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Agência de Notícias Brasileirinho

Boletim de 27/8/08

OLÍVIO DERRUBA MITOS SOBRE
ARTE, CRÍTICA E BRENNAND

Em palestra proferida em Porto Alegre na tarde desta terça, 26 de agosto, o crítico de arte Olívio Tavares de Araújo derrubou alguns mitos que envolvem a arte e a crítica. A palestra antecedeu a visita guiada que Olívio conduziu pela exposição da qual é curador, Brennand: uma Introdução, aberta na noite anterior no Museu da UFRGS. A mostra já passou por Fortaleza e, da capital gaúcha, segue para o Palácio das Artes (Belo Horizonte), onde estará entre outubro e novembro.

Desfazendo mitos sobre arte e crítica

1 - Crítica não existe para "botar defeito" na obra de arte. Falar mal do trabalho do artista não é de modo algum o papel do crítico, afirmou Olívio. Isto fica claro já na origem da palavra, a partir do grego krithe (trigo); crítico era quem separava o joio do trigo. A verdadeira função da crítica é semelhante à dos monitores (ou mediadores) que orientam o público nas exposições: ajudar o espectador na percepção dos múltiplos significados que a obra possa ter. Olívio também advertiu o público para que desconfie dos textos críticos ininteligíveis, que tentam colocar o crítico num pedestal, como se fosse superior ao artista e ao espectador.

2 - A obra de arte não encerra um significado oculto a ser desvendado. Olívio acredita que veio da psicanálise esse conceito, generalizado atualmente, de que toda obra de arte contém uma "mensagem" que o espectador deva decifrar. Para ilustrar a idéia, contou uma história acontecida com o compositor alemão Ludwig van Beethoven no começo do século 19. Quando, logo após tocar uma nova sonata ao piano, um nobre perguntou-lhe "O que esta sonata quer dizer?", Beethoven respondeu-lhe tocando a sonata novamente. "A obra de arte não quer dizer, ela é", reiterou Olívio.

3 - Apenas a obra de arte pode nos provocar uma emoção estética. Nenhuma outra coisa no mundo pode gerar o prazer proporcionado por uma obra de arte. Este prazer não tem ligação necessariamente com o tema da obra, tanto pode vir de uma melodia alegre como a "Nona Sinfonia" de Beethoven, quanto de um filme com cenas fortes como Dogville, de Lars von Trier. As mesmas cenas, que vistas na vida real, nos chocariam e provocariam repulsa, no contexto do filme geram um prazer estético capaz de nos provocar o desejo de revê-las.

Equívocos defeitos sobre Brennand

Outros mitos desfeitos foram sobre a obra do pernambucano Francisco Brennand, 81 anos, que Olívio definiu como um artista bastante conhecido que é autor de uma obra pouco vista. O crítico disse acreditar que a exposição atual, com cerca de 50 peças, esteja servindo como uma apresentação de Brennand ao público gaúcho - ao longo dos últimos 30 anos, não devem ter sido expostas em Porto Alegre mais que 10 peças do artista, em mostras isoladas. A obra de Brennand circula pouco, tanto pelo pouco empenho do próprio artista em comercializá-la, quanto por suas características físicas - esculturas cerâmicas pesadas e frágeis, cujo transporte exige muitos cuidados.

Não circulando, a obra que Brennand segue produzindo se incorpora ao acervo de mais de duas mil peças (entre quadros, desenhos e esculturas) mantido em sua oficina no bairro da Várzea, no Recife, decorado com azulejos cerâmicos de formas inusitadas que ele mesmo cria. Em função de todos estes fatores, ao longo de décadas, a crítica dificilmente analisava peças isoladas criadas por Brennand, chegando a generalizações sobre o conjunto de sua obra sem sustentação real.

Foi o próprio Olívio Tavares de Araújo que, ao ser chamado pela Pinacoteca de São Paulo em 1997 para ser curador de uma retrospectiva de Brennand, e tendo, portanto, que analisar detidamente cada obra, começou a desfazer alguns equívocos recorrentes:

1 - A obra de Brennand não tem caráter nacionalista. Julgar a obra de Brennand como "essencialmente brasileira" foi uma simplificação gerada a partir da soma de fatores como a origem do artista (o Nordeste) mais o material que usa preferencialmente nas esculturas (o barro) - como se Brennand fosse uma versão erudita do Mestre Vitalino. Nada, porém, em sua obra - sejam formas, sejam títulos das peças (por exemplo, estão expostas na UFRGS: Calígula, Nabucodonosor, Joana d'Arc) - remete ao Brasil. Quando muito, a cenografia dos quadros, que apenas ambientam em território brasileiro situações que poderiam acontecer em qualquer parte do mundo.

2 - A obra de Brennand não é religiosa. Não é porque um artista é nordestino que sua obra tem que seguir as características comumente asociadas à produção do Nordeste. Olívio confirma que, realmente, na segunda metade da década de 1960, a pintura de Brennand passou por uma fase de temas religiosos, abandonados em sua produção posterior. Conforme Olívio, "essa visão está atrasada pelo menos 40 anos". O crítico acredita que a própria atmosfera da oficina no Recife pode levar as pessoas a ligar à religião a obra de Brennand, sem que esta seja a intenção do artista.

3 - Brennand não é um representante do Movimento Armorial nas artes plásticas. Ligá-lo aos armoriais é, de certo modo, um equívoco decorrente do anterior. Mas carece de fundamento, inclusive cronológico: quando Ariano Suassuna cria o movimento em 1970, Brennand já encerrara sua fase religiosa. Nada em sua produção remete a qualquer ligação com o pensamento armorial.

Serviço

Brennand: uma Introdução
Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(Av. Osvaldo Aranha, 277, Bom Fim, Porto Alegre)
Visitação: terça a domingo, das 9 às 18h, até 28/9
Entrada franca

(Fabio Gomes/ Agência de Notícias Brasileirinho)

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