Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu

SANTOS DE DEVOÇÃO
(Verdades Reveladas e Verdades Alcançadas)

Por Vânia Corrêa Pinto

Dentro do Projeto Brasileirinho - Os Tons da Aquarela Cultural de nosso País, a turma 1009 do Colégio Estadual Vicente Jannuzzi (Rio de Janeiro) analisou as três músicas do CD Brasileirinho, de Maria Bethânia, dedicadas aos chamados Santos de Devoção - Santo Antônio, São Jorge e São João. Para tanto, os alunos recorreram a textos de Santo Agostinho, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Carlos Drummond e Fernando Pessoa.

JOEL - Dogmatismo e busca da verdade: todos nós sabemos que a filosofia consiste na busca incessante pela verdade e que o filósofo é aquele que ama o conhecimento. Quando Sócrates, há 2.500 anos atrás disse: "Só sei que nada sei", notamos que ele desconfiava das opiniões e crenças estabelecidas em sua sociedade, mas também desconfiava das próprias idéias e opiniões. Do que desconfiava ele, afinal? Desconfiava do dogmatismo.

JÚLIO CÉSAR - Dogmatismo é uma atitude muito natural e muito espontânea que temos, desde muito crianças. É a nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente tal como o percebemos. Temos essa crença porque somos seres práticos, isto é, nos relacionamos com a realidade como um conjunto de coisas, fatos e pessoas que são úteis ou inúteis para a nossa sobrevivência.

ANA LUÍSA - Na atitude dogmática, tomamos o mundo como já dado, já feito, já pensado, já transformado; aceitamos sem nenhum problema que há uma realidade exterior a nós e que, embora externa e diferente de nós pode ser conhecida e tecnicamente transformada por nós. Achamos que o espaço existe, que nele estão as coisas como um receptáculo - achamos que o tempo também existe e que nele as coisas e nós próprios estamos submetidos à sucessão dos instantes.

PEDRO - Vamos escutar agora, por um momento, a indagação de Santo Agostinho, em suas Confissões:

O que é o tempo? Tentemos fornecer uma resposta fácil e breve. O que há de mais familiar e mais conhecido do que o tempo? Mas, o que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não encontro explicação. Se eu disser que o tempo é passagem do passado para o presente e do presente para o futuro, terei que perguntar: Como pode o tempo passar?Como sei que ele passa? O que é tempo passado?Onde ele está? Se o passado é o que o eu , do presente, recordo e o futuro é o que o eu, do presente, espero, então não seria mais correto dizer que o tempo é apenas o presente? Quando acabo de colocar o "r" no verbo "colocar", este "r" é ainda presente ou já é passado? A palavra que estou pensando em escrever a seguir, é presente ou é futuro? O que é o tempo, afinal? E a eternidade?

JULIANA - As coisas são mesmo tais como me aparecem? Estão no espaço? Mas, o que é o espaço? Vamos tentar entender um pouquinho essas indagações através do poeta Mário de Andrade em seu poema "Lira Paulistana":

"Garoa do meu São Paulo,/ Um negro vem vindo, é branco!/ Só bem perto fica negro,/ Passa e torna a ficar branco.// Meu São Paulo da garoa,/ - Londres das neblinas frias - / Um pobre vem vindo, é rico!/ Só bem perto fica pobre."

GLAUCIA - Esses versos, nos quais a garoa de São Paulo se parece com a neblina de Londres, isto é, com um véu denso de ar úmido, são lindos! Esse poema diz que não conseguimos ver a realidade: o negro de longe é branco, o pobre de longe é rico; só muito de perto, sem o véu da garoa, o negro é negro e o pobre é pobre. Mas, apesar de vê-los de perto tais como são, de longe voltam a ser o que não são.

JOEL - O poeta exprime um dos problemas que mais fascinam a filosofia: como a ilusão é possível? Como podemos ver o que não é? Mas, consequentemente, como a verdade é possível? Como podemos ver o que é, tal como é? Qual é a "garoa" que se interpõe entre nosso pensamento e a realidade? Qual a "garoa" que se interpõe entre nosso olhar e as coisas?

JÚLIO CÉSAR - Um dos pontos de discussão da filosofia sobre a leitura que podemos fazer da realidade - como podemos captá-la, passa pela experiência do sagrado, do sobrenatural. O homem tenta entender a si próprio e o mundo através da sua crença.

ANA LUÍSA - O sagrado é uma experiência da presença de uma potência ou de uma força sobrenatural que habita algum ser - planta, animal, humano, coisas, ventos, águas, fogo. Essa potência é tanto um poder que pertence a algum ser, quanto algo que ele pode possuir e perder, não ter e adquirir.

PEDRO - O sagrado opera o encantamento do mundo, habitado por forças maravilhosas e poderes admiráveis que agem magicamente. Criam vínculos de simpatia-atração e de antipatia-repulsão entre todos os seres, agem à distância, enlaçam entes diferentes com laços secretos e eficazes.

JULIANA - A atitude dogmática ou natural se rompe quando somos capazes de uma atitude de estranhamento diante das coisas que nos pareciam familiares. Dois exemplos podem ilustrar essa capacidade de estranhamento, ambos da escritora Clarice Lispector em seu livro A descoberta do mundo. O primeiro tem como título "Mais do que um inseto":

Custei um pouco a compreender o que estava vendo, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma "esperança", o que sempre disseram que é de bom augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde transparente, com pernas que mantinham seu corpo plano alto e por assim dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da casca. Mas onde estariam nele as glândulas de seu destino e as adrenalinas de seu seco verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes.

GLAUCIA - O outro se intitula "Atualidade do ovo e da galinha" e nele podemos ler o seguinte trecho:

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo apenas: ver o ovo é sempre hoje; mal vejo o ovo e já se torna ter visto o ovo, o mesmo há três milênios. No próprio instante de se ver um ovo ele é a lembrança de um ovo. Só vê o ovo quem o já o tiver visto... Ver realmente o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos que o ouvido já não ouve. Ninguém é capaz de ver o ovo... o ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou, foi uma superfície que veio ficar embaixo do ovo... O ovo é uma exteriorização: ter uma casca é dar-se... O ovo expõe tudo.

JOEL - À primeira vista, pode existir algo mais normal ou comum do que um ovo ou um inseto? No entanto, Clarice Lispector nos faz sentir admiração e estranhamento, como se jamais tivéssemos visto um inseto ou um ovo. Clarice nos leva para o mundo misterioso do sentido das palavras. Se as palavras tivessem sempre um sentido óbvio e único, não haveria literatura, se a realidade tivesse sempre a mesma interpretação óbvia e única, não haveria filosofia.

JÚLIO CÉSAR - A mesma estranheza de Clarice pode ser encontrada num poema de Carlos Drummond de Andrade, mas agora relativa à linguagem. Usamos todos os dias as palavras como instrumentos dóceis e disponíveis, como se sempre estivessem estado prontas para nós, com seu sentido claro e útil. O poeta, porém, aconselha:

"Penetra surdamente no reino das palavras.../ Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ Tem mil faces, sem interesse pela resposta,/ Pobre ou terrível, que lhe deres:/ Trouxestes a chave?"

ANA LUÍSA - Se as palavras tivessem sempre o mesmo sentido e indicassem diretamente as coisas nomeadas, como seria possível a mentira? É por isso que o poeta Fernando Pessoa, em versos famosos, escreveu:

"O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor,/ A dor que deveras sente."

PEDRO - O poeta é um "finge-dor" e seu fingimento - isto é, sua criação artística - é tão profundo e tão constitutivo de seu ser de poeta, que ele finge - isto é, transforma em poema, em obra de arte - a dor que deveras ou de verdade sente. A palavra tem o poder misterioso de transformar o que não existe em realidade ( o poeta finge) e de dar aparência de irrealidade ao que realmente existe (o poeta finge a dor que realmente sente).

JULIANA - Como é possível que a linguagem tenha tamanho poder mistificador? E, ao mesmo tempo, como é possível que, em todas as culturas, na relação entre o homem e a divindade, entre o PROFANO E O SAGRADO, o papel fundamental de revelação da verdade seja sempre dado à linguagem, à palavra sagrada, verdadeira que os deuses dizem aos homens? Como uma mesma coisa - a palavra, o discurso - pode ser origem, ao mesmo tempo, da verdade e da falsidade? Como a linguagem pode mostrar e esconder? Como essa duplicidade misteriosa da linguagem pode servir para manter o dogmatismo? Mas também, como pode despertar o desejo de verdade?

GLAUCIA - Vocês podem observar que são inúmeras as perguntas que temos feito até então... A Busca da Verdade é constante... Nós, agora vamos passar para vocês três músicas do CD Brasileirinho que falam sobre Verdade Reveladas. Verdades que estão presente em nosso meio através da relação que estabelecemos com o sagrado.

JOEL - Os vários exemplos que mencionamos nesse seminário indicam concepções diferentes da verdade. No caso de Mário de Andrade e Clarice Lispector, o problema da verdade está ligado ao ver, ao perceber. No caso de Fernando Pessoa e Carlos Drummond a verdade está ligada ao dizer, ao falar, às palavras. No caso das músicas dos Santos de Devoção, escolhidas pela cantora Maria Bethânia, a verdade está ligada ao crer, ao acreditar. Vejamos:

"Santo Antônio" (J. Velloso):

"Que seria de mim meu Deus/ Sem a fé em Antônio/ A luz desceu do céu/ Clareando o encanto/ Da espada espelhada em Deus/ Viva viva meu santo/ Saúde foge/ Volta pro outro caminho/ Amor que se perde/ Nasce outro no ninho/ Maldade que vem e vai/ Vira flor na alegria/ Trezena de junho / É tempo sagrado na minha Bahia/ Antônio querido/ Preciso de seu carinho/ Se ando perdido/ Mostre-me novo caminho/ Nas tuas pegadas claras/ Trilho o meu destino/ Estou nos teus braços/ Como se fosse deus-menino."

"Padroeiro do Brasil" (Ary Monteiro - Irany de Oliveira):

"Em toda casa tem um quadro de São Jorge/ Em toda casa onde o santo é protetor/ Num barracão, num bangalô de gente nobre/ Há sempre um quadro desse santo salvador/ Quem é devoto é só fazer uma oração/ Que o guerreiro sempre atende/ Dando a sua proteção/ Por isso mesmo não devemos esquecer/ A grande data dia 23 de abril/ Vamos cantar com alegria e prazer/ Porque São Jorge é o padroeiro do Brasil!"

"São João Xangô Menino" (Caetano Veloso - Gilberto Gil):

"Ah! Xangô Xangô menino/ Da fogueira de São João/ Quero ser sempre o menino Xangô/ Da Fogueira de São João/ Céu de estrela sem destino/ De beleza sem razão/ Tome conta do destino Xangô/ Da beleza e da razão/ Viva São João, viva o milho verde/ Viva São João, viva o brilho verde/ Viva São João, das matas de Oxossi/ Viva São João./ Olha pro céu meu amor/ Veja como ele tá lindo/ Noite fria de junho Xangô/ Canto tanto canto lindo/ Fogo, fogo de artifício,/ Quero ser sempre menino/ As estrelas desse mundo Xangô/ Ah, São João Xangô menino."

JÚLIO CÉSAR - As três músicas acima expressam o desejo da cantora de mostrar como a fé, a crença, e a confiança podem modificar a vida das pessoas. A relação do homem com o sagrado, com as forças sobrenaturais é pré-histórica! Cantar Santo Antônio, São João e São Jorge é reverenciar a religiosidade do povo brasileiro - é perceber que apesar de todas as adversidades, temos fé o suficiente para mudar nós mesmos e nosso país. O Brasileirinho é o Brasil da fé, da oração e da busca daquilo que é da pátria. E nessa busca, a filosofia é herdeira das três grandes concepções da verdade: a do ver- perceber, a do falar-dizer e a do crer-confiar.

Copyright © 2006. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais