Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 52 - 7/6/2004

1 ano de Mistura e Manda

Quarta, 9, faz um ano que entrou no ar o jornal eletrônico do Brasileirinho: o Mistura e Manda. Esse informativo veio preencher uma séria lacuna nossa no que se referia à divulgação de notícias sobre música brasileira que não se encaixassem nas Dicas ou nos Artigos, bem como para compartilhar comentários de leitores uns com os outros. Embora só tenha iniciado há um ano, a necessidade de um espaço assim já se fez sentir no início de nossas atividades, quando a cantora Letícia Oliveira participou, com a música "Babalanceia", do festival Coca-Cola Mixer. Um pequeno texto, divulgado os links para ouvir a canção e votar nela no site do festival, ficou no ar por poucos dias em novembro de 2002. Desta forma, podemos dizer que Letícia é nossa musa!

Neste um ano, muita coisa mudou aqui no Brasileirinho (quem quiser lembrar como era nossa carinha em junho de 2003 pode acessar o Web Archive, numa cópia que contém a chamada para o Mistura e Manda nº 1). Todas essas mudanças foram registradas pelo Mistura e Manda, em duas versões: a que fica no ar durante uma semana (e depois passa ao Arquivo Mistura) e a que é recebida no domingo à noite pelos assinantes. A diferença básica entre as duas versões é que a dos assinantes tem um tópico a mais, intitulado Novidades no Brasileirinho, com link para o material novo que entrou no ar durante a semana. Em caso de mudanças significativas na navegação, naturalmente a versão do site também conta as Novidades. Excepcionalmente, como na última semana, os assinantes recebem notícias exclusivas: eles souberam em primeira mão que o terceiro sorteio da Rádio Cabeça era também o último e que teríamos um novo diretório, o Bebendo do Samba.

Atualmente, temos 113 assinantes, nos estados do Acre, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins; no exterior, Argentina e Inglaterra. O acesso a cada edição durante a semana oscila de 2 a 4 leituras por dia. O recorde de acessos a um Mistura e Manda que estivesse no ar foi registrado com a edição nº 35, na semana de 9 a 16 de fevereiro de 2004: 33 leituras.

As edições do Mistura e Manda geralmente são mais lidas no Arquivo Mistura. As campeãs do Arquivo são a nº 3, em que falamos das festas juninas (323 acessos até o fim de maio), e a nº 32, o Especial sobre os 450 anos da cidade de São Paulo (260 acessos até maio). Por sinal, a idéia de deixar o arquivo disponível com as edições anteriores e o envio do informativo por e-mail a assinantes, que desde o início fazia parte do projeto do Mistura e Manda, começou a ser testado nos primeiros dias de junho de 2003 com as Dicas e deu certo - aliás, tanto que até hoje o Arquivo das Dicas é mais lido que o Arquivo do Mistura.

Nesta data querida, queremos agradecer de modo especial àqueles que ajudaram a fazer o Mistura e Manda ao longo desse ano, enviando notinhas que publicamos: Adão Rosa, baixista; Adriana Deffenti, cantora; Agnaldo Rocha, fotógrafo; Altamiro Carrilho, flautista; Anildo Guedes, coordenador do Cimples SambaEChoro; Dulce Auriemo, pianista e compositora; Fernanda Gomes, leitora de Porto Alegre; Flavia Lage, leitora de Belo Horizonte; Jane Lapa, advogada; Juliana Barbosa, leitora de Londrina; Letícia Vargas, jornalista; Liza Maria, violonista; Marcello Campos, jornalista; Militão Ricardo, professor; Nat Promoções e Eventos; Nelson Coelho de Castro, cantor e compositor; Organizadores do Traço de União; Ricardo Camargos, pianista; Susana Fröhlich, produtora; Tiago Piccoli, violonista.

(Fabio Gomes)

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Nelson Alves, o autor de "Mistura e Manda"

Demorei a colocar no ar o informativo do Brasileirinho porque queria encontrar um nome que obedecesse a dois critérios: 1º, traduzir exatamente a idéia; 2º, ser nome de choro. Não lembro se cheguei a cogitar a sério outra denominação, porque quando pensei em "Mistura e Manda" qualquer outro nome perdia o sentido. Afinal, esta era (é) (será) a idéia: misturar dados recebidos de várias fontes e mandá-las ao mundo numa forma divertida e informativa. Também era uma forma de homenagear o autor desse choro magnifíco, o hoje esquecido Nelson Alves.

Nelson nasceu no Rio de Janeiro, em 1895. Ainda muito jovem, começou a tocar cavaquinho, integrando na década de 1910 o lendário Grupo Chiquinha Gonzaga, que acompanhava a maestrina nas gravações da Casa Edison, e o Grupo Carioca, ao lado do trombonista Candinho Silva e do violonista Tute, pai do violão de 7 cordas.

No carnaval de 1919, Nelson foi convidado por Donga para integrar o Grupo de Caxangá, que tinha a tarefa de animar a folia na sociedade Tenentes do Diabo. Em abril, sob a liderança de Pixinguinha, alguns elementos do Caxangá (Nelson entre eles) formaram o grupo Oito Batutas, para tocar na sala de espera do cinema Palais, um dos mais elegantes da então capital da República. O conjunto em breve receberia muitos convites para excursões - o que não era muito comum na época, devido às dificuldades de comunicação e transportes. Uma das apresentações dos Batutas em Ribeirão Preto motivou um poema de Ghritta, publicado no jornal O Albor. Transcrevemos os versos em que ele cita nosso patrono:

"Temos falado de flauta/ Temos falado de pinho/ Agora vamos contar/ Do moço do cavaquinho.// Chama-se Nelson Alves/ E tem prêmio por tocar/ Somente com cinco cordas/ Faz coisas de admirar."

A estada dos Batutas em Paris, em 1922, fez com que os músicos conhecessem a extraordinária efervescência cultural da capital francesa. Como resultado, alguns adotaram novos instrumentos. Nelson passou a apresentar-se com um cavaquinho-banjo (mais tarde, tocou também banjo armado em bandolim, conforme Alexandre Gonçalves Pinto em O Choro, 1936). Na viagem seguinte, à Argentina, em 1922-23, uma estranha briga entre Pixinguinha e Donga (deve ter sido a única vez na vida em que Pixinga brigou com alguém, e logo com Donga!) levou ao fim dos Oito Batutas. Quatro deles, entre os quais Donga e Nelson, retornaram ao Rio, formando os Oito Cotubas, que foi contratado a peso de ouro (100 mil-réis por dia!) para tocar no Cabaré Fênix. Mesmo com tanta grana na parada, os Cotubas não duraram muito - em pouco tempo, com Pixinguinha de volta ao Rio, ele e Donga fizeram as pazes pra sempre e isso levou ao fim do conjunto "carbono". Nelson não retornou aos Batutas, embora também não tivesse mais qualquer rusga com Pixinguinha - tanto que formou com ele e Tute um grupo que acompanhou Francisco Alves em algumas gravações na Odeon em 1927 e 1928. Também ao lado do autor de "Carinhoso", Nelson participou do grupo Descobrimos o Enredo e Vamos Abrir o Bico, que tocou só no carnaval de 1931. O enorme nome do grupo brincava com o segredo com que os blocos e escolas de samba na época tratavam seus temas para o carnaval seguinte.

Embora existam referências a Nelson como integrante do Grupo da Guarda Velha, também organizado por Pixinguinha, isso é pouco provável, pois a base do conjunto utilizava alguns sopros e muita percussão, enquanto os instrumentos de corda ficavam todos a cargo de Donga, responsável por violão, cavaquinho e banjo. Mesmo tendo gravado em 1930 discos como solista ("Nem Ela, nem Eu", na Brunswick, e "Eu Vi Você"/ "Não Tem Dúvida", na Parlophon), Nelson começava a sair de cena neste começo dos anos 30. Não gravou mais nenhum disco e, afora as músicas citadas, só são conhecidos seu choro "Ficou Calmo" e sua polca "Serpentina". Nelson faleceu no Rio, em 1960.

Sua obra-prima, "Mistura e Manda", foi gravada em 1934 por Benedito Lacerda e de lá pra cá mereceu registros de Água de Moringa, Alexandre Maionese, Altamiro Carrilho, Cramique (grupo francês), Cristóvão Bastos, Déo Rian, Época de Ouro, e Mário Eugênio (desculpem os que estou esquecendo!!!). Mas com certeza uma das melhores gravações (se não a melhor) de "Mistura e Manda" é a que dá nome ao LP de 1983 de Paulo Moura. Reunindo um time imbatível - Paulo Moura (clarineta), Zé da Velha (trombone), Raphael Rabello (violão 7 cordas), Maurício Carrilho (violão), Jonas e Carlinhos do Cavaco (cavaquinhos), Jorginho (pandeiro), Neoci de Bonsucesso e Jovi (percussão) -, o fonograma tem uma combinação única de precisão e malandragem (principalmente o trombone de Zé da Velha, no tema da 3ª parte e no improviso quase circense que se segue, num "duelo" com a clarineta de Moura) - pra não falar nos violões percussivos!

(F. G.)

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Rádio Cabeça: último sorteio

José Juvenal Gomes, de Porto Alegre, foi o ganhador do último sorteio da promoção Rádio Cabeça, realizado na terça, 1. Ele indicou a música "Ingênuo" (Pixinguinha), na gravação de 1967 de Jacob do Bandolim, e recebeu seu CD na quinta, 3.

(F. G.)

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Arraial de Belô

Uma das maiores festas populares do Brasil, o Arraial de Belô teve início na sexta, 4, com a transformação do tradicional espaço do Santa Tereza em Serenata em uma legítima festa junina. O grupo Diamantina em Serenata comandou a mistura de seresta, forró, quadrilha e meditação pela paz (sim, vários profissionais estavam ali com a missão de convocar a comunidade a unir-se contra a violência, por meio de exercícios). Desde a terça, 1, o Minas Shopping sedia a exposição "BH de Todos os Arraiás", reunindo fotos, banners, textos e roupas típicas que contam a história do evento, desde sua primeira realização, em 1979, com o nome de "Forró de Belô". A mostra vai até 30 de junho.

O Arraial de Belô é dividido em duas etapas. Na primeira, realizada de 3 a 18 de junho, acontece a apresentação das quadrilhas de cada região, nas nove administrações regionais da cidade. As quadrilhas inscritas se apresentam nas praças e parques de BH, integrando-se ao Projeto Minha Praça e também mobilizando a população para as comemorações juninas. Nos dias 19 e 20, cada regional irá selecionar suas três melhores quadrilhas, que se classificam para a segunda etapa. A apuração das regionais acontece no dia 21, na praça Sete.

A grande disputa pelo título de melhor quadrilha de Belo Horizonte vai acontecer de 24 a 27 de junho, na Serraria Souza Pinto, envolvendo as 27 classificadas, junto a um ambiente cenográfico com todos os componentes de uma cidade do interior. Além das exibições competitivas, o Arraial tem variada programação com shows musicais, barracas de comida e bebida típica e espetáculos pirotécnicos. Quadrilhas do interior do Estado e artistas consagrados também vão se apresentar durante os quatro dias de festa junina. A premiação dos vencedores, com a entrega do Troféu Bentinho do Sertão às três melhores quadrilhas da capital mineira, acontece no dia 2 de julho, também na Serraria, encerrando em grande estilo a celebração desta festa tão profundamente arraigada na tradição brasileira.

(F. G.)

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