Brasileirinho - PrincipalMisture e Mande

Arquivo

Mistura e Manda

Nº 148 - 13/11/2006

Sobre o Sambódromo de Belo Horizonte

Você que é eleitor de Belo Horizonte e acredita no trabalho artístico e social das nossas Escolas de Samba, tem agora a chance de participar da construção do SAMBÓDROMO DE BELO HORIZONTE, votando na Obra 'Construção de Espaço Cultural Multiuso na Via 240', da regional NORTE, através do ORÇAMENTO PARTICIPATIVO DA PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, até o dia 30 de novembro de 2006”. (NR: Divulgação)

Considerada a terceira capital do país, a cidade de Belo Horizonte não possui sequer um espaço para as grandes manifestações da cultura popular. Fala-se em Sambódromo, mas: não existe dotação financeira, não existe projeto, enfim, é mais jogada política. Colocar o Sambódromo numa pauta onde existem problemas como educação, saúde, transporte etc, é querer demais. Este assunto teria que ser tratado separadamente, com a iniciativa privada.

Aliás, infelizmente, dentro do poder não temos sequer quem entenda de Sambódromo. E se alguém quiser levantar os pelos da nuca para protestar, lembro aqui que o Sambódromo do Rio de Janeiro sofreu varias modificações a pedido dos sambistas. Lembro-me que, na década de 80, conversando com o meu querido Mestre Marçal, ele reclamava da evasão do som pelos vãos das arquibancadas. O grande Jamelão também foi outro que vira e mexe reclamava das falhas estruturais no mais famoso Sambódromo do mundo. Então, sem a participação dos sambistas e com a pouquíssima intimidade de quem cuida do carnaval por aqui, duvido muito que saia coisa que preste.

Para vocês terem uma idéia do interesse dos nossos mandatários. O presidente da Belotur – Empresa Municipal de Turismo, que é quem “promove” o carnaval de Belo Horizonte, nunca foi até a Via 240, nos seus três anos à frente da empresa. Ele comanda e dá palpites por imaginação ou por informações do seu diretor de operações, que está há mais de dez anos no cargo, mas nunca foi visto em um pagode ou em uma quadra de escola de samba.

Falar-se em espaço multiuso eu ainda concordo, mas usar a expressão Sambódromo, que automaticamente nos leva a imaginar desfile de escolas de samba, é mais uma brincadeira feita pelos feitores da cultura popular da minha terra. Para quem já teve mais de cinqüenta blocos caricatos competindo na Praça Raul Soares (Batalha da Praça), para quem já desfilou comandando uma bateria com duzentos e vinte componentes (Canto da Alvorada na década de 80) ver hoje cinco blocos caricatos e meia dúzia de escolas de samba capengando pela avenida, não dá para acreditar em muita coisa.

No carnaval de 2006, um dos quesitos para a disputa das escolas de samba era o número mínimo de 400 componentes, que nenhuma delas conseguiu atingir. Teve escola que desfilou descalça, teve escola onde o mestre-sala ajudou a empurrar carro-alegórico, enfim, estamos muito longe do que já fomos. Acho uma palhaçada e uma desonestidade muito grande querer enaltecer o que não existe. O que temos hoje são arremedos de escola de samba: sem quadras, sem projetos em andamento, e a maioria delas, principalmente as que já foram consideradas grandes, pasmem, sem baterias. As baterias são alugadas dos blocos caricatos e as alas só se encontram na avenida, no dia do desfile. O carnaval de Belo Horizonte está falido e só vai reerguer quando, por parte do poder, houver uma postura profissional.

Mestre Affonso
57 anos de idade, 47 anos no carnaval de Belo Horizonte,
18 anos como diretor de bateria, 18 notas dez.

* * *

Valei-me, São Benedito!

Definir a congada não é nada fácil. Que o diga o Rei Congo de Poços de Caldas (MG), Luiz Siqueira:

- Pra falá da congada não basta ouvi a batida da percussão e achá que o som bonito é também reza. Num adianta só oiá as fita colorida que alvoroça do povo dançando, nem saber dos mistério dos dia santo e do amor que o povo tem na fé de Deus. Pra falá de congo nóis tem que fechar os zóio, porque as palavras pode ser dita de muitos jeito. Quem quisé saber da Congada, tem que, primeiro de tudo, saber da angústia dos negro, dos sufrimento dos índio e da fé que enche o coração das pessoa humilde.

Mas, enfim, vamos tentar: a Congada é uma tradicional dança dramática brasileira que representa uma luta entre cristãos e mouros e que termina com os mouros aceitando a fé cristã. Para assinalar a vitória, o Rei Congo é coroado. Ele é sempre um negro, o que já de saída diferencia a Congada de outras danças dramáticas como a chegança, que também remonta às lutas pela expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica no século 15.

Em Poços de Caldas, a miscigenação é ainda maior, pois a tradição popular local incorporou a presença indígena, através da figura dos caiapós, bem como elementos da umbanda. Essa foi uma descoberta que surpreendeu a jornalista Jesuane Salvador, que escolheu a congada como tema de seu trabalho de conclusão de curso. O trabalho, intitulado Valei-me, São Benedito! - A História da Congada em Poços de Caldas (de onde saiu o depoimento de Siqueira que abre esta nota), foi defendido em 31 de outubro perante banca na UNIFAE (Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino), em São João da Boa Vista (SP). Dois ternos (grupos de congada) estiveram presentes, o Terno de Nossa Senhora do Carmo e a Congada Mirim Santa Efigênia (este, formado recentemente, é integrado apenas por crianças); os grupos cantaram ao final da defesa, com a participação de Jesuane (que além de jornalista é cantora).

Nova apresentação do trabalho deverá acontecer na quarta, 22 de novembro, no Espaço Cultural da Urca - Teatro Benigno Gaiga, em Poços de Caldas. E não vai ficar por aí: Jesuane planeja publicar Valei-me, São Benedito! como livro-reportagem, incluindo a gravação de um CD dos congadeiros. Por isso, também na semana que vem, ela conversa com o violonista e pesquisador Gilvan de Oliveira, de Belo Horizonte, ganhador do Grammy latino e que vem desenvolvendo trabalhos de resgate da música negra, para acertar sua participação no projeto.

(Fabio Gomes)

Copyright © 2006. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais.