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Palco

Stranger - Estranho?

Dentro da programação que comemora seus 20 anos, a Cia. de Teatro Os Satyros apresenta Stranger – Estranho?, espetáculo musical com a atriz transexual cubana Phedra D. Córdoba.

Phedra D. Córdoba, a diva do Satyros

Phedra D. Córdoba – sobrinha do ícone do teatro cubano Sergio Acebal - começou sua carreira como ator e bailarino há 56 anos, trabalhando inicialmente em óperas e balés de Havana, utilizando o nome artístico de Felipe de Córdoba.

Antes da revolução de 1954, Phedra abandona Cuba e viaja por 16 países, trabalhando em diversas companhias de dança na América Latina, com nomes como Walter Pinto, que convidou Phedra para se apresentar em 1958 no Rio de Janeiro.

Após se fixar no Brasil, Phedra D. Córdoba inicia em 1968 seu processo de transexualidade. Ao mesmo tempo, a atriz desponta como ícone da incipiente cultura gay. A atriz passa a se apresentar em casas noturnas históricas, como Medieval, Homo Sapiens, Nostro Mondo, realizando seus shows também em saunas como Thermas Lagoa, Fragatta e Alterosas.

No teatro, Phedra iniciou sua carreira com o grupo paulista Pombas Urbanas, integrando o elenco de Buraco Quente, de Lino Rojas. Já em 2003, a atriz integra o elenco da Cia. de Teatro Os Satyros. Sua primeira participação com a companhia foi na peça A Filosofia na Alcova, do marquês de Sade, no Festival de Teatro de Curitiba. Em seguida, atuou em Retábulo da Avareza Luxúria e Morte, Kaspar ou a Triste História do Pequeno Rei do Infinito Arrancado de Sua Casca de Noz e segue desde então nas montagens da Companhia.

Sobre o espetáculo

A idéia do espetáculo musical começou na viagem dos Satyros para Cuba, em 2008, para apresentar a peça Liz. Depois de sair de Cuba, foi a primeira vez que Phedra retornou ao seu país de origem. Na ocasião, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, fundadores da Cia. de Teatro Os Satyros, convidaram a atriz para celebrar os 20 anos da Cia. A partir daí, Phedra começa a escolher o repertório, dando prioridade à música cubana. “Rodolfo já conhece meu lado atriz, agora vai conhecer meu lado vedete”, revela Phedra D. Córdoba, com seu sotaque típico.

No ano passado, Phedra realizou um pocket show no Espaço Parlapatões após a projeção do filme Os Sapatos de Aristeu, de Luiz René Guerra, que tem como protagonista a atriz cubana. A apresentação foi uma prévia do que viria a ser apresentado em seu show Stranger – Estranho?. Repleto de figurinos de seu acervo pessoal, Phedra revisita sua época de vedete do Teatro de Revista.

Acompanhando a diva do Satyros, estão os músicos Frederico Godoy, Bruno Balan, Franco Lorenzon, respectivamente no teclado, percussão e baixo acústico. E entre uma música e outra, são projetados vídeos realizados pelo cineasta Evaldo Mocarzel durante a viagem dos Satyros a Cuba.Voltar

Safo

É a segunda vez que Ivam Cabral se debruça na história de Safo. A primeira, em 1994, resultou no texto Sappho de Lesbos, escrito em parceria com Patrícia Aguille e criado para um elenco de 13 atrizes. Na obra, os autores contaram a última hora da vida de Safo.

Neste novo trabalho, Ivam Cabral se inspira livremente na releitura de Yourcenar e também em Virginia Wolf. O monólogo nos apresenta Safo, uma mulher moderna, bailarina, que vive em São Paulo, num apartamento na Avenida São Luiz. Perto dali, conhece Átis, que se tornará o seu grande amor.

Mas esta história não começou aqui. Como Orlando (personagem de V. Wolf), a Safo de Ivam Cabral vem viajando pelos tempos, desde seu nascimento, numa ilha grega, até os dias de hoje, no Brasil.

A peça mistura elementos contemporâneos e de época com recursos sonoros e visuais, resultando num híbrido de linguagens. Esse híbrido se justifica na medida em que Safo era, para o seu tempo, uma artista-pedagoga de múltiplas linguagens. Em sua escola, as jovens aprendiam dança, poesia, música etc. A trilha sonora é trabalhada com elementos do pop, de Nico à Amália Rodrigues, em um desfile de vozes e expressões femininas.

Quem foi Safo?

Safo nasceu em 650 a.C., na ilha grega de Lesbos. Casou com Cercylas e teve uma filha. Como aristocrata, se tornou orientadora de jovens, preparando-as para o casamento. Considerada uma das mais importantes poetisas da civilização ocidental, Safo teve praticamente toda a sua produção queimada pela igreja, que considerava obscena a sua obra.

Diz o autor, Ivam Cabral:

Recorri mais uma vez a Safo por encomenda. A Patricia Vilela é minha amigona de anos. Numa viagem que fizemos a Curitiba ela me pede pra escrever um solo para ela. Como eu a conheci em cena fazendo Safo (Curitiba, início dos anos 90), Marguerite Yourcenar me veio à cabeça imediatamente, pois escreveu um poema lindo, "Safo ou o Suicídio", em seu livro Fogos. Neste poema, Yourcenar coloca Safo como trapezista e seu suicídio acontece em sua última apresentação, num trapézio. Eu pensei que a nossa Safo pudesse ser uma bailarina e então a sua morte acontece no palco, aos olhos dos espectadores, em uma última dança. Ela veio até ali para morrer e vai dançar até o seu último suspiro. Então me veio também à cabeça o Orlando, de Virginia Wolf, por causa de sua viagem no tempo. Assim, neste meu texto Safo viaja da Grécia antiga até os nossos dias e vem viver na avenida São Luiz; é bailarina, já ganhou o Troféu APCA, é amiga da Helena Bastos e do Raul Rachou e adora a Helena Katz.Voltar

Doce Outono

UM OUTONO AGRIDOCE CONTINUA NO SATYROS 1 - por Ruy Jobim Neto

Que o Teatro é a arte da relação entre personagens colocadas em um palco, disso nós sabemos. Ralph Maizza leva essa premissa às raias da filigrana. E a palavra se aplica muito bem às três cenas que compõem o belo Doce Outono, com texto e direção de Maizza, uma vez que filigrana é isso mesmo - um trabalho artesanal feito de fios muito finos, tênues até, podemos dizer.

Mas feitos com apuro e consistência. São seis atores, três histórias, gênero drama. O espetáculo estreou em agosto no Satyros 1, na Praça Roosevelt, 214, e agora retorna em novo dia e horário.

Maizza, dramaturgo e diretor, não abre concessão alguma ao seu público. Aliás, seu grupo, o Teatro da Curva (que já tem seis anos de estrada por esses palcos) traz consigo alguma crueza jovem, uma crueza saudável, bastante criativa.

Ela tem sido representada em outros trabalhos, tanto com textos próprios como em dramaturgias de Mario Bortolotto, Álvares de Azevedo ou Voltaire. Doce Outono é o segundo espetáculo do grupo em 2009. A outra montagem da Curva foi Born to Be Wild, texto de Jarbas Capusso Filho.

A primeira cena, O Filho Próspero, traz a contenção de Didio Perini e Fernando Soffiatti. Dois irmãos se reencontram. O público engole em seco, aguarda notícias de um pai à beira da morte, espera pra ouvir da dupla o porquê de tanta distância.

Um é um artista que não abriu mão de suas escolhas profissionais. O outro é um executivo cheio de ambições e financeiramente estável. Há um tema musical que perpassa em início e final da cena, mas a sensação de engolir em seco permanece. Aos poucos, tudo se delineia, mas sempre com a contenção da timidez em qualquer reencontro doloroso.

Outro canto do palco é usado para que Celso Melez e Roberta Uhller estabeleçam novo jogo. Agora a cena, Traição? é travada entre marido e mulher, misturando paixão e ódio, desejo e culpa, dor e compaixão. Muitos sentimentos perpassam quando a esposa, delicada e transgressoramente construída por Roberta, acaba por demonstrar uma doença psicológica, diríamos emocional. Melez caminha no sentido de entender a esposa ou ajudá-la de forma radical. A dor perpassa. Quem trai quem?

A cena dispara entre extremos, da entrega do casal até à percepção de que aquilo tudo guarda relação de semelhança com Betty Blue (famoso filme de Jean-Jacques Beineix, dos anos 80, com Jean-Hughes Anglade e Béatrice Dalle). A referência ao filme faz sentido, com exceção das cenas de nu do filme de Beineix. A nudez aqui é outra. Os atores guardam essa nudez de sentimentos na pele de seus personagens com precisão, delicadez e violência.

A cena final de Doce Outono (leve ironia do autor e diretor, para uma estação cuja natureza fala da decadência, ainda que suave) se chama irônicamente Mundo, Doce Mundo!. No palco, estão Flávia Tápias e Mariana Blanski, duas atrizes bem jovens desta atual safra. Sem revelar quase nada, a peça, que acontece quase que às escuras, parcamente iluminada – de
propósito -, mostra duas moças à beira de um grande evento.

Ficamos sabendo apenas no final o que aconteceu, qual a decisão que elas tomaram. Sem revelar nada, há uma cena emblemática de uma das garotas, pronta para colocar uma máscara, ela, como boa menina, encontra um ursinho de pelúcia no chão e o guarda delicadamente no bolso da jaqueta. O final é mais do que irônico, tanto quando o título.

Para o diretor, a estação em que acontecem as três cenas (em lugares e tempos totalmente indecifráveis, o trunfo da montagem) representa o fim de um ciclo, em que decisões duras – ou não – têm que ser tomadas. Nada é por acaso, nem mesmo o outono. Quanto ao público, ele completa os silêncios vários que Maizza proporciona com seu elenco. Prova de que a relação se coloca tão ativa quanto no palco. Em mais esta encenação jovem, dinâmica e limpa do Teatro da Curva, a platéia tem o seu lado também, a sua contribuição solitária, no escuro do outono, compartilhando caminhos que poderiam muito bem ser os dela.Voltar

Liz

Liz é o primeiro texto cubano montado pelo Satyros. A peça rendeu a Reinaldo Montero o Prêmio Fray Luis de León, um dos mais importantes da Ibero América. Além deste, a montagem d’Os Satyros realizada em junho de 2008 em Havana foi eleita uma das melhores peças estrangeiras do ano, levando o Prêmio Villanueva, entregue pelo Departamento de Crítica e Investigação Teatral da Associação de Artistas Cênicos da UNEAC (União de Escritores e Artistas de Cuba). O espetáculo Liz tornou-se um especial televisivo cubano, dirigido por Kiki Cavalcante, no Canal Educativo de Cuba. O convite veio diretamente de Abel Prieto, ministro da Cultura do país, após ter assistido uma apresentação do espetáculo em Havana.

A peça mistura história, lenda e realidade. Narra o momento em que a rainha Elizabeth I é informada acerca das idéias heréticas que se debatem no círculo da Escola da Noite. Em Liz, a verdade histórica é o que menos importa. A peça representa um painel caótico de um tempo de grandes tensões, emoções e descobertas. O poder e a grandeza de Elizabeth I são postos em destaque, assim como sua solidão e fragilidade.

Utilizando-se por vezes de um tom farsesco e de abstrações, a peça propõe uma profunda reflexão sobre a tristeza, a solidão e os erros implícitos na arte de governar a terra e o céu. Os personagens Raleigh e Marlowe fundam um antro de perversão, chamado A Escola da Noite, onde questionam a anestesia de Deus e a soberania de Liz.

- Uma peça que critica o poder, a cultura, as verdades oficiais. Liz é um dos mais importantes experimentos dramatúrgicos empreendidos no teatro hoje. E uma peça de espantosa modernidade, e de uma contundência que nos deixa de olhos arregalados - afirma Aberto Guzik.

Segundo Ivam Cabral, Liz, de Reinaldo Montero, na encenação dos Satyros é uma peça hippie. Neo-hippie:

- Teria tudo para ser escura, híbrida, triste. Nós a quisemos colorida. Trágica, mas esperançosa. No cenário, bambolinas se transformam em colchas de retalhos. Na trilha sonora, Janis Joplin, Velvet Underground, Roberto Carlos, Beatles. No coração dos atores, desejo de criar um espetáculo poderoso, intenso, inteiro.

Veja o que falaram sobre a peça:

 

Monólogo da Velha Apresentadora

Alberto Guzik, crítico de teatro, escritor e ator, comemora seus 60 anos de palco encenando o texto Monólogo da Velha Apresentadora, escrito por um dos autores mais contundentes e polêmicos da atualidade, Marcelo Mirisola, e dirigido por Josemir Kowalick.

A montagem começou a se articular no início de 2008, quando Mirisola, depois de uma temporada na Paraíba, encontrou Guzik em um almoço no restaurante La Barca. Curiosamente o restaurante é cenário de livros de Mirisola e figura também em peças escritas por Guzik.

No encontro, Mirisola convidou Guzik a interpretar o Monólogo da Velha Apresentadora. Guzik se interessou, leu o texto e esperou uma oportunidade, que surgiu nas Satyrianas, em outubro daquele ano. Apresentada dentro do projeto DramaMix, o Monólogo da Velha... foi um dos destaques do evento, tanto que voltou para uma temporada no Satyros 1.

Monólogo da Velha Apresentadora mostra o desabafo da velha Febe Camacho, que vem do teatro de revista e dos tempos históricos da televisão brasileira. Ela está furiosa porque sua empregada foi seqüestrada e exigem dinheiro para liberar a mulher.

Febe chega a pensar em não pagar o resgate e deixar a empregada entregue à própria sorte. Mas os sequestradores ameaçam denunciar a velha e famosa apresentadora por “falta de sensibilidade social”. Febe aproveita então seu programa para desabafar. Compara seus tempos com os tempos atuais, xinga, briga, faz confissões que envolvem presidentes e altos mandatários do país, lembra dos tempos da revista, de seu começo na televisão.

A velha apresentadora vai revelando aos poucos que tem muita raiva e muitos preconceitos. E aproveita esse momento para dizer com total franqueza tudo que pensa. É uma comédia com ácido cítrico, como costuma fazer Mirisola, que não tem papas na língua e nem nos dedos para escrever o que pensa e para sacudir a pasmaceira, as acomodações, a passividade.

Marcelo Mirisola

Autor de Joana a Contragosto, Animais em Extinção, O Azul do Filho Morto, O Homem da Quitinete de Marfim, tem um namoro já há alguns anos com o teatro. O polemista feroz alimenta sua fúria na coluna semanal do site www.congressoemfoco.com.br. Um texto seu, “O Herói Devolvido”, teve uma divertida adaptação para a cena, há cinco anos.

Alberto Guzik

Por 30 anos foi um dos críticos de teatro mais importantes do país, e depois de deixar a crítica em 2001, voltou à interpretação, sua primeira paixão. Guzik completa neste ano 65 anos de vida e 60 de teatro. Ele começou a atuar aos cinco anos de idade, no teatro amador, integrando o Teatro Escola São Paulo, de Tatiana Belinky e Júlio Gouvêa. Guzik, além de ator e crítico, é diretor, professor, dramaturgo e ficcionista, autor de Risco de Vida, O que É Ser Rio, e Correr?, Paulo Autran, Um Homem no Palco, Um Deus Cruel etc. Integrante da Cia. de Teatro Os Satyros desde 2004, atuou em Kaspar, Transex, A Vida na Praça Roosevelt, Inocência, Divinas Palavras, Vestido de Noiva, entre outras. Está no elenco de “Liz”. O Monólogo da Velha Apresentadoraé seu primeiro trabalho solo.

Josemir Kowalick

Ator e diretor; atualmente coordena a Escola de Atores Wolf Maya. Na Escola dirigiu obras como As Mulheres de Shakespeare, baseado em obras do dramaturgo inglês, À Margem do Desejo, adaptado de textos de Tennessee Williams, e
faz preparação de atores para maioria dos projetos de TV e Teatro da referida escola. Entre seus principais trabalhos, destacam-se: Toda Nudez Será Castigada (Nelson Rodrigues), On The Road (baseado em obras de Sam Shepard), Traições (Jarbas Capusso Filho) e Atire a Primeira Pedra (baseado em A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues).Voltar

O Montacargas

O texto é a terceira obra escrita para o teatro por Harold Pinter (Nobel de Literatura em 2005) e nos apresenta dois homens que se encontram num porão à espera de uma terceira pessoa, enquanto conversam sobre futebol e comentam as notícias dos jornais. Aos poucos, sob a aparente banalidade dos diálogos, vai se revelando ao espectador um vasto conteúdo inconsciente, a partir das sutis indicações dos motivos que os levaram ao porão e a tarefa que ali irão realizar.

A encenação, fruto da pesquisa realizada desde o inicio de 2008 pelo grupo Na Cia. dos Homens, cuja principal referência é a obra do cineasta francês Robert Bresson, constrói-se a partir de um acurado cuidado com a palavra, aliado ao minimalismo e à economia de meios, que permeiam os elementos que compõem a cena (cenários, figurinos, iluminação...) bem como o trabalho do ator que, utilizando-se do silêncio e da imobilidade, busca conferir aos seus personagens uma dimensão arquetípica e simbólica.

Bráulio Ferraz

Ator. Formado pela Teatro-Escola Macunaíma. Estudou também no Royal Welsh College of Music and Drama - Cardiff, Reino Unido e no Mark Keppel High School - Monterey Park-California-USA. Atuou nos espetáculos: Os Possessos, direção de Antonio Abujamra; Insones 3x4, direção de Ed Anderson Mascarenhas; Happy End e Surabaya, Johnny, direção Marco Antonio Rodrigues; Ópera dos 500, direção de Naum Alves de Souza; Oração para um pé de chinelo, dreção de Dizoneth; entre outros.

César Maier

Ator, diretor e dramaturgista. Iniciou seus estudos em teatro em 1988 no curso Interpretação a Partir do Trabalho com Máscaras e Maquiagem, com os atores George Bigot e Maurice Durozier do Thêatre du Soleil. Fez cursos com Rubens Correia, Aderbal Freire Filho e Antunes Filho, entre outros. Atuou nos espetáculos: O Defunto, de Renê de Obaldia; Conversação Sinfonieta, de Jean Tardieu; O Claro Abelardo, de Antonin Artaud (este também sob sua direção), entre outros. Voltar

Justine

Partindo de um estudo profundo da obra do marquês de Sade, e de um resgate crítico das montagens de A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, Os Satyros se propuseram a realizar a montagem de Justine, concluindo, assim, a Trilogia Libertina.

Para a realização de Justine, a companhia trabalhou por mais de nove meses com uma equipe de mais de trinta pessoas, dentro dos procedimentos críticos do chamado Teatro Veloz, método de trabalho desenvolvido pela companhia, em todas as etapas do processo criativo, resultando na montagem atual.

No ano em que a Cia. de Teatro Os Satyros completa seus 20 anos de existência, Justine vem como o resgate de todo o processo de criação, pesquisa e atuação realizado ao longo dessas duas décadas de trabalho.

Justine, personagem constante nos textos de Marquês de Sade, é a personificação do puritanismo, dos bons modos e da caridade, sendo caracterizada pela ingenuidade perante a sociedade cruel e depravada, retratada por Sade em suas obras. Justine é a contraposição de Juliette, irmã e antagonista da história, que se envolve em depravações, crimes e perversões.

Nas palavras de Contador Borges, poeta, ensaísta e tradutor de A Filosofia na Alcova no Brasil, “Os Satyros mais uma vez têm a ousadia de encarar Sade de frente (ou seria por trás?). Primeiro veio a concepção cênica de A Filosofia na Alcova e suas sucessivas belas montagens, desde os anos noventa até hoje. Em seguida o evento não menos audacioso de verter para o palco as aberrações fantásticas de Os 120 Dias de Sodoma. Agora é a vez de Justine. Enfim, suspiramos, a vítima têm a chance de mostrar a que veio, que o seu não de recusa é no fundo um dispositivo para a afirmação do libertino, adepto cego dos prazeres triunfais do individuo.

Os Satyros, 20 anos

Fundada em 1989 em São Paulo por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, a companhia já traz nos primeiros trabalhos a marca da ousadia e radicalidade. A partir de 1992, num exílio voluntário, se transfere para a Europa onde se apresenta em importantes festivais, como Avignon e Edimburgo. Em dezembro de 2000, Os Satyros retornam a São Paulo e se instalam na Praça Roosevelt, considerada na época uma das regiões mais perigosas da cidade, comandada pelo tráfico e pela prostituição. Os Satyros são considerados os responsáveis diretos pela sua revitalização, hoje um dos principais focos de agitação cultural da cidade. A companhia atua em vários segmentos artísticos, seja na publicação de livros, na produção radiofônica, televisiva e cinematográfica. Anualmente realiza, na entrada da primavera, o evento "Satyrianas", que, em sua última edição, reuniu mais de 30.000 pessoas durante 78 horas de atividades ininterruptas. Atualmente, Os Satyros possuem vários núcleos de trabalho, contando com mais de 50 profissionais. Ao longo destes 20 anos, atuaram em 15 países, produziram mais de 60 espetáculos e receberam prêmios internacionais e alguns dos mais importantes do teatro brasileiro.

Rodolfo García Vázquez

Fundador dos Satyros, diretor teatral e dramaturgo, tem desenvolvido sua carreira no Brasil e no exterior. Já trabalhou em mais de quinze países em projetos de instituições locais, além de apresentar os próprios trabalhos de sua companhia Os Satyros na Europa. Responsável pela elaboração e a reflexão sobre o processo de criação e interpretação d’Os Satyros, intitulado Teatro Veloz. Recentemente viajou para Bolívia, com o espetáculo A Filosofia na Alcova, e para Cuba, apresentando a peça Liz, do dramaturgo Reinaldo Montero, em cartaz também no Espaço dos Satyros Um, que recebeu em Cuba o Prêmio Villanueva da Crítica como melhor Espetáculo Estrangeiro.Voltar


A Filosofia na Alcova

Os Satyros trabalham com os textos de Sade desde 1990, quando encenaram a peça Sades ou Noites com os Professores Imorais, a partir do livro A Filosofia na Alcova. O espetáculo ficou um ano em cartaz, provocou polêmicas e recebeu várias indicações a importantes prêmios, como o Prêmio APETESP de Teatro, da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo, nas categorias direção, ator, ator coadjuvante, produtor executivo, iluminação e ator revelação.

Dolmancé e Madame de Saint’Ange, dois dos personagens mais libertinos da história da literatura universal, são os protagonistas desse texto, em que é apresentada a educação sexual de uma jovem virgem, com aulas práticas e teóricas de libertinagem. Após o período de aprendizado, a mãe da jovem chega ao palácio dos libertinos para tentar resgatá-la, quando então é confrontada pelos mentores da jovem e pela própria filha.

Em 1992, Os Satyros se transferem para Portugal e reestréiam Sades ou Noites..., agora como A Filosofia na Alcova, título original da obra. A peça faz temporada de sucesso no Teatro Ibérico, em Lisboa, e permanece em cartaz por dois anos.

Além de Portugal, A Filosofia na Alcova viajou para França, Inglaterra, Escócia, Ucrânia e Bolívia, e dezenas de cidades brasileiras. Participou de vários festivais, dentre eles Edimburgo, Avignon, Curitiba e Rio Preto. Na Praça Roosevelt, reestreou em março de 2003, e está em cartaz desde então. Até o momento, a peça foi vista por mais de 100.000 pessoas, em 1.200
apresentações.Voltar

Os 120 Dias de Sodoma

Segunda parte da Trilogia Libertina, Os 120 Dias de Sodoma está em cartaz desde maio de 2006. Desde então, realizou mais de 600 apresentações para um público superior a 40.000 pessoas. A peça trata das questões filosóficas e políticas colocadas pela obra sadeana, em um contexto brasileiro de corrupção e decadência das instituições sociais, que vieram à tona com o escândalo do “mensalão”, em 2006.

Os 120 Dias de Sodoma é um clássico da literatura mundial e um dos mais polêmicos de sempre. Les 120 Journées de Sodome ou l'école du libertinage foi escrito em trinta e sete noites do ano de 1785, quando Sade tinha 45 anos. Nessa época, o autor se encontrava preso em uma cela da Bastilha, uma das prisões na qual viveu e que marcaram quase a metade de sua vida.

A ação do romance é situada algumas décadas antes da Revolução Francesa. Tudo começa quando quatro libertinos da época, figuras destacadas da sociedade francesa, dedicam-se durante um ano a organizar uma orgia que perdura 120 dias.

Para a orgia, foram raptados oito meninos e oito meninas virgens, dos mais belos da França, oito fodedores e quatro contadoras de histórias, além de um secto de damas de companhia, servas de copa e cozinha e todos os empregados necessários para o deboche.

As orgias eram executadas de acordo com um código elaborado pelos próprios libertinos, que deveriam seguir as histórias narradas pelas contadoras. O deboche é ambientado no castelo de propriedade de um dos libertinos, que se localiza no alto de montanhas, local ermo e isolado.

Dividida em quatro ciclos (ciclo das paixões simples, das paixões complexas, das paixões criminosas e das paixões assassinas), trata-se de uma história fantasticamente bem construída, com uma ordem estrita de eventos. Apesar disso, não foi completada pelo Marquês, devido às condições em que foi produzida.

Apenas o primeiro ciclo foi escrito integralmente, porém sem que o marquês pudesse haver feito uma revisão. Os ciclos restantes receberam apenas apontamentos. Sua intenção óbvia seria a de completar a obra assim que tivesse recuperado suas condições normais de vida.

Infelizmente, o manuscrito perdeu-se na Bastilha e até sua morte, Sade lamentou sua perda. Apenas muitas décadas depois, o manuscrito foi localizado e teve sua primeira publicação em 1904.Voltar