Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 44 - 12/4/2004

Ronaldo Bôscoli: da Bossa Nova ao Balão Mágico

O jornalista Ronaldo Bôscoli (1928-94) começou a escrever letras de música em 1957, quando a bossa nova (ainda sem esse nome) já era a trilha sonora das praias cariocas. Os autores das melodias que ele letrava no início eram seus amigos Chico Feitosa, os irmãos Castro Neves e Carlos Lyra. Com Lyra, Bôscoli compôs clássicos fundamentais da bossa nova (já com esse nome): "Se é Tarde me Perdoa", "Lobo Bobo" e "Canção que Morre no Ar". A parceria acabou quando Lyra lançou seu primeiro LP Bossa Nova (1960), pela Philips, solo, em vez de continuar esperando pelo disco coletivo A Turma da Bossa Nova que a Odeon prometia gravar e que não saía nunca (ia esperar até hoje). Bôscoli responsabilizou Lyra o resto da vida pelo "racha" no movimento.

Mas tudo bem, Bôscoli já vinha compondo com Roberto Menescal, gerando novos clássicos fundamentais: "Rio", "Ah! Se Eu Pudesse" e "O Barquinho". Com o declínio da bossa nova como gênero da moda, o ritmo de produção de Bôscoli diminuiu depois de 1964. Além disso, ele cada vez mais produzia shows, primeiro no Beco das Garrafas, em Copacabana, depois na TV Record. Bôscoli e seu sócio Mièle foram chamados para salvar a audiência d'O Fino da Bossa, mas o único resultado prático da tentativa foi o casamento de Bôscoli com Elis Regina. Enquanto estiveram casados, Elis gravou apenas 4 músicas do marido, primeiro porque ele não exigia que ela o fizesse, depois porque seu parceiro Menescal agora vivia viajando à Europa, acompanhado uma cantora chamada... Elis Regina. Ela lançou uma das últimas músicas da parceria, "Depois da Queda" (1969).

Em seu livro Eles e Eu (Nova Fronteira, 1994), Bôscoli revelou que parou de compor como uma forma de homenagem a Chico Buarque e Caetano Veloso, porque sentia não ter pique para acompanhá-los. Mesmo assim, ele conseguiu a façanha de integrar o grupo hiper-seleto de parceiros de Roberto Carlos (com "Procura-se", de 1980).

O que Bôscoli não fala no livro é das duas versões (provavelmente as únicas de sua carreira) que fez para o disco de 1985 d'A Turma do Balão Mágico (que, como todos os outros, era da CBS e levava por título o nome do grupo), então integrada por Mike, Simony, Jairzinho (hoje Jair Oliveira) e Ricardinho. Tratam-se de "Cortaram Meu Verão (Que Pena de Verano)", de L. Figuerola, Ferreti e Alvaro Nieto Rodriguez, cantada por Simony e Jairzinho, e "Mochila Azul (La de la Mochila Azul)" de Bulmaro Bermúdez, solo de Jairzinho. A primeira descreve de forma bem-humorada o drama dos alunos que ficam de recuperação e não podem curtir as férias; a segunda fala da paixão de um estudante por uma colega, que nem suspeita de tal sentimento. Até onde sei, foram as últimas músicas de Bôscoli gravadas.

(Fabio Gomes)

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Buenos Aires e os grupos brasileños

No começo dos anos 1990, Os Paralamas do Sucesso quase se mudaram em definitivo para Buenos Aires. Fizeram excursões com muito êxito à capital argentina e gravaram uma série de discos em espanhol a partir de 1992 (Paralamas, Dos Margaritas, 9 Lunas), enquanto no Brasil eram malhados pela crítica (que não entendeu Os Grãos, de 1991) e até pelo público (que demorou a entender Severino, de 1994).

Buenos Aires também foi importante para o início da parceria Toquinho & Vinicius. O poeta chamara o violonista em 1970 para acompanhar seus recitais com a cantora Maria Creuza na boate La Fusa. Para Vinicius, era mais uma temporada como qualquer outra; Toquinho só foi chamado porque Dori Caymmi não pôde ir. Durante a estada, Toquinho, assim como quem não quer nada, começou a mostrar alguns temas seus para Vinicius, que no entanto só foi levar a sério a idéia de versá-los quando os dois foram fazer o primeiro show em Salvador, no mesmo ano.

Muito antes dos Paralamas e de Toquinho & Vinicius, porém, foi em Buenos Aires que alguns grupos brasileiros se desmancharam. A capital argentina foi o cenário do fim da dupla Joel e Gaúcho, em 1947. Após 17 anos de atuação em comum, por algum motivo Gaúcho voltou pra cá sozinho, enquanto Joel ficou mais cinco anos entre os portenhos. Em 52, com Joel de volta, a dupla foi retomada, mas em seguida Gaúcho afastou-se da música.

Foi lá também, em 1923, que a única briga conhecida entre Pixinguinha e Donga rachou Os Oito Batutas. Donga e outros três músicos voltaram ao Brasil, criando pouco depois Os Oito Cotubas, enquanto na Argentina Pixinga e os outros se viam em apertos financeiros para retornar ao Rio de Janeiro, já que ninguém queria contratar só quatro Batutas, por mais batutas que eles fossem...

(F. G.)

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Sempre o celular...

Durante uma apresentação de Adriana Deffenti no foyer do Theatro São Pedro (Porto Alegre), em 15 de junho de 2001, quando os músicos faziam a introdução de "Pô, Amar é Importante", de Hermelino Neder, ouviu-se o tilintar do celular de um espectador sentado nas primeiras filas. Sem se perturbar, a cantora iniciou improvisando: "Pô, desligar o celular é importante...".

(F. G.)

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