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Mistura e Manda

Nº 181 - 5/4/2008

Guitarra na Camerata Brasileira

A data era, sim, 1º de abril, mas o que se viu não foi brincadeira: a Camerata Brasileira tocou no projeto Música Autoral, do jornal Vaia, tendo um guitarrista, Bruno Alcalde, substituindo o bandolinista Rafael Ferrari. (Conforme havíamos antecipado na nota "Quem vai", no Mistura e Manda 179, Ferrari está residindo atualmente em São Paulo, mais exatamente em Marília; ele volta a tocar com a Camerata num festival no Ceará, em maio.)

Alcalde havia feito apenas dois ensaios com o grupo (conforme o violonista Moysés Lopes me informou após o show), e pelo visto não era necessário mais do que isso para se atingir o resultado que se ouviu no Teatro de Arena (Porto Alegre): além do timbre da guitarra integrar-se perfeitamente ao som da Camerata, Alcalde deu seu toque pessoal ao frasear em "Tumaracá" (Camerata Brasileira). A integração se verificou mesmo na música com que o grupo tem encerrado seus shows - "Descendo a Serra" (Pixinguinha - Benedito Lacerda), no que seria um "tributo ao choro tradicional". Antes dessas duas, Alcalde participou também da execução do choro "Assanhado" (Jacob do Bandolim), numa versão "mais comportada" do que a dos shows anteriores, que a Camerata fez no Teatro do Sesc em fevereiro. (Não houve encenação de briga no Arena)

O grupo aproveitou ainda para promover duas "primeiras audições". A primeira foi a performance solo eletroacústica do baterista Edgar Araújo, uma composição sem nome combinando voz, peças de percussão tocadas uma a uma e efeitos de delay. Foi impressionante como com apenas estes elementos Edgar produziu um efeito sonoro de "massa percussiva", alternando ritmos (como baião e samba); em alguns momentos, ele sugeriu com a voz fragmentos de músicas conhecidas, mas a única citação real foi "Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. A outra estréia foi "Recortando", nome provisório do choro de Rodrigo Siervo e Moysés Lopes que foi tocado pelos autores ao sax e ao violão; o próprio Moysés classificou a composição de "um choro um tanto quanto esquisito". Na seqüência, Rodrigo e Edgar tocaram "Hermeteando" (música da Camerata, a partir de fragmentos de "O Ovo", de Hermeto Paschoal), numa versão semelhante à dos shows do Sesc - com a "novidade" de que desta vez quem teve algumas dificuldades com o delay foi Rodrigo.

Antes da Camerata, o pouco público presente no Arena ouviu Álvaro Santi tocar algumas músicas que compôs na década de 1980 e que estarão no CD que prepara para lançar em breve.

(Fabio Gomes)

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As 8 cordas de Maurício Marques

Maurício Marques foi o primeiro violonista brasileiro a usar violão de 8 cordas. Talvez seja ainda o único, quando muito um dos poucos. Aproveitei o recente recital de Maurício na série Musical Petropar (Theatro São Pedro, Porto Alegre), no dia 26 de março, para ver com mais atenção sua técnica nessa variação do instrumento. Antes disso, eu já havia visto Maurício tocar duas vezes - uma no lançamento do CD Cordas ao Sul, outra no Dia Nacional do Choro 2005 -, mas em ambas não só havia muita movimentação em torno (participações especiais no lançamento, muitos outros artistas no Dia do Choro), como também eu não estava com a atenção voltada exatamente para este aspecto.

A 8ª corda que ele usa é uma mais grave que a 7ª, que já é equivalente à corda mais grave de um contrabaixo acústico. Ao contrário, porém, da maioria dos violonistas de 7 cordas, que usa a 7ª como baixo preferencial em quase todo o tempo, Maurício se serve da 8ª (e mesmo da 7ª) cordas como um recurso - quando ele quer obter graves mais pronunciados do que obteria com um violão de 6, as cordas que ele precisa estão ali, mas isso não condiciona sua interpretação.

No Petropar, o melhor momento foi a interpretação de Maurício para "Ainda me Recordo" (Pixinguinha): a execução acelerada, "sambando" o choro, deu um novo colorido à música. O mesmo não ocorreu na aplicação do mesmo efeito a "Noites Cariocas" (Jacob do Bandolim), onde a velocidade prejudicou a execução de alguns acordes. Outros destaques do recital foram as versões românticas de "Carinhoso" (Pixinguinha) e "Gente Humilde" (Garoto), as transcrições para violão de duas pérolas de Astor Piazzolla - "Oblivion" e "Verano Porteño" - e uma homenagem ao violonista argentino radicado no Rio Grande do Sul, Lucio Yanel, com a música intitulada provisoriamente "Guitarra Criolla".

(F.G.)

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Analisando o discurso musical

Há alguns anos, seria impensável que alguém obtivesse o título de Mestre em Lingüística tendo como tema de sua dissertação as músicas de Belchior. Felizmente, esse tempo em que a Música Popular Brasileira era considerado algo "menor" nos meios acadêmicos ficou para trás, e em abril de 2007 Josely Teixeira Carlos obteve o título de Mestre em Lingüística pelo Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal do Ceará defendendo a dissertação "Muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior". A partir da dissertação, Josely escreveu o artigo "Recitanda: a Metadiscursividade nas Canções de Belchior", em que descreve e analisa os diversos modos (a "metadiscursividade") pelos quais o cancionista cearense relaciona-se com os textos de sua autoria e com sua própria prática discursiva, a literomusical. O artigo foi incluído no livro O charme dessa nação (Música Popular, Discurso e Sociedade Brasileira), organizado por Nelson Barros da Costa e lançado pela Expressão Gráfica e Editora (Fortaleza, 2007).

Josely faz parte do Grupo de Pesquisa Discurso, Cotidiano e Práticas Culturais, que reúne pós-graduandos e renomados pesquisadores brasileiros e estrangeiros dedicados a descrever e analisar a MPB tomando como base a Análise do Discurso de linha francesa, especificamente a orientada por Dominique Maingueneau. Para a análise, considera-se que o autor de uma canção é um sujeito que se expressa através de uma música - que no caso é a materialização do seu discurso.

O charme dessa nação traz ainda artigos assinados por Altaíla Maria Alves Lemos, Charles Perrone, Christopher Dunn, Cláudia Neiva de Matos, Deline Maria Fonseca Assunção, Dilmar Santos de Miranda, Felipe Saraiva Nunes de Pinho, Francisco Talvanes Sales Rocha, Ivã Carlos Lopes, José Américo Bezerra Saraiva, Josely Teixeira Carlos, Leila Lehnen, Lígia Cristine de Morais Bezerra, Luiz Tatit, Maria das Dores Nogueira Mendes, Mônica Dourado Furtado, Rinaldo de Fernandes e Tércia Montenegro Lemos, além do organizador da obra, Nelson Barros da Costa. Os interessados em adquirir o livro podem escrever para Josely através do e-mail [email protected]. O custo é de R$ 35,00, mais frete.

(F.G.)

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