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Mistura e Manda

Nº 182 - 28/4/2008

Os parceiros Karine Cunha e Sérgio Napp

No sábado, 26, a cantora e compositora Karine Cunha e o escritor e letrista Sérgio Napp foram os convidados do evento Duas Vozes: Música e Literatura, promovido pelo jornal Vaia e realizado na Livraria Nova Roma (Porto Alegre). A parceria musical dos dois iniciou em 2006, e chegou ao disco ano passado, quando Karine gravou "Carretéis" no CD Epahei.

No Duas Vozes, o público pôde conhecer outras das 10 composições da dupla, como "Lua" (que Karine cantou acompanhando-se ao violão e tendo Vinicius Prates na flauta), e saber também como funciona a parceria. Foi Karine quem fez o primeiro contato com Napp, após ler um artigo da coluna que ele assina no jornal Usina do Porto. A parceria basicamente se desenvolve por e-mail: Napp envia a letra, após algum tempo recebe o MP3 de Karine, e depois disso vão se combinando ajustes nos versos e/ou na melodia, até que a nova composição seja considerada pronta.

Depois de lançar o primeiro CD, Fluida (2005), em que assina sozinha todas as faixas, Karine começou a fazer parcerias, já tendo musicado alguns poemas de Mário Pirata e até um clássico de Mario Quintana, "Bilhete", incluído em Epahei. Escreve também com o cearense Alan Mendonça (co-autor de "Por Gentileza", gravada em Epahei), outro com quem a parceria funciona na base do e-mail, mesmo porque Alan e Karine ainda não se conhecem pessoalmente.

Napp também tem alguns parceiros que não conhece pessoalmente - até porque, brincando, ele se candidatou a recordista em número de parceiros. Tamanha variedade, somada ao fato de ter deixado há muito tempo de compor também a melodia, faz com que ele tenha músicas de gêneros tão diversos quanto a vanera e o samba, o frevo e o rock. No começo da carreira, na década de 60, Napp fazia letra e música. Embora não tenha tido uma educação musical formal nem toque instrumento algum, isso não o impediu de, já naquela época, ter músicas gravadas por Elis Regina e Clara Nunes. O samba que escreveu para a mineira foi selecionado pelo Festival Internacional da Canção de 1968 - aquele em que o público vaiou "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque, por preferir "Caminhando", de Geraldo Vandré (sim, Napp estava no Maracanãzinho naquela célebre noite). Mas a falta de um domínio maior dos recursos musicais levou-o a optar por se dedicar mais à literatura a partir dos anos 70 - ele hoje se arrepende de não ter insistido na época em ampliar seu aprendizado musical. Mas o fato é que a música não aceitou ser trocada pela literatura e ainda nos anos 70, com o surgimento de inúmeros festivais nativistas no Rio Grande do Sul, vários compositores como Mário Barbará e Albino Manique passaram a lhe pedir letras a serem musicadas (é mais raro que Napp letre uma melodia já pronta).

Já Karine chegou a mencionar que talvez deixe de escrever letras, tamanha a satisfação lhe tem dado elaborar melodias para versos já prontos (o que me surpreendeu, vindo da artista que me disse em entrevista em 2005 começar a compor, geralmente, pela letra). Mas, como ela própria comentou no bate-papo com Napp, o desenvolvimento da carreira tem uma lógica interna, ligada ainda à vida do artista: ainda pequena, ela fazia músicas para o cachorro ou a lua e enchia cadernos com poemas. Ao entrar na faculdade e começar a cantar profissionalmente, a falta de apoio que sentia em sua família para as músicas que compunha levou-a a privilegiar seu lado de intérprete de músicas alheias. Quando se decidiu a lançar um CD, escrever música e letra correspondia à necessidade de afirmação como compositora. Agora, intensificar a produção em parceria faz com que ela varie os modos de abordar os temas que já cantou e contribui ainda para ampliar seu universo temático.

(Fabio Gomes)

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Prêmio Açorianos: ponto positivo

Por mais que o trabalho em música seja quase sempre coletivo, há uma tradição de se pensar o compositor como um criador isolado, nos moldes do escritor e do diretor de cinema (e que de preferência só faria música como fruto de sua inspiração...). Por isso um ponto muito positivo da recente edição do Prêmio Açorianos de Música, concedido anualmente pela prefeitura de Porto Alegre aos melhores trabalhos musicais do ano anterior, foi ter lidado bem com as idéias de autoria múltipla e de autoria coletiva. Só assim foi possível ter concorrendo na categoria Compositor de Música Instrumental, ao lado de Marcelo Corsetti, tanto a parceria Valdir Verona & Rafael de Boni quanto o grupo Camerata Brasileira.

Quando a Camerata recebeu o prêmio, na quinta, 24, no Theatro São Pedro, Moysés Lopes até fez menção de que o mérito pelas composições do CD Noves Fora caberia mais a Rafael Ferrari, mas este não tomou os louros apenas para si, ressaltando que o trabalho autoral do grupo é realmente coletivo.

(F.G.)

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Prêmio Açorianos: ponto negativo

Agora, a categoria Música Instrumental do mesmo Prêmio Açorianos de Música também apresentou um ponto negativo - ou ao menos obscuro.

Em relação aos outros segmentos premiados - MPB, Regional e Pop -, é natural haver distinção entre "intérprete" (que seria o cantor, a cantora ou uma banda) e "instrumentista" (o músico que acompanha quem canta). Que essa distinção seja estendida à categoria Instrumental, já soa estranho. Mais ainda quando se verifica os indicados nesta categoria. Como "instrumentista", concorreram Luke Faro, Renato Borghetti e Tiago de Moura; enquanto os indicados como "intérprete" eram Daniel Sá, Norminha Duval e Pedrinho Figueiredo.

Para se ter um mínimo de coerência, o correto seria que o artista cujo nome assina o disco concorresse como "intérprete", e quem o acompanha entrasse como "instrumentista". Tentando entender o conceito que me parece ter presidido a escolha nas outras categorias e tomando como exemplo um trabalho que o Açorianos premiou neste ano: no disco Fandango, de Renato Borghetti, também tocam Daniel Sá e Pedrinho Figueiredo. Então o intérprete é Borghetti, sendo Daniel e Pedrinho os instrumentistas.

Fico com a impressão de que os jurados não entenderam o que estavam premiando.

(F.G.)

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