Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 55 - 28/6/2004

"De Teresina a São Luís" - final da promoção

Não houve acertador em nossa promoção De Teresina a São Luís. E a tarefa não era das mais difíceis. Bastava responder certo porque João do Vale compôs a música com esse nome e que conseqüência o sucesso da música gerou.

João do Vale escreveu "De Teresina a São Luís", em parceria com Helena Gonzaga, como protesto pelo fato de a linha férrea ligando as capitais do Piauí e do Maranhão ser a única do país ainda movida a lenha, enquanto todas as outras já eram a óleo há bastante tempo. Por isso o trem ia "Comendo lenha e soltando brasa/ Tanto queima como atrasa".

O sucesso do xote, gravado por Luiz Gonzaga no LP O Véio Macho (RCA, 1962), chamou a atenção da bancada do Maranhão no Congresso Nacional. Considerando uma vergonha para o Estado ainda existir um trem a lenha, os deputados federais se empenharam para a modernização da linha. Em homenagem a João do Vale, os novos trens foram batizados com nome de músicas suas: a que ia de São Luís a Teresina se chamava "Pisa na Fulô", e a que voltava era a "Peba na Pimenta".

(Fabio Gomes)

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Clã do Jabuti aclamado

Os veteranos compositores da Associação dos Sambistas de Minas Gerais homenagearam publicamente os jovens integrantes do Clã do Jabuti, durante apresentação do grupo no sábado, 19, em Belo Horizonte. A velha guarda mineira parabenizou a garotada por estar mantendo criativamente a tradição do samba de qualidade. E não é para menos: em dezembro de 2003, o Clã foi finalista do 1º Festival de Samba de Belo Horizonte, promovido pela Coopersamba.

O Clã, que buscou seu nome no título de um livro de Mário de Andrade, foi criado há 2 anos por Alexandre Rezende (violão e voz), Marina Pinto (voz), Christiano Rocha (cavaquinho), Mariana Martins (clarinete), Bobô (cuíca), Leo Fumaça (surdo) e Caiau (pandeiro). No seu repertório, a influência dos mestres: Cartola, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola. Em breve, o grupo deve estrear uma página na internet.

(F. G.)

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Samba em Celebridade

Acabou na sexta, 25, a novela Celebridade, de Gilberto Braga (TV Globo, direção geral Dênis Carvalho), certamente a que mais falou de samba nos últimos anos. Pela casa de espetáculos Sobradinho, localizado na trama no bairro carioca do Andaraí, passaram baluartes como Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Martinho da Vila, Simone, Tereza Cristina & Grupo Semente, Zeca Pagodinho e, no capítulo que para mim vai ficar como o grande momento da TV brasileira este ano, Gal Costa. Uma pena que, como a maioria das cenas no Sobradinho eram noturnas, era difícil o público ver as reproduções dos quadros Serenata, Samba e Chorinho, de Cândido Portinari, que decoravam o ambiente. Isso só foi possível já na penúltima semana, nas cenas do casamento de Salvador (Roberto Bonfim) e Palmira (Adriana Alves), cujas gravações ocorreram de dia (outro quadro de Portinari, Quatro Vaqueiros Laçando o Boi, exposto na sala da presidência do Grupo Vasconcelos, teve melhor sorte, pois lá acontecia a maior parte das cenas decisivas). O samba também figurou no outro ambiente cenográfico de shows, o Espaço Fama. Sendo a proposta musical deste mais variada que a do Sobradinho, cantaram ali o ministro Gilberto Gil, João Bosco, Roberto Carlos, Lulu Santos, Titãs, entre outros.

Tanto samba na história culminou com o lançamento na vida real do CD Celebridade Samba (Som Livre). Contrariando a tendência de para cada novela fazer dois discos, um nacional, outro internacional, desta vez a Som Livre lançou no final de 2003 um CD duplo nacional/internacional. O lançamento, bem depois, desse CD de samba, aproveitava a onda do sucesso do núcleo do Andaraí e me parece um indício de que o Sobradinho não fazia parte da sinopse original de Braga. O samba teria entrado maciçamente na novela para salvar uma história que ameaçava descambar para o desinteresse, em função do pouco suspense gerado pela morte prematura de um personagem principal (Lineu, vivido por Hugo Carvana) e do nenhum suspense advindo da morte de um personagem pra lá de secundário (Queiroz, feito pelo ator Otávio Müller).

Braga já afirmou que seu modelo de história ideal é o cinema norte-americano. Em Celebridade, porém, acredito que o novelista encontrou-se com a cultura brasileira. O casamento de fachada de Renato (Fábio Assunção) e Laura (Cláudia Abreu), por exemplo, era uma citação do romance Senhora, de José de Alencar. E a presença de números musicais na trama é um evidente tributo à chanchada. A apresentação de Gil fechando o último capítulo é a cara das apoteoses finais das chanchadas (e do teatro de revista), onde depois de tudo resolvido os personagens comemoravam o final feliz.

Cabe menção ainda à inovação da novela de incluir a vida real na história, seja na aparição de pessoas reais com seus próprios nomes, como Nei Lopes, Nelson Motta e Nana Caymmi, seja no uso do Espaço Fama para lançamento de produtos como calçado e empreendimento imobiliário. O ápice dessa tendência foi a festa de lançamento do filme Cazuza - O Tempo não Pára, com exibição do trailer e entrevistas com a co-diretora do filme, Sandra Werneck, e com a mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, por uma repórter da TV a cabo Multishow.

(F. G.)

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Leonel Brizola, o criador do Sambódromo

O ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, falecido na segunda, 21, será sempre lembrado como o líder da Campanha da Legalidade (que em 1961 garantiu a posse de João Goulart como presidente) e como um grande incentivador da educação. Ele também ficará na história do carnaval carioca, como o responsável pela construção do Sambódromo.

De acordo com Sérgio Cabral, em seu livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Lumiar, 1996), a idéia do Sambódromo surgiu em 1983, para solucionar um impasse que vinha se arrastando, com a queixa da sociedade em relação ao monta-desmonta das arquibancadas, que deixava a Marquês de Sapucaí livre para o trânsito apenas 4 meses por ano. Após cogitações de realizar o desfile na Av. Presidente Vargas ou no Maracanã (!!!), Brizola anunciou em 11 de setembro que o desfile seria mesmo na Sapucaí, após a construção no local da Passarela do Samba - nome que em seguida o povo esqueceu, para consagrar o espaço como Sambódromo. As obras, supervisionadas pelo filho do governador, João Otávio Brizola, iniciaram em seguida, ficando prontas às vésperas do carnaval.

O desfile de 1984, o primeiro a ser realizado no Sambódromo, foi o único em que se cumpriu a finalidade social da obra projetada por Oscar Niemeyer. O espaço sob as arquibancadas, destinado a que a população carente pudesse assistir ao desfile, a partir de 1985 foi ocupado por mesas e cadeiras, vendidas por preços maiores que os dos lugares de arquibancada, só perdendo para o custo dos camarotes (felizmente, o espaço dos camarotes seguiu sendo aproveitado por 210 salas de aula fora do período de desfiles).

A obra foi muito criticada. O carnavalesco Fernando Pamplona questionou a decisão do secretário de Cultura, Darcy Ribeiro, de não querer decorar o Sambódromo, contrariando uma tradição do carnaval e indo contra concurso da Riotur para decoração com resultado já anunciado. O diretor de harmonia da Beija-Flor, Laíla, viu como negativa a distância entre os sambistas e os espectadores das arquibancadas, esfriando o desfile. O Jornal do Brasil questionava a origem dos recursos para o projeto - o próprio João Otávio admitiu à Última Hora o estouro do orçamento: a previsão inicial era de 5 bilhões de cruzeiros, mas o Sambódromo custou 24 bilhões.

Criticado ou não, Brizola agiu em relação a este assunto, guardadas as devidas proporções, de forma semelhante à Legalidade: identificou uma dificuldade, imaginou o melhor modo de resolvê-la e fez. Seu Sambódromo mudou o carnaval do Rio de Janeiro e inspirou obras semelhantes em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte.

(F. G.)

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