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Mistura e Manda

Nº 124 - 12/12/2005

CAMPEÕES DA SEMANA
Mais lidos de 4 a 10/12

1) Roberto Carlos e a Religião - 264
2) Mistura e Manda nº 28 - 260
3) O Trabalho na Música Popular Brasileira - 134
4) Samba e Indústria Cultural (1916-40) - 131
5) Dicas - 120
Obs: em número de acessos

Novidades no Brasileirinho

Na quinta, colocamos um link para novo filme, Jorjão, que conta a história de célebre mestre de bateria carioca. No filme, ele é visto comandando duas baterias (uma de cada vez, certo?), a da Unidos de Viradouro e a da Mocidade Independente de Padre Miguel.

(Fabio Gomes)

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Wisnik e outra "bigamia"

Contamos no Mistura e Manda nº 41 a história de uma "bigamia" envolvendo uma melodia de Guinga, que se chama "Canção Desnecessária" com a letra de Manuel Aguiar e, com os versos de José Miguel Wisnik, o primeiro escalado para letrá-la, "Canção Necessária".

Outro caso de "bigamia" recentemente envolveu Wisnik, como ele revelou no show que fez ao lado do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa no Salão de Atos da UFRGS (Porto Alegre), em 29 de agosto de 2005. Gal Costa pedira a Wisnik e Chico Buarque uma música para o show Todas as Coisas e Eu (2003), mas não foi atendida. Quando se preparava para gravar o CD Hoje, a baiana renovou o pedido. Wisnik procurou Chico, que acabou passando uma melodia para Wisnik colocar letra, o que resultou em "Embebedado". Isso é completamente fora dos hábitos de Chico, em geral ele é que recebe uma melodia pronta para colocar versos. Mais ainda: talvez tenha sido a primeira vez que isso aconteceu, pois as poucas vezes em que Chico musicou versos de outros (João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Augusto Boal e Hermínio Bello de Carvalho), os versos já existiam ou, como na sua parceria com Ruy Guerra, Chico os escrevia junto com o parceiro.

A "bigamia" está no fato de a mesma melodia já ter sido entregue por Chico a Sergio Bardotti, que escreveu uma letra em italiano e batizou a canção como "Risotto Neto" - que vem a ser a canção inédita do DVD Vai Passar.

(F.G.)

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Raio-X: Louco Não Estou Mais

Até o começo dos anos 1990, cada capítulo das novelas de televisão começava com um ligeiro resumo do capítulo anterior (hoje são só poucos frames) e encerrava com as cenas do próximo capítulo. Isso era a regra. Mas, algumas vezes, as emissoras reservavam o sábado para um compacto dos capítulos da semana, de modo que os espectadores poderiam, digamos, "recuperar" o que houvessem perdido (essa prática, porém, jamais chegou à maior produtora do gênero, a TV Globo). Falo nisso porque a música que será radiografada hoje, "Louco Não Estou Mais" (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), que Roberto gravou em seu 3º LP, É Proibido Fumar (CBS, 1964), lembra esses capítulos de recuperação dos capítulos anteriores. Vamos à letra:

"Louco não estou mais, Malena eu esqueci/ Susie, aquela ingrata, nunca mais eu vi/ Vivo chorando e ninguém chora por mim./ Meu beijo já não faz, não faz splish splash/ Nunca mais chamei ninguém/ De baby, meu bem/ Vivo chorando e ninguém chora por mim./ Até Mr. Sandman me aconselhou:/ - Roberto, tome jeito/ Arranje um amor/ Brotinho sem juízo deixe de ser/ Senão em sua vida você vai sofrer./ Linda foi namoro que pouco durou/ Triste e abandonado atualmente eu estou/ Vivo chorando e ninguém chora por mim. // (Pertinho de onde eu moro tem um broto encantador/ Linda, oh, Linda/ Mr. Sandman!/ Baby, meu bem.../ Oh, oh, oh Malena/ Splish Splash!)."

Na letra, são citados 11 (ou 12 - já explico) músicas que Roberto havia gravado entre 1960 e 1963: de um compacto de 1960, "Brotinho sem Juízo" (Carlos Imperial); do LP Louco por Você (1961), "Mr. Sandman" (versão de Carlos Alberto para música de Pat Ballard) e "Chore por Mim" (versão de Júlio Nagib para "Cry me a River", de Arthur Hamilton), além de três contribuições de Imperial: um samba ("Chorei") e duas versões, "Louco por Você" (no original, "Careful, Careful", de Lee Pockriss e Paul Vance) e "Linda" (Bill Caesar); de um compacto de 1962, "Malena" (Rossini Pinto - Fernando Costa); de outro compacto de 1962, "Susie" (Roberto Carlos) e "Triste e Abandonado" (Hélio Justo - Erly Muniz); e do LP Roberto Carlos (1963), "Splish Slash" (versão de Erasmo para música de Bob Darin e Jean Murray), "Baby, meu Bem" (Hélio Justo - Tito Santos) - OK, 11 até aqui - e talvez "Relembrando Malena" (com Rossini Pinto reciclando a musa). No trecho entre parênteses da letra, Roberto, alternando fala e canto, cita trechos de algumas das músicas originais, durante o solo do grupo The Youngsters.

É praticamente um balanço na carreira, muito curioso se pensarmos que, a rigor, só uma dessas canções fez sucesso (você acertou, é "Splish Slash"). Outra coisa muito curiosa - e por isso eu pensei em novela - é que, em "Louco não Estou Mais", o público pôde saber o que teria acontecido com alguma das musas, digamos, depois das músicas. Ninguém desconfiava, por exemplo, da ingratidão de Susie (o "broto encantador" da parte falada)! No original de 1962, ela era descrita como "o broto mais bonito que até hoje eu namorei!". Mas não deve ser surpresa Malena ter sido esquecida. Já na primeira música, havia o lamento por ela não ligar ao amor do cantor: "Malena,/ Eu sou um sofredor!/(...) Oh! Oh! Oh! Malena,/ Eu choro por te amar"; na segunda, a do disco de 1963, temos a impressão de que ela acedera aos rogos dele, mas o amor teria sido rápido e já acabara: "Malena querida, relembro os momentos felizes/ De alegria e ternura/ Que ao teu lado vivi!/ (...) Malena querida,/ Perdoa a minha loucura/ Esquece o passado/ E volta pra mim!".

Agora, incrível mesmo é a referência a que o namoro com Linda "pouco durou". No disco de 1961, o cantor dizia que vivia "triste a esperar/ Linda (...)/ Que você me queira amar." A esperança não seria infundada, Linda já dera uma prova de seu amor - e que prova, leiam só: "Naquele momento em que você me beijou/ A Terra tremeu e a vida parou/ Meu sangue ferveu e a cabeça girou/ E o meu coração queimou." Uau!

(F.G.)

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