Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 45 - 19/4/2004

Exaltação a Tiradentes

Quarta-feira, dia 21, completam-se 212 anos do enforcamento do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o Mártir da Independência. O culto à memória do herói iniciou depois de 1889, pois durante o Império não convinha ao regime lembrar alguém que quisera um país livre... com regime republicano. Já para a nascente República era ótimo apresentar-se como coroamento da idéia dos inconfidentes mineiros de 1789 e não mais uma quartelada qualquer - sem contar que, como quem mandara matar Tiradentes foi o governo de Portugal, não se constrangia ninguém dentro do país. Por tudo isso, já em 1890 o dia 21 de abril foi decretado feriado nacional, junto com 15 de novembro.

De acordo com levantamento feito pela psicóloga francesa Monique Augras em seu livro O Brasil do Samba-Enredo (FGV, 1998), Tiradentes foi o vulto nacional mais citado em sambas-enredo no período em que as escolas de samba eram obrigadas a abordar temas da História nacional (1948-75).

Mas foi só uma vez que o herói teve uma homenagem exclusiva: foi no bicampeonato do Império Serrano, em 1949, com o antológico "Exaltação a Tiradentes" (Mano Décio da Viola - Penteado - Estanislau Silva): "Joaquim José da Silva Xavier/ Morreu a 21 de abril/ Pela independência do Brasil/ Foi traído e não traiu jamais/ A inconfidência de Minas Gerais".

Mano Décio tinha especial apreço pelo alferes, pois já no ano anterior apresentara, junto com Silas de Oliveira, nada menos que 3 sambas sobre ele. A escola preferiu apostar no tema "Antônio Castro Alves" (Altamiro Maio - Comprido). Mas 49 foi o ano de "Exaltação a Tiradentes", apresentado por Mano Décio e Penteado num ensaio que arrebatou a escola. Estanislau entrou na parceria porque, tendo ouvido o samba, foi a Madureira pedir autorização para divulgá-lo no asfalto. Desta forma, foi o primeiro samba-enredo que sobreviveu ao desfile, sendo gravado por Roberto Silva apenas como "Tiradentes" e voltando a fazer sucesso no carnaval de 1955.

(Fabio Gomes)

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Tiradentes em outros sambas

Tiradentes figura também em diversos enredos que buscam enumerar uma série de fatos históricos, como "Seis Datas Magnas" (Althair Prego - Candeia/Portela, 1953): "Foi Tiradentes o Inconfidente/ e foi condenado à morte/ 30 anos depois o Brasil tornou-se independente/ Era o ideal de se formar um país livre e forte"; "Três Épocas do Brasil" (Vila Isabel, 1966): "Por um ato de heroísmo/ Foi sacrificado o nobre Tiradentes"; "Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão - Do Morro Cara de Cão à Praça Onze" (Waldir 59 - Candeia/Portela, 1965): "Não devemos esquecer o mártir Inconfidente/ O heróico Tiradentes".

Em alguns sambas, sua presença na letra se justificava por ser um enredo voltado para lutas libertárias, como "Movimentos Revolucionários e a Independência do Brasil" (ala dos compositores do Império Serrano, 1961): "Tiradentes sonhou com a nossa libertação/ Morreu defendendo o direito da nossa nação"; e "História da Liberdade no Brasil" (Aurinho da Ilha/Salgueiro, 1967): "Tiradentes, Tiradentes/ O herói inconfidente, inconfidente/ Domingos José Martins/ Abraçaram o mesmo ideal". Mas o alferes podia ser citado apenas a pretexto de simples menção a seu Estado natal, como em "O Vale do São Francisco" (Cartola - Carlos Cachaça/Mangueira, 1948): "...a terra do ouro/ berço de Tiradentes/ Que é Minas Gerais."

Ainda na linha dos sambas enumerativos, talvez o mais curioso seja "Vultos e Efemérides" (Simeão - Jorge Porqueiro), com o qual a Portela foi bicampeã em 1958: "Em 22 de abril de 1500/ Nosso gigante vi cair/ Por diante com amor edificou/ Essa grande pátria varonil/ E Portugal ao mundo revelou/ Brasil ô meu Brasil/ Tiradentes o mártir inconfidente/ O pioneiro do Brasil independente/ Da Inconfidência Mineira/ Pela página brasileira..."

Tão significativa presença no imaginário carnavalesco tornava Joaquim José presença obrigatória no "Samba do Crioulo Doido" (Stanislaw Ponte Preta, 1967), sátira ao gênero: "Chica da Silva/(...) obrigou a princesa (Leopoldina)/ A se casar com Tiradentes// La la la la la/ O bode que deu vou te contar// Joaquim José/ Que também é da Silva Xavier/ Queria ser dono do mundo/ E se elegeu Pedro II..."

(F. G.)

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O Descobrimento

Quinta, dia 22, é a vez dos 504 anos do fato que estudamos na escola como Descobrimento do Brasil (se foi ou não acidental, se já havia contatos anteriores dos europeus com nosso país, é outra discussão...).

Sobre esse tema, existe uma monumental série de quatro suítes de Heitor Villa-Lobos para o filme O Descobrimento do Brasil (Humberto Mauro, 1937). A série tem o mesmo nome do filme e recebeu magistral gravação da Orquestra Nacional da Radiodifusão Francesa, sob regência do próprio Villa, em 1956, lançado pela EMI em 1957.

No carnaval, como vimos, o descobrimento é citado em "Vultos e Efemérides", e mereceu também dois sambas próprios: "O Descobrimento do Brasil" (Geraldo Babão/Salgueiro, 1962) e "Treze Naus" (Portela, 1969), ambos atribuindo a chegada de Cabral à calmaria, como se estudava então (e por muito tempo) na escola.

Ainda no carnaval, mas em outro gênero - a marcha -, Cândido das Neves apresentou em 1934 "A Maior Descoberta", gravada por Almirante e Castro Barbosa: "Depois da descoberta do Brasil/ A maior descoberta que se fez/ Foi... foi... foi a mulata/ A mulata que venceu mais uma vez!". Curiosamente, aqui, o autor evitou o uso da expressão consagrada - "descobrimento" -, que por sinal é considerada gramaticalmente incorreta por muitos autores, que recomendam o termo "descoberta".

(F. G.)

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Foi seu Cabral

A rigor, Pedro Álvares Cabral tem pouco a ver com a terra da qual tomou posse em nome do rei de Portugal em 1500. Passou só alguns dias aqui, a maioria a bordo, e não participou de outras expedições para cá - aliás, de mais nenhuma, após chegar a Lisboa em 1501 retornando da Índia. Dom Manuel ofereceu-lhe o comando de outra viagem, mas ele recusou e caiu em desgraça na corte.

Nada disso, porém, parece importar para os brasileiros, pois ao longo dos anos o culto e as homenagens ao fidalgo português só têm similar ao de grandes heróis nacionais. Para citar só um exemplo, existem 3 ruas em Porto Alegre com seu nome: rua Cabral, rua Álvares Cabral e rua Pedro Álvares Cabral - sem contar a praça Cabrália!

Na marcha carnavalesca, então, os poderes atribuídos ao almirante são ilimitados. Ele não só foi "quem inventou o Brasil/(...) No dia 21 de abril/ Dois meses depois do carnaval!" ("História do Brasil", Lamartine Babo, lançado por Almirante em 1934 - atenção: a menção de Lalá é mesmo ao dia 21, e não 22, para acentuar o caráter nonsense da letra). Mais que isso, o descobridor é exaltado por João de Barro pela diversidade de tipos femininos que temos no país hoje: "Quando seu Cabral aqui chegou,/ Só botocudas ele encontrou/ Hoje, há qualquer tipo de mulher/ Viva o Cabral! Tá de colher!" ("Viva o Cabral", gravado por Moreira da Silva em 1953).

(F. G.)

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O valioso Cabral

Quando, no começo dos anos 1960, o Tesouro Nacional resolveu colocar a efígie de Pedro Álvares Cabral na nova nota de mil cruzeiros, certamente não imaginou que repercussões isso teria na canção de carnaval. Duas marchas, com nome quase idêntico e lançadas na mesma época, abordavam o valor do navegante.

Uma delas foi "Retrato do Cabral" (Monsueto Menezes - Raul Marques), sucesso de Monsueto no carnaval de 1963: "Se não tem papel/ Pintado com o retrato/ Do Cabral/ O nosso amor acaba mal.// De janeiro a janeiro/ É uma briga sem igual/ A razão da nossa briga/ É o retrato do Cabral."

A outra, "Retrato de Cabral" (Rubem Gerardi - J. Piedade - José Brogogério), com Emilinha Borba, sobre um personagem que todo ano comprava um Cadillac: "Ai, ele é o tal!/ Abre a carteira, é só retrato de Cabral!".

(F. G.)

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