Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 3 - 23/6/2003

Músicas juninas

As músicas cantadas nas festas juninas de Norte a Sul do Brasil são, quase todas, marchas compostas na década de 1930 - com a notável exceção do repertório composto e/ou gravado por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, dos anos 40 e 50 e predominante no Nordeste (ver filme Viva São João, de Andrucha Waddington). A partir de 1933, as gravadoras identificaram neste ciclo de festas populares o que hoje seria chamado de "nicho de mercado". O grande sucesso desse ano foi "Chegou a Hora da Fogueira" (Lamartine Babo), que Carmen Miranda e Mário Reis gravaram na Victor com grande arranjo de Pixinguinha. Carmen e Mário repetiram a fórmula no ano seguinte, com "Isto é Lá com Santo Antônio!" (Lamartine Babo). Já o sucesso junino de 1935 coube a Carmen: "Sonho de Papel" (Alberto Ribeiro, 1935) ("O balão vai subindo/ Vem caindo a garoa..."). A irmã de Carmen, Aurora, estreou gravando com Francisco Alves em "Cai, Cai Balão!" (Assis Valente, 1933). O Rei da Voz chegou a lançar DOIS discos juninos em 1935. Já no ano seguinte, Chico Alves só registrou uma música junina, "Pula a Fogueira" (Getúlio Marinho - João Bastos Filho). A fogueira do gênero estava apagando. Aliás, é sintomático que o disco de Orlando Silva com "História Joanina" (sic) (Leonel Azevedo - J. Cascata) tenha saído somente em julho de 1936. Já não era uma música para cantar pisando nas brasas, e sim tendo a festa de São João como cenário. E é dessa forma que, as festas juninas ainda continuaram a aparecer no repertório urbano - por exemplo, o amor de Noel Rosa e Ceci nasceu, como bem diz o samba "Último Desejo", de 1937, numa festa de São João; já Lupicínio Rodrigues culpa o santo por não conseguir seu amor fazendo uma simpatia em "Pra São João Decidir", de 1952 (parceria com Francisco Alves).

Não sei exatamente por que os compositores pararam de fazer músicas juninas. O mais provável é que as gravadoras tenham se desinteressado do negócio, pois era um produto que só vendia no início de junho (geralmente estas músicas eram gravadas no final do mês anterior! - "Cai, Cai Balão" foi registrada em 22 de maio...).

(Fabio Gomes)

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A primeira letra de "Carinhoso"

No dia em que estive no Litterata Espaço Cultural Livraria e Café (Porto Alegre, 22/4/2003) falando sobre Pixinguinha, aproveitei para revelar aos presentes a primeira letra de "Carinhoso". Esta música teria sido composta em 1917 ou 1923 e só foi lançada em 1929 - aliás, no disco saiu como "Carinhos"... Outras gravações vieram, mas o responsável por popularizar "Carinhoso" foi Jacob do Bandolim, que começou a tocá-la seguidamente no programa em que trabalhava na Rádio Guanabara, por volta de 1934. A letra de João de Barro que hoje todos cantam só surgiu em 1937.

Antes disso, porém, o compositor Pedro Caetano (autor de "É com Esse que Eu Vou") escreveu uma letra que não chegou a mostrar a ninguém, só revelando o fato em seu livro Meio Século de Música Popular Brasileira - O que Fiz, O que Vi (conforme Rui Ribeiro, Folha de São Paulo, 14/6/1987). Eis a letra que li, com acompanhamento do bandolim de Rafael Ferrari, da Camerata Alma Brasileira :

"Na mansidão/ Do teu olhar/ Meu coração/ Viu passear/ Uma feliz/ E meiga bonança/ Quis alcançar/ Sentiu esperança/ Mas viu fugir/ Sem lhe sorrir/ Preso à sensação/ Daquele quadro que a ilusão/ Descortinou tão docemente/ Bate cegamente a suspirar/ Por uma luz/ Que mal surgiu viu-se apagar.// Vem, vem, vem, vem/ Traz ao fosco brilha/ Dos olhos meus/ A carícia dos teus/ Vem sentir o quanto é bom/ E carinhoso, vem afagar/ Este coração/ Que a solidão quer matar."

Em comum, as duas versões tem o "vem, vem..." no mesmo lugar, além de um "mas" ("mas mesmo assim", João de Barro; "mas viu fugir", Pedro Caetano) também em posições idênticas. Fora isso, como disse o Luís Barcelos na ocasião, "Nada a ver..."

(F. G.)

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O tamborim chega ao Brasil

Sérgio Cabral, no livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Ed. Lumiar) atribui ao sambista Bide (Alcebíades Barcelos) a invenção do tamborim, apoiado em relato do próprio Bide (que afirma ter criado o surdo, a partir de uma lata grande de manteiga, depois dizendo que o tamborim ele não lembrava se tinha inventado ou apenas encontrado) e de Bucy Moreira, que também achava que Bide podia ter sido o inventor. Isto teria ocorrido no final dos anos 20, quando o tamborim já tinha mais de 400 anos de Brasil. Aliás, é um dos primeiros instrumentos europeus registrados aqui, pelo autor da Carta do Descobrimento, Pero Vaz de Caminha.

Consta no documento, na narração dos fatos ocorridos a 30 de abril de 1500, uma quinta-feira: "Nesse dia enquanto ali andavam, [os índios] dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus." Tamboril? Sim, este é o nome português do tamborim desde o século XIV, pelo menos. Também há uma cidade chamada Tamboril no Ceará, citada por Euclides da Cunha em Os Sertões como um dos locais por onde passou Antônio Conselheiro antes de se fixar em Canudos.

(F. G.)

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