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Mistura e Manda

Nº 133 - 20/3/2006

Comemorando os 61 anos de Elis

Se viva estivesse, a cantora Elis Regina completaria 61 anos na sexta, 17. Completaria? Ela está mais viva do que nunca, ao menos para seus admiradores. Foi o que disse o diretor da Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre), Sérgio Napp, ao falar no evento comemorativo promovido pelo Acervo Elis Regina, mantido pela CCMQ.

Aberto em setembro, pela primeira vez o Acervo promoveu um evento valorizando a imagem de sua homenageada. Além da fala de Napp (à qual voltaremos), os presentes puderam ouvir Tribo Brasil, Karine Cunha, Darcy Alves e Luciano Fortes interpretando músicas consagradas na voz de Elis (ah, ia esquecendo, os funcionários do Acervo também quiseram homenagear Elis, cantando).

A Tribo Brasil trouxe versões muito boas de "Upa, Neguinho" (Edu Lobo - Gianfrancesco Guarnieri) e "Canto de Ossanha" (Baden Powell - Vinicius de Moraes), seguindo a linha melódica dos arranjos originais, mas colocando pitadas bem-humoradas de inovação - como transformar o vocalise final de "Upa, Neguinho" em "tri-pra-cantar" (observação pra quem não é gaúcho: "tri" é uma gíria local pra definir uma coisa que impressiona bem, que é muito boa.. enfim, que é muito tri!) No caso, parece uma redução de "tri a fim", ou seja, o grupo manifestava que estava muito empolgado com a idéia de cantar no aniversário de Elis (a empolgação se transmitiu ao público ao ouvi-los!).

Karine repetiu, em voz e violão, a sua bela versão de "Essa Mulher" (de Joyce, faixa-título do LP de Elis de 1979), que cantara na véspera no Foyer do Theatro São Pedro, acompanhada pelo piano de Bethy Krieger. Karine consegue uma proeza, mantendo a voz segura num trecho em que a própria Elis tinha dificuldade, no verso "Seca o bar".

Darcy Alves, com seu vozeirão característico, interpretou corretamente clássicos de Lupicínio Rodrigues (apenas um dos quais efetivamente gravado por Elis, "Cadeira Vazia", parceria com Alcides Gonçalves), acompanhando-se ao violão. Já Luciano não esteve muito bem nas suas versões de "Águas de Março" (Tom Jobim), da qual apenas lembrou a primeira parte, e "As Curvas da Estrada de Santos" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos) - tudo bem que seja uma música difícil, afinal as únicas gravações dela que entraram para o inconsciente coletivo são de Elis e do próprio Roberto, inegavalmente dois dos (para mim os dois) maiores intérpretes que este país já produziu, mas a dificuldade do trajeto deve ser avaliada antes de se tomar a estrada...

Em seu pronunciamento, Napp contou aspectos pouco conhecidos da trajetória de Elis, a que ele teve acesso por sua amizade com a cantora. Eles se conheceram em 1963 quando, ainda estudante de Engenharia, ele já compunha e foi à casa dela no IAPI levar-lhe algumas músicas (uma delas, "Meus Olhos", entrou no LP O Bem do Amor, que Elis gravou em 1963 na CBS). No ano seguinte, com Elis já instalada no Rio de Janeiro, Napp, ao visitá-la, presenciou sua negociação com a Odeon, que disputava com a RCA Victor o novo contrato de Elis, que não queria seguir na CBS. Poucos dias depois, ao retornar a Porto Alegre, Napp soube que ela fechara com a Philips. A versão da biógrafa Regina Echeverria no livro Furacão Elis dá conta de que ela já viajara ao Rio com convite da Philips, embora ainda devesse um disco à CBS.

O diretor da casa também relatou a dificuldade que é ampliar o acervo. Os filhos de Elis não chegaram a doar nenhum material ou objeto da artista. Ainda sobre família: corre na CCMQ a lenda de que dona Ercy Carvalho Costa, a mãe de Elis, teria visitado o Acervo incógnita, só se descobrindo o fato devido à sua assinatura (ou uma assinatura muito parecida com a sua) no livro de visitas do espaço (livro que tenho o orgulho de ter inaugurado!). O acesso a material de TV é restrito. Como nenhuma afiliada gaúcha de rede nacional de TV pode ceder material gerado pela sede (ou seja, a RBS TV não pode disponibilizar nada que tenha sido produzido pela Rede Globo), o que se tem nesse sentido é muito pouco, com destaque para algumas entrevistas que Elis concedeu ao Jornal do Almoço.

Falando em vídeos: com certeza eles foram o destaque da programação da sexta. Os trabalhos iniciaram num horário bastante impróprio para um dia útil (15h!!), com o especial Elis Regina Carvalho Costa (produzido pela Globo em 1980 e lançado em DVD pela Trama em dezembro como Grandes Nomes). Nesse programa, com repertório do show Saudade do Brasil, ficou evidente como o acesso à informação desfaz mitos. Certamente muitos já ouviram falar que, nesse especial, o motivo de Elis chorar copiosamente ao cantar "Atrás da Porta" (Francis Hime - Chico Buarque) era sua recente separação do músico César Camargo Mariano. No DVD, fica claro que ela não conseguiu se conter por pouco antes ter feito outra música que também mexia bastante com o emocional, "Essa Mulher", na qual por duas vezes quase chorou. Em sua vida pessoal, é certo, Elis recentemente se separara de César, o que não a impediu de ser profissional e contratá-lo para dirigir o show e o disco Saudade do Brasil e tocar no programa, do qual ele foi o convidado. Atuando oculto por uma cortina, como os outros músicos, durante quase todo o programa, César foi chamado por Elis ao centro do palco para acompanhá-la ao piano em "Modinha" (Tom Jobim - Vinicius de Moraes) (aqui ela superou lindamente a dificuldade técnica que enfrentou ao gravar essa música no LP Elis e Tom) e "Rebento" (Gilberto Gil).

Depois dos shows e da fala de Napp, a festa seguiu com a exibição do vídeo do show de Elis no Festival de Montreux em 1979 e uma raríssima relíquia dos arquivos tantas vezes incendiados da TV Record: a premiação de Elis como vencedora da Bienal do Samba (1968) cantando "Lapinha" (Baden Powell - Paulo César Pinheiro), acompanhada dos Originais do Samba e do próprio Baden ao violão - ao final, outros artistas, como Ciro Monteiro, engrossaram o coro.

A lamentar MESMO, apenas a grave falha da Comunicação da Casa, que não só divulgou o nome do grupo Tribo Brasil como Trio Brasil (certo, eles são três, mas o nome é Tribo!), como ainda incluiu no release, não se sabe como & por quê, um debate entre Napp e o jornalista Juarez Fonseca - o convite a Fonseca nem chegou a acontecer, revelou Napp.

Outros eventos devem acontecer em breve no Acervo; Napp anunciou para setembro uma grande apresentação para assinalar o primeiro ano do espaço.

(Fabio Gomes)

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