Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 57 - 12/7/2004

Bernardo Alves

O autor do artigo Samba de Matuto, que colocamos no ar nesta semana, é o pesquisador pernambucano Bernardo Alves. Ele escreveu o livro A Pré-História do Samba, no qual conseguiu estabelecer a linha evolutiva do samba desde seu surgimento, certamente anterior ao Descobrimento do Brasil, entre os índios da Naçam Kiriri, na região de Pernambuco conhecida hoje como o Sertão do Cariri. Na obra, Bernardo revela ainda os caminhos que fizeram com que o samba, de criação indígena, tenha chegado a ser apontado hoje, quase unanimamente, como sendo originado da África. É de se lamentar que o livro, que teve uma edição feita pelo próprio autor em 2002, com poucos exemplares, esteja longe do alcance do grande público.

(Fabio Gomes)

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Sanatório Geral

Foi um grande sucesso a homenagem aos 60 anos de Chico Buarque ocorrida na sexta, 9, no Cia. de Arte Café (Porto Alegre), com apoio do Jornal Vaia e do Brasileirinho. O evento foi batizado como Sanatório Geral, aludindo à escola de samba cujo desfile Chico e Francis Hime descrevem em "Vai Passar".

Falei na abertura, abordando alguns aspectos da obra de Chico e contei passagens pouco conhecidas de sua vida, como seu primeiro encontro com Elis Regina. Na seqüência, vários grupos se apresentaram, interpretando pérolas da obra buarquiana. O Macambira (formado por integrantes da Camerata Brasileira) atacou de "Feijoada Completa". Os dois bandolinistas do grupo tiveram seu momento solo: Rafael Ferrari tocou "Gente Humilde" (Garoto - Vinicius de Moraes - Chico), enfrentando alguns percalços em relação ao som, e Luís Barcellos apresentou uma versão irreconhecível de "O Que Será (À Flor da Terra)". Muito aplaudidas também as atuações da cantora Luciana Pauli (da banda Anahata), que foi acompanhada João Mayer ao violão, e da atriz Daniela de Aquino, que esteve soberba no trecho que apresentou da peça Gota d'Água, de Chico e Paulo Pontes. Outra atriz, Rosaura Costa, leu dramaticamente as letras de "Cálice" (Gilberto Gil - Chico) e "Milagre Brasileiro" (esta, assinada por Chico como Julinho da Adelaide).

Também tocaram Sil, Zé da Terreira, Coca Barbosa e Siboney, Otávio Santos e Carolina, Edu Saffi, Márcio Sobrtosa, Rogério Lauda, Leonel Schardong, Mozart Dutra, Giovani Mesquita e Maria Carmen, entre outros. Ao final, o DJ Fred colocou todo mundo pra chacoalhar o esqueleto com uma seleção de Chico, Alcione, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Tim Maia, Jair Rodrigues, Elza Soares, Jorge Ben e outros grandes benfeitores da Humanidade.

(F. G.)

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Karine em grande momento no Santander

A cantora e compositora Karine Cunha aproveitou sua apresentação no Santander Cultural (Porto Alegre), no sábado, 10, para mostrar uma nova composição, o reggae "Imensurável", cuja linda letra diz que "Ninguém sabe o tamanho que o amor tem/ Mas todo mundo sabe dizer quando ele vem". Na platéia, um espectador comentou: "Fazia tempo que eu não escutava uma coisa tão boa!".

Comedida na inclusão de obras de outros autores (chegou a se perguntar se Tim Maia aprovaria a versão baião de "Descobridor dos Sete Mares"), Karine esteve perfeita ao cantar temas tão diversos musicalmente como as canções "Fogueira" e "Pitiê de Moá" (esta, em francês, com direito a declamação em português de parte da letra), a balada "Água e Fogo" e os sambas "Amado" e "Autoanálise". Nos sambas, acompanhou-se ao cavaquinho. A integração com a banda que a acompanha (Marcos Bonilla - violão e chocalho, Alexandre Vieira - baixo, Binho Terra - percussão) com certeza ajuda na obtenção de um belo resultado sonoro. A banda também contribui com um bom vocal em "Pedalload", cujo arranjo enfim me parece ter atingido o ponto ideal (em outras vezes que o escutei, Karine fazia alguns malabarismos vocais que comprometiam o resultado final).

Ressalte-se ainda o bom humor e a capacidade de improviso de Karine. Quando alguém da platéia fez uma brincadeira com "Corcovado" (Tom Jobim), cantando "Um banquinho, um violão...", a propósito dela ter pedido, além do violão, o banquinho de Marcos para que pudesse tocar "Batucada", ela acrescentou: "... e o Binho Terra na percussão/ Eu vou ser feliz a vida inteira..."

(F. G.)

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Elis encontra Chico

O primeiro encontro de Elis Regina com Chico Buarque, que contei na abertura do Sanatório Geral, ocorreu provavelmente no começo de 1965, quando a cantora selecionava repertório para seu primeiro LP na Philips, Samba Eu Canto Assim. Um amigo de Elis, João Evangelista Leão, lhe falou de um amigo seu que tinha músicas interessantes, que ela devia ouvir e certamente escolheria alguma para o disco. Elis aceitou e João combinou com Chico para este ir ao apartamento dela. O que João não contou a Elis era da enorme timidez de Chico. Hoje ele até usa essa fama a seu favor, para escapar de situações que o constranjam, mas na época a coisa era séria mesmo.

Elis ouviu a campainha tocar, foi atender e deu de cara com alguém com o violão na mão, parado, mudo.

- Você é o amigo do João, né? O Chico? - quis saber Elis, depois de algum tempo de silêncio.

- É, sou - admite Chico.

- Então, entra aí.

Chico sentou no sofá da sala e ficou abraçado ao violão, como se temesse que Elis fosse arrancá-lo. Não abria a boca. Elis contou certa vez que os dois ficaram duas horas nessa situação (acho difícil, a duração de sua paciência era menor). De qualquer forma, após um grande tempo mudos, Elis comentou, já um pouco irritada:

- Bom, o João disse que você tinha umas músicas pra me mostrar.

- É - murmurou Chico.

- Então faz assim: tem um gravador de rolo aí, você grava algumas músicas e outra hora eu escuto e te digo alguma coisa, tá bom?

Dito isso, Elis levantou-se e foi pra cozinha, deixando Chico sozinho na sala. Chico deixou registradas algumas composições e saiu sem se despedir.

Poucos dias depois, João liga pra Elis, querendo saber o que ela achara das músicas. Resposta:

- Ah, João, não dá. Esse seu amigo não fala nada, não vou gravar nada desse cara não.

- Mas, Elis, as músicas... Você ouviu?

- Eu não, o cara é muito chato.

Meses depois, Elis não pôde reclamar quando Nara Leão lançou Chico gravando "Olê Olá" e "Madalena Foi pro Mar"...

(Felizmente, Elis depois reviu seus conceitos e legou à posteridade gravações irretocáveis como "Atrás da Porta", de Chico e Francis Hime, e "Tatuagem", de Chico e Ruy Guerra)

(F. G.)

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