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Mistura e Manda

Nº 169 - 29/9/2007

Samba ameríndio-luso-afro

Minha participação no seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda, realizado no sábado, 15, em Santo Amaro da Purificação (BA), foi marcada por uma seqüência de surpresas agradáveis. Uma delas foi ver que o Teatro Dona Canô estava lotado naquela manhã, embora no mesmo horário houvesse na cidade outro acontecimento imperdível: a chegada da imagem de Nossa Senhora Aparecida à igreja de Nossa Senhora da Purificação (a igreja também esteve lotada para a celebração que integrava as comemorações do centenário de Dona Canô Velloso).

A maciça presença do público no teatro não foi, porém, a primeira surpresa. Antes dela, devo citar o próprio convite que recebi para falar sobre O Samba Indígena - até onde sei, foi a primeira vez que o tema foi abordado num evento do gênero. E pode-se dizer que a estréia foi em grande estilo. Recorro ao relato da jornalista Daniela Paiva, em seu texto "Seminário com uma pitada de polêmica" (publicado no Correio Braziliense, de Brasília, na sexta, 21, como parte da matéria "Samba Monumental"):

"Na abertura, o ministro Gilberto Gil iniciou a fala pela origem do samba – ameríndio e luso-afro, pois, quando os portugueses desembarcaram no Brasil, o samba já existia na tribo cariri, alertou Gil – e relatou duas histórias relacionadas ao gênero musical. Em 1972, de volta do exílio, Gil viajou pelo Nordeste e deparou com o samba por todas as regiões em que passou. 'Eu dizia: por que tanto samba? O Nordeste é baião, xote, xaxado.' A resposta veio com o pai de Luiz Gonzaga, Januário: 'Ele respondeu: samba é festa, não importa o gênero'. Em seguida, Gil relembrou um encontro com Rita Marley, mulher de Bob Marley, durante as gravações do disco Kaia n’Gan Daya (2002), na Jamaica. 'Perguntei a ela como foi essa história do Bob Marley gravar samba do Brasil' (NR: uma referência à música "Lick Samba", de Bob Marley). Ela respondeu: 'o samba é modo de dançar, palavra dos índios daqui'. Gil concluiu: 'Quis contar essas histórias para mostrar a imensidão do samba'."

(Fabio Gomes)

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Samba indígena repercute

Outra surpresa foi a ampla repercussão de minha palestra. Para não incorrer em imodéstia, cito uma frase da reportagem "Debates marcam inauguração da Casa do Samba", publicada n'O Estado de S. Paulo da terça, 18, e creditada como sendo "Da Redação" (mas sem sombra de dúvida o texto é de Lauro Lisboa Garcia, o jornalista do "Estadão" que esteve em Santo Amaro): "Uma das falas mais comentadas e elogiadas foi a de Fabio Gomes acerca das origens indígenas do samba brasileiro." (O texto completo pode ser lido no site do Ministério da Cultura; aproveite a viagem e leia também este outro em que falei do caráter plural do seminário: "Casa de Samba", de Laura Dantas, publicado em A Tarde de Salvador na quarta, 5)

Também no site do MinC, Marcelo Lucena informa sobre a participação de todos os convidados na matéria "Seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda" - que traz mais uma agradável surpresa. Minha palestra é a única disponibilizada ali na íntegra, em arquivo pdf (para acessar direto, clique aqui). Publiquei o texto também no Brasileirinho, para que fosse possível incluir o áudio da gravação original de "Pelo Telefone" (Donga - Mauro de Almeida), feita pelo cantor Bahiano, aliás, nascido em Santo Amaro. Foi com esta música que encerrei minha fala no seminário.

Muitas pessoas em seguida vieram me cumprimentar; na impossibilidade de incluir todas as manifestações, quero destacar duas em especial. A primeira, do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida, que disse estar "vivamente impressionado" com as informações que apresentei. A segunda, de Betinho d` Saubara, que comentou comigo que na cidade onde mora (Saubara) existe um marisco que a população chama de "sambá" ou "sambar" - o que poderá corresponder a um dos significados da palavra "samba" em Tupi, mexilhão.

Mas o que me leva a qualificar a repercussão de minha palestra como "ampla" são as várias manifestações que continuo recebendo. Soube, por exemplo, que inspirei o título de outra matéria de Daniela Paiva, publicada no Correio Braziliense na segunda, 17: "O samba de Dona Canô".

Além disso, o produtor santo-amarense Alex Teixeira me relatou em e-mail enviado na sexta, 21, que, num encontro realizado no dia anterior em Santo Amaro de que participaram representantes de todos os 20 municípios do Recôncavo para recolher propostas a serem apresentadas na II Conferência Estadual de Cultura da Bahia, "a partir (...) do conhecimento que eu e mais alguns participantes da Conferência adquirimos com a sua explanação surgiu a proposta de criação de um Memorial Étnico do Recôncavo - Ameríndio-Luso-Africano". (A Conferência acontece em Feira de Santana de 25 a 28 de outubro).

(F.G.)

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Programa Terreiro da Tradição

A ONG Terreiro da Tradição, em parceria com a ONG Alto Falante, estréia em outubro o programa de rádio Terreiro da Tradição, com o objetivo de difundir a cultura popular e a música de raiz pernambucana e brasileira para a comunidade do Alto José do Pinho e demais áreas de alcance da Rádio.

Nosso objetivo é divulgar a produção musical dos grupos, mestres, artistas e agremiações da cultura de raiz (pernambucana e brasileira), formar platéias para apreciação da música de raiz, elevar a auto-estima dos grupos, mestres, artistas e agremiações da cultura de raiz e fortalecer a identidade cultural de Pernambuco e do Brasil.

Por isso solicitamos aos grupos interessados em divulgar seu trabalho que enviem material para o Terreiro da Tradição, que fica na Rua Floriano Peixoto, 85 - Ed. Vieira da Cunha, Sala 132, bairro Santo Antônio, Recife-PE - CEP 50020-060.

(Altamiza Melo)
[email protected]

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De como manter teatros funcionando

Viemos a público manifestar nosso sentimento com relação ao fechamento do Theatro XVIII (NR: em Salvador, Bahia). Nós lamentamos muito. É frustrante para nós, artistas, vermos um equipamento cultural que tem fomentado arte e cultura ao longo de dez anos ter que fechar as suas portas. Temos uma relação próxima com o XVIII, tendo em vista que ambas as casas são administradas por artistas e trabalham com grupos artísticos. O Teatro Vila Velha também está em situação delicada e também corre riscos de não conseguir se manter.

Gostaríamos, entretanto, de levantar algumas questões que nos parecem maiores do que aquilo que, a princípio, parece estar sendo discutido: o fechamento de uma casa de espetáculos com intensa atividade, há dez anos. A discussão pode e deve ser ampliada.

A relação entre isenção fiscal e cultura a que nós artistas tivemos que nos submeter nos parece ser uma delas. Outra é o entendimento do que é espaço público, espaço privado de interesse público, espaço privado de interesse privado e ainda, espaço público de interesse privado. Tudo uma grande confusão. Como se mantiveram, há anos, espaços tão próximos e tão distintos, como o XVIII e o Vila, por exemplo? As fontes de recursos pleiteadas são variadas: leis de incentivo fiscal – Fazcultura e Rouanet, fundos de cultura nas três esferas administrativas, recursos de bilheteria, do bolso... Como garantir a continuidade de um trabalho como estes dois exemplos, que são uma parte desse nosso universo cultural? Quem deve pagar por isso? O Estado, diretamente? O Estado mais a empresa privada, através da isenção fiscal? Como não depender do humor do "mercado"? Como não depender da vontade "política" de "A" ou de "B"? Até onde vão os braços do Governo (leia-se Secretaria de Cultura) na solução de problemas desta ordem? A Bahia insiste em não discutir profundamente problemas há muitos anos incrustados nessa carapaça que criamos (artistas) em defesa, normalmente, daquilo que está mais próximo a nós mesmos.

Em conformidade com o pensamento de outros espaços culturais, onde a relação entre estes espaços invariavelmente se dá com grupos artísticos, gostaríamos de discutir com os nossos pares, as formas de não deixar que o problema se agrave ainda mais. Precisamos, todos, que a situação caótica em que nos encontramos, há muito tempo, seja resolvida o mais rápido possível e para tanto propomos discutir, urgentemente, temas como, por exemplo:

* A criação de condições sociais, políticas e econômicas para construção de um estado que alimente a utopia de uma sociedade na qual a arte e a cultura sejam compreendidas como afirmação da vida e direito universal.

* O direito de produzir arte, entendida não como veículo de marketing institucional nem como um instrumento de pseudo-inclusão social, mas como elaboração, na esfera do simbólico, do nosso depoimento crítico sobre a experiência de viver numa sociedade em que a cultura é mercadoria a serviço da dominação e por isso tem a função de alimentar os valores da concorrência, da acumulação ou concentração de renda, do preconceito e da exclusão.

* O reconhecimento, por parte do Estado, da sociedade e da iniciativa privada da necessidade da cultura entendida como exercício crítico da cidadania e, conseqüentemente, do nosso direito de criar um teatro que corresponda a esta definição.

Para tanto seria ainda imprescindível:

* a ocupação e revitalização de espaços públicos ociosos;

* a revisão do conceito de gestão de espaços públicos e privados de interesse público existentes;

* a criação de políticas públicas para os teatros e ou sedes de grupos já existentes que cumprem a função cultural que nós especificamos;

* a criação de linhas de crédito e isenção de impostos para a aquisição, construção, reforma, manutenção e equipagem de espaços teatrais.

* a construção de novos espaços teatrais em terrenos públicos ou em terrenos privados em parceria com o poder público;

Quem são os interessados nisso tudo? O governo (estado e prefeitura)? Os teatros (públicos e privados)? Os grupos artísticos de teatro e dança? As empresas patrocinadoras de cultura? Quem?

O Vila Velha oferece o espaço físico, enquanto nossas portas estão abertas, e o apoio na organização de um seminário que possa ampliar, portanto, essa discussão.

Aguardamos contato dos interessados,

Colegiado do Teatro Vila Velha:
Chica Carelli, Cristina Castro, Débora Landim, Fábio Espírito Santo, Gordo Neto, Gustavo Libório,
Jarbas Bittencourt, Jeudy Aragão, Márcia Menezes, Marísia Motta, Vinício de Oliveira Oliveira

[email protected]

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Textos teatrais fora do site

No domingo, 23, saiu do ar a página de divulgação de meus textos teatrais. Em mais de dois anos, ela nunca se justificou. No começo, quis atrair grupos interessados em montar comercialmente as peças, o que não aconteceu. Mais tarde, pretendi implantar um sistema de venda dos textos para leitura, não descartando uma possível montagem; os pedidos foram inexpressivos, de modo que não se justificava manter um sistema de oferta do que não tinha procura.

(F.G.)

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Belo Horizonte e o Carnaval 2008

Surgiu um holofote no carnaval de Belo Horizonte - por iniciativa do vereador Hugo Thomé, presidente da Chame, Chame, uma nova escola de samba que surgirá em 2008. Novos rumos surgiram e já podemos visualizar um novo tempo.

Tenho em mãos um documento assinado por 18 vereadores de Belo Horizonte, criando a Frente Municipal em Defesa do Carnaval. Na reunião do dia 26 de setembro, além dos vereadores Hugo Thomé, Paulão e Neila Batista, esteve presente o presidente da Belotur, Dr. Fernando Lana, que afirmou que vai haver desfile de escolas de samba e blocos caricatos em 2008. Os blocos caricatos desfilarão no dia 2 e as escolas de samba nos dias 3 e 4 de fevereiro. O Dr. Fernando Lana afirmou ainda, que dentro de 10 dias terá definido o local de desfile e a dotação orçamentária para o carnaval.

Os fatos citados são da maior importância para o real desenvolvimento do carnaval belo-horizontino em todos os aspectos. Pela primeira vez, nos meus 48 anos de carnaval, vejo a participação de tamanho número de vereadores em um projeto e, também, pela primeira vez, vi a presença do presidente da Belotur, nos seus três anos de mandato, em uma reunião de sambistas. Ele foi sabatinado ("apertado" de todas as formas) e com muito respeito e coerência respondeu a todas as perguntas feitas.

Bem, nem tudo são flores, a situação ainda merece muita atenção, mas foi dado um grande passo. Para quem não sabe, na década de 1980 Belo Horizonte tinha um grande carnaval, considerado por muitos como o segundo carnaval do país. Espero sinceramente que de agora em diante a profissionalização seja o norte a seguir por quem comanda a cultura na minha cidade. De agora em diante teremos reuniões quinzenais e com a participação e responsabilidade de todos poderemos fazer renascer das cinzas o nosso carnaval.

(Mestre Affonso)

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