi... foi para o sapateiro.
Dom Bartolo: Sapateiro!
Rosina: Sim, senhor! O sapateiro está demorando a mandar os meus sapatos!
Dom Bartolo: Não mintas, Rosina. Já me disseram que tu gostas de um tal Lindoro, empresário!
Rosina: (rindo) Quá! Quá! Quá! Que gente mentirosa...
Dom Bartolo: Rosina! Tu és muito mais moça do que eu. Mas...
Rosina: Mas... o quê?
Dom Bartolo: Eu sou o único homem que pode te fazer feliz. Tenho prédios... dinheiro no banco...
Rosina: Seu dinheiro não me interessa.
Dom Bartolo: Se o meu dinheiro não te interessa... a mim, então, muito menos. Bem que aquele Chico Viola tinha razão quando cantava:
Rosina: (também cantando)
Os dois: (ainda cantando)
Fim do 2º ato.
3º ato
(Pancadas na porta)
Dom Bartolo: O que deseja?
Alma Viva: Eu sou o empresário, me chamo Lindoro e vim dar uma aula de canto a dona Rosina.
Dom Bartolo: Mas o professor de canto de Rosina é dom Basílio.
Alma Viva: Foi dom Basílio que me mandou substituí-lo hoje, porque ele está com coqueluche.
Dom Bartolo: Sim! Agora estou compreendendo. Tenha a bondade de sentar! Ó Rosina! Rosina!
Rosina: Pronto, dom Bartolo! O que deseja?
Dom Bartolo: Dom Basílio não pôde vir hoje e mandou um substituto para te ensinar a lição.
Rosina: Creio que conheço este meu novo professor. Acho que já o vi no Cinema Poeira.
Alma Viva: Ou então n'alguma gafieira... da Praça da Bandeira.
Rosina: Acho que não! Foi no jardim zoológico...
Alma Viva: É quase isso! Não é bem jardim zoológico, mas é negócio de bicho!
Rosina: (rindo) Quá! Quá! Agora sei de onde o conheço!
Alma Viva: Qual foi a sua última lição?
Rosina: Eu estava aprendendo a ária Precaução Inútil.
Alma Viva: Precaução Inútil? O título é muito bonito! Tenha a bondade de cantar essa ária.
Rosina: Eu hoje estou um pouquinho rouca. Por isso, espero que o senhor não repare... (canta Precaução Inútil)
Seu cabelo tinha a cor
De burro quando foge
Do amansador
Seus olhos eram circunflexos,
Perplexos
e desconexos,
Mãos de usurário
Braços de sicário,
Corpo de macaco, chmipanzé maduro,
Enfim, eu vi nesse velhote
Um
imortal Pão Duro.
(Palmas)
Alma Viva e Dom Bartolo: Muito bem! Muito bem!
Alma Viva: A música é boa e a letra é melhor ainda!
Dom Bartolo: Os senhores fiquem à vontade! Tenho que ir atender os meus fregueses no armazém! Com licença!
Alma Viva: Pois não, dom Bartolo. O senhor não se preocupe conosco!
(Barulho de porta que se fecha)
Alma Viva: Até que enfim, minha querida Rosina!
Rosina: É verdade, finalmente estamos sós!
Alma Viva: Fígaro já te avisou que nós vamos fugir hoje à meia-noite!
Rosina: Já! E estou preparada para fugir contigo! Tu já sabes que dom Bartolo incumbiu dom Basílio de trazer aqui um padre?
Alma Viva: Um padre? Para quê?
Rosina: Então não sabes que o bobo desse velho quer se casar comigo hoje?
Alma Viva: Isso é mais outra precaução inútil... (canta novos versos para Precaução Inútil)
Fim do 3º ato.
4º ato
(Tempestade)
Dom Bartolo: Rosina, tu não deves dar muita importância a esse tal Lindoro, que se intitula empresário e professor de canto!
Rosina: Por que, dom Bartolo? Ele não é um rapaz distinto?
Dom Bartolo: Que distinto, qual nada! Ele é um malandro que pensa que tu és muito rica e, por isso, quer casar com o teu dinheiro!
Rosina: O senhor está enganado!
Dom Bartolo: Tu é que estás enganada, Rosina!
(Batem à porta)
Dom Bartolo: Tenha a bondade de entrar.
Dom Basílio: Boa-noite! Aqui estou eu com o senhor reverendo.
Dom Bartolo: Sejam bem-vindos! Como estão molhados! Pensei que não viessem por causa da chuva! Querem tomar um gole de vinho?
Dom Basílio: Em nome do senhor reverendo... aceitamos a oportuníssima oferta!
Dom Bartolo: Não é bem uma oferta! Vou debitar esses dois cálices na sua conta!
(Gargalhadas)
Rosina: Dom Bartolo, eu ouvi um barulho no armazém e... creio que são ladrões!
Dom Bartolo: Senhores, com licença! Eu vou até o armazém e volto já!
(Batem à porta)
Rosina: Quem é?
Alma Viva: É Fígaro e seu companheiro!
Rosina: Façam o favor de entrar!
Alma Viva: Onde está dom Bartolo, o velho que não tem miolo?
Rosina: Está no armazém, procurando gatunos imaginários!
Fígaro: Por que vocês dois não aproveitam a ocasião?
Alma Viva: Não é propriamente aproveitar a ocasião: é aproveitar o padre, para me casar com Rosina dentro da casa de dom Bartolo! Tu queres casar comigo agora, Rosina?
Rosina: Não quero![sic] Faço questão de me casar contigo agora mesmo!
(Dom Basílio forçado por Alma Viva a escolher entre uma bala de pistola e um anel de brilhantes, opta pelo segundo presente e, ao lado de Fígaro, torna-se padrinho do casamento. Para a imensa infelicidade de dom Bartolo, este ao regressar do armazém encontra consumada a união entre o rival e sua pupila. O enredo chega ao fim quando Fígaro, observando o desânimo de dom Bartolo, filosofa...)
Fígaro: Quando a juventude e o amor estão de acordo para enganar um velho, tudo que este fizer para impedir deve-se chamar "precaução inútil"!
Fim de "O Barbeiro de Niterói"