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Mistura e Manda

Nº 184 - 22/6/2008

Sobre a autoria de "Vejo Amanhecer"

Quando, no começo de março, publiquei a lista das músicas de Noel Rosa que haviam passado ao domínio público, incluí o samba "Vejo Amanhecer", que não constava da relação divulgada em janeiro pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. A principal fonte para minha lista, o livro Noel Rosa: uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier (Ed. UnB/ Linha Gráfica, 1990), aponta apenas Noel como autor deste samba gravado duas vezes em 1933: uma por Mario Reis, lançado no mesmo ano, e outra pelo próprio Noel em dupla com Ismael Silva, que só saiu em disco em 1955.

Na atualização do site deste final de semana, porém, retirei "Vejo Amanhecer" da lista, além de ter incluído o crédito a Francisco Alves como co-autor na página "Rádio" do Projeto Noel Rosa, onde se pode ouvir a gravação de Noel & Ismael. Ao fazer um confronto da relação apresentada por Máximo & Didier com a da 2ª edição do livro No Tempo de Noel Rosa, publicada por Almirante em 1977, dei-me conta da omissão do nome de Francisco Alves como parceiro em Noel Rosa: uma Biografia.

De toda a produção de Noel Rosa, este me parece ser o único samba em que não há um consenso sobre a autoria. Apontam o samba "Vejo Amanhecer" como da parceria Noel Rosa-Francisco Alves, além do livro de Almirante, a Base de Dados da Fundação Joquim Nabuco (Recife) e o livro Francisco Alves: as mil canções do Rei da Voz (Revivendo, 1998), de Abel Cardoso Junior (ambos só referem a gravação por Mario Reis). Já a autoria exclusiva de Noel aparece no livro Mario Reis: o fino do samba, de Luís Antônio Giron (Ed. 34, 2001) e na Enciclopédia da Música Brasileira (Art Editora/ Publifolha, 2ª ed, 1998). E há até quem aponte um terceiro autor: em São Ismael do Estácio: o sambista que foi rei (Funarte, 1985), Maria Thereza Mello Soares inclui Ismael Silva como parceiro de Noel Rosa e Francisco Alves nesta composição.

A Collector's, uma fonte obrigatória quando se pensa na produção musical brasileira da primeira metade do século passado, em diversas ocasiões veiculou as duas versões: na fita nº 22 da Coleção de Ouro, que reunia gravações de Noel Rosa e de Vassourinha na Columbia, que adquiri em 1991, "Vejo Amanhecer" é creditada a Noel e Francisco Alves; já na fita nº 5 da obra completa de Mario Reis, lançada em setembro de 1994, apenas Noel figura como autor. Na matéria de capa do jornal Collector's Notícias nº 36 (maio/junho de 1995), "Francisco Alves, o Compositor", volta-se a registrar a parceria do Rei da Voz no samba. Em outra matéria de capa, "Noel Rosa", da edição nº 48 do jornal (maio/junho de 1997), volta a se apontar apenas Noel como autor - o mesmo acontecendo na programação atual da Rádio Collector's.

No artigo 52 da Lei nº 9610/98, consta que a omissão de nome de co-autor na divulgação da obra não presume a cessão de seus direitos; então, Francisco Alves só poderia deixar de ser citado como parceiro caso tivesse havido algum pedido nesse sentido por parte de seus herdeiros, fato do qual não tenho notícia nem me parece provável (além de ser um objetivo muito difícil de alcançar: já contamos no Mistura e Manda nº 65 a luta que a família de Torquato Neto travou até provar que ele não era co-autor de "Soy Loco por Tí, América"). Portanto, sendo parceria de Noel com Francisco Alves, morto em 1952, pela lei atual "Vejo Amanhecer" só passará ao domínio público em 2023.

(Fabio Gomes)

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Jamelão (1913-2008)(1)

Assisti Jamelão, que nos deixou no sábado, 14 de junho, apenas uma vez. Foi na inesquecível noite de 2 de novembro de 2005 no Bar Brahma (São Paulo). Ao longo de duas horas e meia, o mestre promoveu um belo desfile de sambas-canção e temas da Mangueira. Entre suas mais belas interpretações naquela noite, destaco "Esses Moços", a aplaudidíssima "Nervos de Aço" e "Ela Disse-me Assim", de Lupicínio Rodrigues (aliás, as músicas de Lupi já eram aplaudidas tão logo o público as reconhecia), "Piano na Mangueira" (Tom Jobim - Chico Buarque) e "Exaltação a Mangueira" (Aloísio Augusto da Costa - Enéas Brites da Silva), em que o público fez coro. "Matriz e Filial" (Lúcio Cardim) também foi muito aplaudida.

Tendo chegado ao palco apoiado numa bengala, elásticos nas mãos, Jamelão mais de uma vez se desculpou pelas condições em que estava se apresentando naquela quarta, dizendo "vocês mereciam um show melhor", acrescentando que nas outras semanas daquela longa temporada paulista estivera melhor. Bom, nas outras noites eu não sei, mas naquela sua voz estava forte, a dicção e a afinação perfeitas; o belo grave era o mesmo que eu conhecia dos discos e uma natural perda da extensão (afinal, ele já era um senhor de 92 anos!) era compensada com a valorização das pausas. Constatei ainda que a velha história da cochilada era verdade: o cantor deu uma rápida dormidinha enquanto Arnaldinho fazia no violão o solo de "Com a Graça de Deus", samba-canção do próprio Jamelão.

Entre uma música e outra, o mestre se divertia (e, claro, nos divertia também): reclamou da crescente aceleração dos desfiles de Carnaval: "uma correria, parece uma marcha", o que impedia que os passistas de hoje dêem "piruetas como o Mestre Delegado". Chegou a relatar uma conversa que teria tido com a diretoria da Mangueira, pedindo: "Não quero mais cantar samba correndo, eles que se virem, deve ter quem cante melhor do que eu". Em primeira mão, pudemos conhecer o samba com que a Verde & Rosa desfilaria em 2006, "Das Águas do Velho Chico, Nasce um Rio de Esperança" (Henrique Gomes - Gilson Bernini - Cosminho), sobre o rio São Francisco; Jamelão só iria colocar voz na gravação deste samba dois dias depois desse show. Cantou lendo, começando num tom errado e voltando do começo, os músicos e ele se acertando em meio à execução. Meio que se desculpando por cantar lendo, o mestre falou de sua dificuldade com as músicas novas. Isso tinha acontecido, por exemplo, com as canções daquele que foi seu último CD, Por força do hábito (Som Livre, 2000) - logo que gravou, passou cinco meses internado; quando se recuperou, começaram a marcar shows sem que ele tivesse tido tempo de decorar as músicas.

Quase ao final, quando recém iniciara "Folha Morta" (Ary Barroso), alguém nas primeiras mesas ofereceu-lhe uma cerveja; ele hesitou, brincou um pouco com seu médico e tomou (sentado perto de onde eu estava, o médico me disse que sabia que o paciente não seguia à risca suas indicações). Ao voltar a cantar, Jamelão passou para a música seguinte, "Loucura" (Lupicínio), em que, tendo esquecido parte da letra, deu uma improvisada. Dali a pouco se despediu, mas não pôde sair de imediato: afinal, tinha ficado nos devendo "Folha Morta", que então, atendendo o pedido do público cantou inteira, emendando-a com "As Rosas não Falam" (Cartola).

(F.G.)

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Jamelão (1913-2008)(2)

Era noite de lançamento de um CD do Neguinho da Beija-Flor. Estávamos no Rio eu, Nonato, Evair Rabelo, Juninho do Som e o Salsicha, ex-proprietário da casa de samba Ginga Pura. A Tina, irmã do Neguinho, havia me convidado para ir para a festa. Juntei a rapaziada e fomos ao Asa Branca, na Lapa, pra prestigiarmos o meu querido amigo.

Casa cheia de personalidades do samba, e eu, meio impaciente com todo aquele tumulto. Foi aí que a Tina me pegou pelo braço levando-me para o camarim do Neguinho. Num balcão no fundo do camarim estava ele. Brincando nervosamente com as gominhas (elásticos que sempre carregava), quieto, cara de poucos amigos. Fiquei pertinho dele, calado, respeitando a individualidade daquele senhor, mas louco de vontade de receber apenas uma palavra daquele monstro sagrado da minha amada Estação Primeira de Mangueira.

O Neguinho da Beija-Flor entrou no camarim e me apresentou a ele como um grande amigo de Belo Horizonte. Parece que na apresentação, quando o Neguinho descreveu minha luta e carreira de sambista, alguma coisa tocou o coração daquele velho senhor. Ele perguntou-me se eu bebia, começamos a tomar umas e outras. Ele com aquele semblante fechado que aos poucos, graças a Deus, foi se abrindo para mim. Perguntei se podia ligar o gravador (tenho a fita gravada), ele permitiu. Durante uma hora inteirinha, tive a honra e a glória de estar lado a lado, conversando com ele como se fôssemos velhos amigos. O senhor José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, contou-me um pouco da sua história, falou-me do seu amor pela nossa Mangueira, enfim, riu e brincou. Eu que nem esperava um cumprimento dele recebi atenção e carinho.

Ao ler a notícia da sua morte lembrei-me daqueles inesquecíveis momentos. Só o vi naquela oportunidade, mas foi um momento iluminado por Deus. Jamelão foi muito mais que o maior intérprete de samba-enredo de todos os tempos. Jamelão foi exemplo de vida e dignidade, exemplo de amor à música. Que Deus acompanhe as suas novas estradas, mestre dos mestres!

(Mestre Affonso)

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Pessoal do Ceará: o livro

Um dos colaboradores do Brasileirinho, Pedro Rogério, lançou no dia 28 de maio na Reitoria da UFC (Universidade Federal do Ceará, onde faz doutorado em Educação Brasileira), o livro Pessoal do Ceará: Habitus e Campo Musical na Década de 1970. O evento integrou a programação do Festival UFC de Cultura: Ecos de 68.

O público presente pôde acompanhar o debate do autor com Rejane Reinaldo, secretária de Cultura de Sobral, Francis Vale, advogado, cineasta e compositor do Pessoal, Augusto Pontes, publicitário e "guru" do Pessoal e Luiz Botelho, doutor em Sociologia da Educação. Na seqüência, Rodger, Téti e Pedro Rogério realizaram um minishow.

(F.G.)

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