Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 30 - 5/1/2004

Mensagens de Ano Novo

Os votos de um feliz 2004 continuam chegando à nossa caixa postal. Agradecemos e retribuímos as mensagens do flautista Altamiro Carrilho (RJ), do compositor Cláudio Jorge (RJ), da Ecco Assessoria de Comunicação (RS), da equipe de Informações Turísticas da Emtursa (Salvador - BA) e das leitoras Andrea Julio (Argentina) e Márcia Iglezias Pacheco (RS).

(Fabio Gomes)

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Folia de Reis

Um belo dia, o bairro carioca do Grajaú acordou em polvorosa. O sol nem surgira no horizonte e já havia um alarido em frente à casa 85 da rua Araxá. Quase 20 pessoas tocavam violão, flauta, cavaquinho, apito, sanfona, pandeiro, reco-reco e outros instrumentos de percussão, enquanto dois palhaços gritavam. Os vizinhos, assustados, chamaram a polícia, informando que estava acontecendo uma sessão de magia negra em pleno dia santo - magia negra ou vodu, segundo outro morador.

Tudo aquilo era uma folia de Reis que Martinho da Vila havia encomendado como presente de aniversário para sua então esposa Ruça, nascida num 6 de janeiro. Enquanto a folia seguia, Martinho dispensou a polícia e Ruça rodou a baiana com a vizinhança. Alguns vizinhos, passado o tumulto, foram se chegando, levados pela curiosidade, tomando parte num das mais tradicionais festas brasileiras. Uma tradição do meio rural, é verdade. Não é de estranhar que o Grajaú não estivesse acostumado com a folia, em que se comemora a visita dos magos do Oriente a Jesus menino - os Reis Magos, segundo a tradição popular, embora a Bíblia não confirme essa realeza.

Martinho, nascido em Duas Barras (RJ), participou de muitas folias na infância, chegando a compor "Folia de Reis" ("Ó de casa, ó de fora,/ Quem de dentro deve estar/ Os de fora, Santos Reis/ Que lhes vieram visitar"), gravado em seu LP Meu Laiá-Raiá (1970).

(F. G.)

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A noite poderia ter sido melhor, Brasil

Os sambistas Jorge Aragão, Beth Carvalho e Dudu Nobre, ao lado do dançarino Carlinhos de Jesus, foram as atrações do Boa Noite Brasil, na TV Bandeirantes em 29 de dezembro de 2003. Os convidados cantaram lindos sambas de seus respectivos repertórios, além das músicas de trabalho do momento. Carlinhos também deu uma mini-aula de como sambar, excelente.

O que não ficou legal foi o esquema "engana-audiência" que o apresentador Gilberto Barros (o Leão) utilizou na meia hora final, prometendo a todo momento que os sambistas voltariam a cantar, enquanto apresentava comentários de um estilista sobre outro assunto. A cada volta dos comerciais, Leão ensaiava alguns passos de samba ao som da banda de Jorge Aragão, para em seguida, esbaforido, continuar a falar com o estilista.

Leão poderia ter se inspirado no tratamento que outros três sambistas - Zeca Pagodinho, Almir Guinéto e Wilson Moreira - (e o público!) receberam do Programa do Ratinho (SBT), no final de novembro (ver Mistura e Manda nº 25). O apresentador simplesmente se sentou e deixou os cantores à vontade, sem tentar brilhar mais que os convidados, nem misturar outros assuntos. Taí uma fábula que La Fontaine poderia ter escrito - o rato sendo superior ao leão...

(F. G.)

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Operação Portela

Toquinho estava em alta na Itália no começo dos anos 1980. O empresário Franco Fontana resolvera apostar no artista e conseguira transformá-lo em sucesso popular lá fora, principalmente após a gravação do LP Acquarello (1982)(puxado pela música que, em português, recebeu o nome de "Aquarela"). Para assinalar o êxito, Fontana programou para o Teatro Sistina, em Roma, aquele que seria o maior espetáculo de Toquinho em termos de montagem: o show Canta Brasil. Vejam só a escalação: violão, Rafael Rabello; cavaquinho, Luciana Rabello; acordeão, Dominguinhos; bateria, Mutinho; baixo, Luizão; coro, Guadalupe, Sílvia Maria, Bel e Eliana Estevão (cada uma delas cantora com carreira própria); surdo, Branca de Neve; percussão, Papete e Mestre Marçal da Portela.

Coincidiu com o período desse show o carnaval de 1983. O irmão de Toquinho, João Carlos Pecci, conta no livro Toquinho - 30 Anos de Música (Maltese, 1996) que o violonista avisou Fontana que Marçal precisava ser liberado para comandar a bateria da Portela no desfile, sob pena de o empresário ser ameaçado de morte em sua próxima ida ao Brasil.

- Escuta, que é isso, de morte? - perguntou Fontana, apavorado.

- Você morre, simplesmente, da próxima vez que for ao Brasil. Ele precisa voltar! - explicou Toquinho.

Após a apresentação de domingo à noite, uma limusine levou Marçal do teatro ao aeroporto. Chegou ao Rio segunda de manhã, comandou o desfile da Portela e terça à noite estava de volta a Roma para o espetáculo. Sua presença garantiu à escola a nota 10 na bateria, mas não o campeonato - em 1983, a Portela foi vice.

(F. G.)

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