Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 37 - 23/2/2004

Música de Carnaval

Hoje a combinação Brasil - samba - Carnaval parece muito natural, mas nem sempre foi assim. O Carnaval foi trazido ao Brasil pelos portugueses durante o período colonial, com o nome de entrudo, e ninguém cantava nada, a curtição era sujar os outros, com ovos, farinhas, líquidos malcheirosos e substâncias imundas. Ninguém era poupado: em 1825, a bailarina Estela Sezefreda, do elenco do Teatro São Pedro de Alcântara (Rio de Janeiro), passou uma noite na cadeia por atirar um limão-de-cheiro no séquito do imperador D. Pedro I. O fato do próprio monarca gostar de atirar seus limõesinhos nos outros, naturalmente, não foi levado em consideração...

O primeiro baile de Carnaval de que se tem notícia no Brasil aconteceu em 7 de fevereiro de 1835, no Hotel Itália, no Rio de Janeiro. Surgia um novo modelo, o Carnaval de Veneza, em que predominavam as máscaras e as fantasias, bem mais civilizadas que o entrudo - o que também não era muito difícil... Não havia na época música específica para o Carnaval, o mais provável é que os mascarados presentes tenham bailado valsas. É, ao longo do século 19, em bailes como esses, freqüentados apenas pela elite, tocavam-se valsas, polcas, árias de ópera... Durante o reinado de d. Pedro II, era comum a realização de bailes de máscaras nos teatros da Corte.

(Fabio Gomes)

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Zé Pereira

O início de um aspecto popular no Carnaval é atribuído à atividade do sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes, no Rio de Janeiro, por volta de 1852. Sabe-se lá por quê, ele passou à história com o nome de Zé Pereira (não era Nogueira?), ficando famoso por sair com alguns conterrâneos seus tocando zabumbas e tambores. Nos anos seguintes, surgiram outros grupos, começando a democratizar a festa e diminuindo o interesse pelo entrudo (ainda bem!). O que tocavam e cantavam os zés-pereiras? Qualquer música em voga na ocasião, inclusive hinos patrióticos e canções folclóricas.

A consagração da idéia do sapateiro foi assinalada a 3 de julho de 1869, quando o ator Correia Vasques apresentou no Teatro Fênix Dramática, no Rio, a cena cômica Zé-pereira Carnavalesco, com música inspirada na cançoneta francesa "Les Pompiers de Nanterre" (ou seja, "Os Bombeiros de Nanterre"), que a Troupe Parisienne estreara no Teatro Lírico Francês em 8 de março.

(F. G.)

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Cordões, ranchos e sociedades

Os cordões foram surgindo a partir dos zés-pereiras. Cantava-se qualquer coisa, inclusive quadrinhas improvisadas na hora. Ao final do século 19, os cordões foram dando lugar aos ranchos, maiores e mais organizados, com uma estrutura que foi a principal referência das primeiras escolas de samba. Já as grandes sociedades eram grupos da elite, que tocavam o mesmo tipo de música ouvido nos bailes. Seus desfiles, em corsos de carros enfeitados (a partir da introdução do automóvel no Brasil, no começo do século 20), são a origem mais próxima dos atuais carros alegóricos.

Cordões e ranchos desfilavam espontaneamente pelas ruas cariocas, geralmente pelo Centro e, a partir da reforma feita pelo prefeito Pereira Passos, na Cidade Nova. Já as sociedades faziam um desfile muito aguardado, na terça-feira gorda, o único a receber atenção da imprensa na época.

(F. G.)

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Marcha-rancho

Em 1899, o cordão Rosa de Ouro encomendou à compositora Chiquinha Gonzaga uma música para cantar em seu desfile, e assim, com "Ó Abre-Alas", nasceu a canção carnavalesca no Brasil. O ritmo, marcha-rancho, estilizava a cadência do desfile dos ranchos. Raramente composta fora dos ranchos, a marcha-rancho teve um período de grande prestígio a partir de "Máscara Negra" (Zé Kéti - Pereira Matos), em 1967, predominando nos bailes de salão até começo dos anos 70.

(F. G.)

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Sambas e marchas

A partir de "Ó Abre-Alas", surgiu o hábito de compor para o Carnaval, com cada cordão e rancho fazendo seu tema para aquele ano. Também os foliões que se agrupavam espontaneamente pelas ruas cantavam músicas apresentadas pelo teatro e o que começava a sair nos discos.

Ao longo da década de 1910, consolidam-se os dois principais gêneros da música carioca de Carnaval: o samba e a marcha. O primeiro samba a fazer sucesso no Carnaval foi "Pelo Telefone" (Donga - Mauro de Almeida), gravado por Bahiano, em 1917; já a primeira marcha a atingir o mesmo patamar foi "Pé de Anjo" (Sinhô), lançada por Francisco Alves em 1920. Edigar de Alencar aponta a marcha como uma síntese de ritmos americanos da época, como o ragtime e one-step.

A dupla samba & marcha imperou na folia carioca até começo dos anos 70. Centenas de músicas eram lançadas por ano, principalmente depois de 1930. A Prefeitura do Rio tinha um concurso muito disputado para premiar os melhores de cada ano, entre 1933 e 1956. O compositor que mais venceu o concurso foi o hoje injustamente esquecido Haroldo Lobo (9 vezes); o cantor, se alguém tem dúvida, foi Francisco Alves (6 vezes).

O final do lançamento de músicas para cada ano tem vários fatores: o fortalecimento cada vez maior das escolas de samba, o desinteresse de autores e intérpretes da primeira linha da música brasileira em cultivar o gênero a partir do surgimento da bossa nova e, talvez não exagere em dizer, o encerramento do concurso da Prefeitura.

(F. G.)

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Sambas-enredo

A primeira entidade a se denominar escola de samba foi a Deixa Falar, em 1928. Como não havia outras, ela desfilou sozinha pela Praça Onze. A bem da verdade, era considerada um rancho pelos contemporâneos. Só com o aparecimento de outras escolas, como Mangueira e Vai como Pode (depois Portela), é que surgiu a idéia de um concurso de escolas de samba, criado em 1932 pelo jornalista Mário Filho numa promoção do Mundo Esportivo a partir de uma sugestão de Nássara. No ano seguinte, Roberto Marinho, d'O Globo, comprou a idéia.

Nem sempre o samba cantado pela escola na época correspondia ao enredo apresentado. Aliás, podia acontecer de a escola cantar até três sambas durante o desfile. Em 1935, Getúlio Vargas resolveu oficializar o concurso das escolas - ou seja, o governo financiava as entidades, evitando enredos que criticassem a situação vigente. Mesmo assim, por vários anos o samba tinha só a primeira parte definida, sendo os versos improvisados durante o desfile pelo intérprete, chamado de solista. Em 1948, porém, o governo impôs a submissão prévia da letra completa à Censura.

Os sambas-enredo morriam na Quarta-Feira da Cinzas. Raros chegavam a ser gravados. A subvenção oficial às escolas, porém, fez com que aos poucos as formas espontâneas de Carnaval, como os ranchos e blocos, fossem desaparecendo, por falta de apoio. O desfile das escolas, que era realizado na Praça Onze, foi transferido para a Avenida Central, outrora lugar do corso das grandes sociedades. Profissionais do teatro, da dança e das artes começaram a colaborar com as escolas, aproximando o apuro formal da realização do gosto das classes média e alta, que por volta do final dos anos 1950 passaram a considerar "bacana" freqüentar os ensaios.

Essa série de fatores fez com que os sambas-enredo ocupassem o lugar antes ocupado por marchas e sambas de cada ano. Até o começo dos anos 70, o lançamento desse material era esporádico - algum cantor identificado com a escola podia incluir o samba-enredo em seu LP, ou lançá-lo num compacto. A partir de 1975, o disco dos enredos é lançado anualmente.

(F. G.)

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Blocos caricatos

Bom, até aqui só falamos do Rio. O modelo de escola de samba predomina no Sudeste e no Sul do Brasil. Minas Gerais parece ser o divisor de águas entre os tipos de Carnaval. Em Belo Horizonte, as escolas convivem com trios elétricos (calma, chegamos lá) e com os blocos caricatos, típicos da capital mineira.

O bloco caricato mais antigo ainda em atividade em BH é Satã e seus Asseclas. Muitos adolescentes do bairro Santa Tereza queriam fazer parte da escola Eu Não Rapo Nada. Como esta era integrada exclusivamente por idosos, a rapaziada ficou de fora. Assim, em 1959, surgiram dois blocos no bairro, que se uniram oito meses depois. Nos anos 60, vieram Corsários do Samba, Bacharéis do Samba e Aflitos do Anchieta. Alguns desses blocos obtiveram a glória ao serem cantados pelo Skank em "Indignação" (CD Skank, 1993).

(F. G.)

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Frevo

O Carnaval de escola de samba, com indiscutíveis raízes populares, acabou gerando um modelo de festa em que o povo fica em casa, vendo o desfile pela TV, enquanto as arquibancadas dos sambódromos são ocupadas pela elite - aliás, os lugares de destaque sobre os carros alegóricos, também.

Ao norte de Minas, porém, o modelo é bem outro, com o povo ocupando um lugar bem maior na festa. José Ramos Tinhorão (em Pequena História da Música Popular, 1974), aponta a década de 1880 como a de surgimento do frevo em Pernambuco. Os frevos com letra, denominados frevo-canção ou frevo-marcha, teriam aparecido por volta de 1915. Era esse o tipo de composição de "Mulata", dos Irmãos Valença, que Lamartine Babo adaptou e transformou em "O Teu Cabelo Não Nega", o maior sucesso do Carnaval carioca de 1932. A adaptação não ofereceu maiores dificuldades, pois o frevo-marcha unia dois gêneros: era frevo, de andamento extremamente vivo, na introdução e no solo, enquanto a parte cantada era uma marcha aos moldes cariocas.

Como os Valença não haviam autorizado a adaptação da música (e muito menos a omissão de seu nome no selo do disco!), processaram a gravadora Victor, que desta forma foi legalmente obrigada a lançar frevos (ou marchas pernambucanas), nos anos seguintes. Inclusive com intérpretes tão improváveis como Carlos Galhardo ("Você Não Gosta de Mim", dos Irmãos Valença, em 1933) e Mário Reis (que lançou o clássico "É de Amargar", de Capiba, em 1934).

(F. G.)

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Trio elétrico

Em 1949, o grupo de frevo Vassourinhas, de Pernambuco, apresentou-se em Salvador, despertando o entusiasmo do público baiano. Dois fãs não se limitaram à admiração: o rádio-técnico Adolfo Antônio do Nascimento (Dodô) e o bandolinista Osmar Macedo saíram no carnaval de 1950 com um carro Ford, apelidado de Fubica, com dois alto-falantes que amplificavam o som de dois paus elétricos (uma guitarra e um bandolim de madeira maciça, eletrificados). O sucesso sem precedentes levou-os a, no ano seguinte, incluir um percussionista, Temístocles Aragão, e aumentar o número de alto-falantes para oito. Nascia o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, o modelo de dez entre dez blocos que desfilam hoje no Carnaval da Bahia. O frevo praticado pelos trios baianos é de ritmo mais acelerado que o congênere pernambucano.

A consagração definitiva da idéia veio com "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano Veloso, lançado em dezembro de 1968 num compacto e que foi o maior sucesso da festa soteropolitana de 69 - à qual o autor não pôde estar presente, em razão de se encontrar preso no Rio de Janeiro.

Caetano compôs regularmente para o Carnaval baiano durante os anos 70 e 80, inclusive mandando de Londres em 1971 o compacto duplo O Carnaval de Caetano, com cinco músicas, entre elas "Chuva, Suor e Cerveja". Sua produção carnavalesca gerou uma coletânea, Muitos Carnavais (Philips, 1977).

Já Gilberto Gil começou a carreira registrando para a baiana JS Discos a marcha carnavalesca "Coça, Coça, Lacerdinha", em 1962; no ano seguinte, em outro compacto, gravou "Decisão (Amor de Carnaval)", um samba seu, e "Vem, Colombina" (Sivan Castelo Neto - Jorge Santos), uma marcha-rancho. Nos anos 70, Gil também acostumou o público a seus lançamentos para o Carnaval baiano: "Está na Cara, Está na Cura" (1974) e "Ninguém Segura Esse País" (1975), entre outras.

(F. G.)

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Afoxé

Além de compor e cantar, o atual ministro da Cultura é o responsável direto pelo ressurgimento do bloco de afoxé Filhos de Gandhi, o mais antigo da capital baiana (o afoxé é um toque religioso ligado ao candomblé). O Filhos de Gandhi surgiu em 1949 e saía pelas ruas de Salvador com centenas de integrantes usando turbante, fitas e roupas totalmente brancas.

Ao retornar de Londres, em 1972, Gil reencontrou o Gandhi reduzido a umas 40 pessoas na praça da Sé. Chocado, o compositor resolveu agir: filiou-se ao bloco, compôs a música "Filhos de Gandhi" (em 1973, incluída no LP Ogum Xangô, que Gil gravou com Jorge Ben em 1975) e desfilou no afoxé por 13 anos seguidos. A presença de Gil atraiu a juventude e estimulou os integrantes mais antigos a voltar.

(F. G.)

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