Conversas de Esquina
- O seu patrão está?
- Não, senhor. Saiu.
- Pode me dizer quando ele volta?
- Espere um pouquinho que vou perguntar a ele!
- A quem devemos o maior esforço para a elevação da mulher?
- Ao inventor do salto alto!
- Por que estás triste, querida?
- O nosso gato comeu o bolo que eu fiz para a sobremesa!
- Não chores, meu amor! Se o gato morrer eu te arranjo outro!
- O senhor me pede 100 mil réis por este quadro? É muito caro!
- Parece... Mas olha que só a tela me custou 50 mil réis.
- Sim, mas quando o senhor a comprou ela estava limpa!
- Olá, Bonifácio! É verdade que estás casado?
- Por enquanto, não! Mas ando procurando uma esposa ideal para um doutor como eu.
- Qual é a esposa ideal para um doutor?
- Ora, essa! Uma pequena imbecil!
- Por que imbecil?
- Para que não se meta em meus negócios e faça todas as minhas vontades!
- Ora, Bonifácio! Escolhe qualquer uma e fica descansado! A mulher que casar contigo há de forçosamente ser uma imbecil!
- Por falar em imbecil, eu me lembrei agora do teu alfaiate!
- Por que eu lhe passei o calote?
- Não! Porque ele te fez estas calças muito curtas!
- Não concordo contigo, Bonifácio! As minhas calças estão muito bem-feitas! As minhas pernas é que estão muito compridas!
- Por falar em compridas, eu me lembrei agora das línguas das minhas vizinhas!
- Já sei que vais mudar de casa!
- Adivinhaste, Albuquerque! Mas... não é só por causa das más línguas que vou me mudar. É porque minha casa, cujo aluguel é de 800 mil-réis, é tão pequena... tão pequena que eu nem tenho lugar para ler os jornais aos domingos!
- Mas... por falar em domingo, tu vais assistir às corridas no Jockey Club?
- Não! Deus me livre! Eu ando muito pesado.
- E eu também, Bonifácio! O meu azar é tão grande... que qualquer dia me enfio nessas caixas de papéis da Avenida.
- Não faça isso, Albuquerque! Isso é um "papel sujo"!
(Risadas)
- Olá, Albuquerque! Você anda sumido! Por onde tem andado?
- Estive na Europa e agora sou colecionador de moedas! A propósito: quais são as moedas mais raras daqui do Brasil?
- São todas.
- Todas?!
- Sim, senhor. Aqui no Brasil as moedas são raras! Há três meses que não vejo uma!
- Esta é boa, Bonifácio. E você? Tem clinicado muito?
- Não. Deixei a clínica e agora faço versos.
- Mudou de profissão?
- Não! Faço versos para matar o tempo!
- Não tem mais cliente para matar?
- Que matar!... Eu ando pedindo a Deus que não me matem! Ultimamente vivo isolado de tudo e de todos.
- Esse seu isolamento é receita médica?
- Não. É outra receita. Estou fugindo daqueles que me mordem.
- Daqueles que pensam que você é banco?
- É. Mas não "banco"! Por falar em bobo... Você está noivo?
- Estou.
- E sua noiva tem juízo?
- Se tem! Nunca ninguém teve cara de pedir um beijo à minha noiva!
- Ela é que não tem cara para que alguém lhe peça um beijo...
(Vaia)
- Olá, Bonifácio! Então tu não me viste ontem na Praia do Flamengo?
- Não! Havia lá tanta gente... que eu não vi ninguém!
- Pensei que estivesses com a "abóbada" da vista estragada!
- Não. Mas meu médico falou que eu perdi o "paladar" do ouvido!
- Por falar em ouvido, quase dei um tiro no ouvido, ontem.
- Por que, Albuquerque?
- Porque a Genoveva desmanchou o nosso noivado!
- Então, tu compreendes o suicídio por amor?
- Compreendo e admito!
- Eu não admito! Se eu me matasse por uma mulher... ficaria arrependido o resto de minha vida!
- Mas, por falar em arrependido, tu deves estar arrependido de fumar.
- Não compreendo. Arrependido de fumar? Por quê?
- Porque furaste tuas calças novas com o cigarro!
- Estás enganado! Estes dois buracos que tenho nas calças fazem o papel de ventiladores!
- Mas... podes apanhar um resfriado!
- Qual o quê, Bonifácio! O vento entra por um buraco e sai pelo outro!
- Boa-noite, Albuquerque! De onde vens e... para onde vais?
- Acabo de sair do Restaurante Chinês e... vou à farmácia!
- Tenho a impressão de que jantaste bem!
- Estás enganado, Bonifácio! Não jantei bem!
- Mas... em compensação, pagaste mal! E... se eu te disser que ainda estás jantando?
- Eu te direi que estás maluco!
- Maluco por quê?
- Porque eu não sou ruminante! Tu é que estás ruminando a filosofia que não digeriste bem!
- Dize-me cá: onde comem três... não comem quatro?
- Sim!
- E onde comem dois... não comem três?
- Perfeitamente! Mas o que tem isso?
- Aposto contigo mil e duzentos réis, que é o preço do teu jantar, como tu ainda estás jantando na sala.
- Mas que idéia, Bonifácio! Isso é um absurdo!
- Absurdo, não, senhor! Se onde comem três, comem quatro... e onde comem dois, comem três... onde comem um, quantos comem?
- Comem dois!
- Isso mesmo, Albuquerque, estás me ajudando! Se onde come um, comem dois... onde nenhum come... come um forçosamente!
- Chega, Bonifácio! Parei contigo! Toma os mil e duzentos réis!