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Mistura e Manda

Nº 139 - 22/5/2006

Coisas da Vida

Ainda no primeiro semestre de 2006, deve sair o CD Coisas da Vida, uma parceria do violonista Daniel Wolff, de Porto Alegre, com o clarinetista brasileiro radicado na Alemanha Wilfried Berk. A idéia do disco surgiu em 2004, quando Daniel e Wilfried apresentaram-se juntos na cidade alemã de Hamburgo. No repertório, obras inéditas de Nestor de Hollanda Cavalcanti, Wilfried Berk e do próprio Daniel, além de novos arranjos de Daniel para músicas de Ernesto Nazareth e Gaudencio Thiago de Mello, que participa com sua percussão orgânica em diversas faixas. Completam o repertório obras de Freire Júnior, Celso Machado e Jayoleno dos Santos. Coisas da Vida será lançado pelo selo Karmim.

Nota: esse CD é a concretização do convite feito por Berk a Daniel no começo do ano passado, como anunciado no Mistura e Manda nº 83.

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O que é que as baianas têm?

Em 1836, o chefe de polícia de Salvador, desembargador Antônio Simões da Silva, solicitou ao administrador do Real Teatro de São João, tenente-coronel Inácio Accioli de Cerqueira e Silva, que cancelasse as apresentações da atriz Joana Januária de Sousa Bittencourt, que dançava lundu nos intervalos das peças. O motivo: a dança do lundu era considerada indecente e imprópria para a assistência em família, devido às contorsões que fazia Joana Bittencourt - aliás, mais conhecida do público da época como Joana (ou Joaninha) Castiga, em função do sucesso que alcançava ao interpretar a cançoneta "Castiga, Meu Bem, Castiga", que começava com os versos "Se quiser casar comigo,/ Há de ter segredo em tudo" e, como refrão, "Castiga, castiga, seu preto aqui está!".

A música não era nova: Joana já a cantava com seu marido apelidado Ciri (sic) Gordo na Casa da Comédia, em Recife, em 1824; nesse caso a interrupção das apresentações se deu por outro motivo: a tentativa de independência de províncias do Nordeste, que queriam criar a Confederação do Equador.

Enfim, Simões da Silva não aceitou os argumentos de Cerqueira e Silva e castigou Joana com a proibição. Aí aconteceu o esperado: os espectadores abandonaram o teatro; antes que ficasse definitivamente no vermelho, o empresário resolveu suspender a temporada. Em outubro de 1836, tendo assumido a chefia de polícia Francisco Gonçalves Martins, Cerqueira consultou-o sobre a possibilidade de apresentar lundus, pois assim o solicitavam diversos grupos amadores que procuravam a casa. Martins manteve o veto às danças "imorais".

Em 1837, Cerqueira insistiu, propondo um acordo: considerando que as famílias compareciam em peso aos dramas, os lundus seriam cantados então apenas nos intervalos das farsas. Martins consultou o presidente da província, que apoiou a decisão de seu subordinado: as danças deveriam ser impedidas de qualquer maneira, porque as executantes excediam sempre estabelecido. Disse Martins que não sabia o que é que as atrizes baianas tinham, que não se continham dentro dos limites por ele fixados. A questão se resolveu por si: em novembro, começou na Bahia a Sabinada e nem lundus, nem dramas, nem farsas puderam ser apresentados no São João por muito tempo.

É curioso notar que a expressão que o chefe de polícia usou antecipou em um século o tema do samba de Dorival Caymmi "O que é que a Baiana Tem?" (1938). E certamente Dorival ao compor não pensou em polícia: conforme entrevista sua à revista Vamos Ler! de 30 de dezembro de 1943, a idéia do samba ocorreu ao encontrar, entre coisas guardadas em casa, uma antiga gravura representando baianas com o vestido, os balangandãs e todos os enfeites autênticos: "Querendo divulgar como eram minhas patrícias do passado, criei o samba".

E Joana, como ficou? A proibição não parece tê-la abalado. Sempre incluída no rol dos maiores artistas da Bahia, ela teve uma carreira relativamente longa: na década de 1850, trabalhou na companhia de Germano Francisco de Oliveira, no Teatro São Luís, no Maranhão, onde esteve novamente em 1863, já como contratada da Companhia Furtado Coelho, ao lado de grandes atores como Eugênia Câmara e o também baiano Xisto Bahia.

(Fabio Gomes)

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