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Agência de Notícias Brasileirinho

Boletim de 16/9/08

"FAZ TRÊS SEMANA" NÃO É DE NOEL ROSA
Paródia de "Sussuarana" foi gravada em 1931 com o título "O Sem Trabalho"

A paródia "Faz Três Semana" foi incluída em duas das listas de obras de Noel Rosa que passaram ao domínio público no início deste ano - tanto a do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV quanto a do Projeto Noel Rosa do site Brasileirinho. Entretanto, em realidade esta composição não se encontra em domínio público e, ao que tudo indica, também não é de autoria de Noel Rosa.

Foi o leitor José Antipa, de São Paulo, que nos alertou, através de um e-mail enviado na quinta-feira, 4 de setembro, para a semelhança entre "Faz Três Semana" e "O Sem Trabalho", paródia a "Sussuarana" assinada por Eratóstenes Frazão gravada em 1931.

"Sussuarana" e "O Sem Trabalho"

A toada "Sussuarana", de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, foi gravada por Gastão Formenti no disco Odeon 10171-A, em maio de 1928, alcançando grande sucesso contando a história de alguém que viveu grande amor e o perdeu.

Uma paródia de "Sussuarana", com o título "O Sem Trabalho", foi gravada pelo cantor Luiz Antônio na Parlophon (disco 13358-A, lançado entre setembro e novembro de 1931). O selo do disco indicava a seguinte autoria: "Hekel Tavares - Paródia de E. Frazão". A letra, que narrava os apuros de um desempregado para driblar a fome, é exatamente igual - salvo pequenas variações - à de "Faz Três Semana", cuja autoria é atribuída a Noel Rosa por João Máximo e Carlos Didier no livro Noel Rosa, uma Biografia (1990). "O Sem Trabalho" tem, ainda, duas estrofes a mais que "Faz Três Semana".

A carreira do cantor Luiz Antônio limitou-se a esse disco de paródias famintas (no lado B, cantou "Mal de Fome", sátira a "Mon Ideal", de Whiting, assinada por Cristóvão de Alencar e Nássara). Era em realidade um pseudônimo adotado por Antônio Nássara, que desenvolveria longa carreira como compositor, tendo como principal parceiro justamente Eratóstenes Frazão (1901-1977).

Paródia

Uma paródia é, basicamente, uma nova letra para uma melodia conhecida, escrita com propósitos humorísticos (em geral, o humor resulta do reconhecimento que o ouvinte faz da canção original e da relação proposta entre ela e a nova letra). Embora tecnicamente seja uma parceria entre o autor da melodia original e o novo letrista, é comum creditar-se apenas o autor da letra. O selo do disco de 1931, neste caso, seria uma exceção. Aliás, o fato mesmo de se gravar uma paródia sempre foi também uma exceção. O próprio Noel Rosa, reconhecido como autor fértil de paródias, só teve uma gravada em vida - a do tango "El Penado 14", de Agustín Magaldi, Pedro Noda e Carlos Pesce. Intitulada "Pesado Treze", foi gravada pelo cantor Paulo Netto de Freitas também em 1931 na Parlophon. O selo do disco indicava como gênero "paródia" e citava apenas Noel como autor. Pela lei de Direito Autoral em vigor no Brasil (Lei nº 9610/98, art. 47), é livre a paródia que não seja plágio da obra que a inspirou, nem a deprecie. Assim, "Pesado Treze" passou ao domínio público juntamente com as obras que Noel escreveu sozinho.

"Faz Três Semana"

Almirante, em No Tempo de Noel Rosa, não se refere a nenhuma paródia de "Suçuarana". É o livro de Máximo & Didier que apresenta a letra de "Faz Três Semana" como sendo de Noel. À página 224 da obra, descrevem como o Poeta da Vila foi ovacionado ao "cantar uma paródia sua para Suçuarana" (grifo nosso) num show em Pelotas (RS) em maio de 1932, durante a excursão dos Ases do Samba (além de Noel, Francisco Alves, Mário Reis, Nonô e Pery Cunha) ao Sul. O trecho não deixa dúvidas da certeza de Máximo & Didier sobre a autoria de Noel - informação cuja fonte atribuem, na musicografia ao final do livro (à página 502), a Armênio Mesquita Veiga. A paródia foi considerada inédita até 1995, quando Cristina Buarque e Henrique Cazes a gravaram no CD Sem Tostão...A Crise Não É Boato... - Canções De Noel Rosa (pelo selo francês Milan), faixa incluída posteriormente na caixa Noel Pela Primeira Vez (Velas, 2000).

Mesquita Veiga foi amigo e aluno de violão de Noel. Ao prestar depoimento para o livro de Máximo & Didier, apresentou-lhes várias músicas como sendo de autoria do Poeta da Vila. Ressalte-se o cuidado que os autores tiveram ao confrontar as afirmações de Veiga com outras fontes, quando possível (chegam a citar um fragmento de samba, que começa com o verso "Francamente, é pra gente enlouquecer...", mas não o assumem como de Noel). As cinco músicas que Mesquita Veiga apresentou e que Máximo & Didier incorporam à obra de Noel são o samba "Eu Não Preciso Mais do Seu Amor", a paródia "Faz Três Semana", o samba "Habeas-Corpus" (parceria com Orestes Barbosa, confirmada por este em seu livro Samba, de 1933), a "Marcha da Primavera" (que consta do livro de Almirante, fato não mencionado por Máximo & Didier) e o samba "Não Morre Tão Cedo" (também citado em depoimento de Aracy de Almeida).

As letras

A letra que Máximo & Didier apresentam como sendo de "Faz Três Semana" é:

"Faz três semana/ Que eu tô comendo banana/ Só porque não tenho grana/ Nem ao menos pra almoçar.// O que eu estou vendo/ É que se eu não me defendo/ Vou acabar me comendo/ Pra poder me alimentar.// Isso é despacho/ Nunca estive tão por baixo/ Que se eu não me agacho/ Vou morrer de inanição.// Eu me escangalho/ De pular de galho em galho/ Seu Ministro do Trabalho/ Não me dá colocação...// Meu esqueleto/ Está pior do que um graveto/ Eu já estou virando espeto/ Meus olhos já estão no fundo.// Num bruto treino/ Pra tomar café pequeno/ Quero ver se me enveneno/ Pra comer lá no outro mundo...// Inda outro dia/ Fui até a Galeria/ Só para ver se mordia/ O primeiro a aparecer...// Chegou a hora,/ Eu quis dizer: "É agora!"/ Mas, Virgem Nossa Senhora!/ Cadê dente pra morder?"

A letra cantada por Luiz Antônio no disco "O Sem Trabalho" é:

"Faz três semana/ Tô comendo só banana/ Porque não arranjo a grana/ Nem ao menos pra almoçar.// O que eu tô vendo/ É que se não me defendo/ Vou acabar me comendo/ Pra poder me alimentar.// Isso é despacho/ Nunca estive tão por baixo/ Que se eu não me agacho/ Vou morrer de inanição.// Eu me escangalho/ De pular de galho em galho/ Seu Ministro do Trabalho/ Não me dá colocação...// Meu esqueleto/ Tá pior do que um graveto/ Eu já tô virando espeto/ Meus olhos estão lá no fundo.// Num bruto treino/ De tomar café pequeno/ Quero ver se me enveneno/ Pra ir comer lá no outro mundo...// Inda outro dia/ Fui até a Galeria/ Só para ver se mordia/ O primeiro a aparecer...// Chegou a hora,/ Eu quis dizer: "É agora!"/ Mas, Virgem Nossa Senhora!/ Cadê jeito pra morder?// Meu esqueleto/ Tá pior do que um graveto/ Eu já tô virando espeto/ Meus olhos estão lá no fundo.// Num bruto treino/ De tomar café pequeno/ Quero ver se me enveneno/ Pra ir comer lá no outro mundo...// Tô com vontade/ De deixar esta cidade/ Onde há tanta maldade/ Onde há tanto mordedor. // Mas ando teso/ E tamanho é o meu peso/ Que sou capaz de ser preso/ Nomeado interventor."

Noel poderia ser co-autor de "O Sem Trabalho"?

A hipótese, embora plausível, parece improvável. Parceria em paródia não é comum (afinal, esta é lembremos, uma letra nova para música já conhecida), mas também não é impossível - o próprio lado B do disco de "O Sem Trabalho" era uma paródia em parceria. Mas não se conhecem paródias que Noel Rosa tenha feito em parceria. Outra hipótese plausível, a de que Noel pudesse ter escrito esta letra (sozinho, ou com Frazão) e vendido seu direitos, já é avançar demais com comprovação de menos.

A única parceria de Noel com Frazão é um fox-trot, "Julieta", gravado por Castro Barbosa em 1933. Um depoimento de Frazão, citado por Bruno Ferreira Gomes no livro Wilson Batista e Sua Época (Funarte, 1985, págs. 22-23), esclarece que nessa música a melodia é de Noel, e a letra, quase toda dele, Frazão. No depoimento, Frazão recorda como fez para impor o nome do então novato Noel Rosa antecedendo o do consagrado Ary Barroso no cartaz da peça Café com Música, de 1931, e também esta parceria - ele não deixaria de de referir outras, caso existissem.

Conclusão

A autoria da paródia "O Sem Trabalho" está claramente indicada a Frazão num disco lançado comercialmente em 1931. Já a referência a que a música, com estrofes a menos e o título de "Faz Três Semana", seria de Noel Rosa, baseia-se apenas no depoimento de Armênio Mesquita Veiga. Não há indício algum de que Noel ao menos fosse co-autor da composição.

Deste modo, não há como considerar a música como sendo de autoria de Noel nem tampouco pertencente ao domínio público, já que, tendo Frazão falecido em 1977, nos termos da lei vigente sua obra está protegida até 31/12/2047.

Saiba mais:

(Fabio Gomes/ Agência de Notícias Brasileirinho)

ADENDO

O jornalista Franklin Martins já comentara, numa série sobre músicas contando a história política do Brasil, que Noel Rosa não é autor da paródia de "Sussuarana". Só li seu texto após ter veiculado este boletim. Ele alude à co-autoria de Nássara, que não consta do selo da gravação.
Confira o texto de Franklin clicando aqui.

Fabio Gomes
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