Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 58 - 19/7/2004

O letrista Ruy Guerra

O cineasta Ruy Guerra foi o homenageado da 2ª edição do festival CineEsquemaNovo (Porto Alegre - 13 a 18 de julho). Sua agenda na capital gaúcha esteve lotada por oficinas, sessões especiais e debates, como o ocorrido no sábado, 17, no Santander Cultural após a curiosa projeção de Os Fuzis (1963). Curiosa porque a versão apresentada, montada a pedido do produtor Jarbas Barbosa para deixar o filme mais "comercial", foi vetada por Ruy ainda quando do lançamento. No acordo que fizeram na época, diretor e produtor acertaram que essa cópia não seria mostrada fora do país; posteriormente, Ruy empenhou-se em só deixar a sua versão circulando, mas pelo jeito esta escapou... Ficou o compromisso de Ruy trazer a Porto Alegre o verdadeiro Os Fuzis, para se realizar nova sessão comentada.

Durante o debate, Ruy falou de seus principais filmes, como Os Cafajestes (1962), Os Deuses e os Mortos (1970) e A Queda (1976). A propósito deste, uma co-direção de Ruy com Nelson Xavier, o crítico Marcus Mello disse enxergar no roteiro referências à obra de Chico Buarque - a ambientação da história num prédio em obras remeteria à música "Construção", e mesmo a trilha de Milton Nascimento reforçaria, para Marcus, essa impressão. Ruy mostrou-se surpreso, pois essa associação nunca tinha lhe ocorrido.

Ainda a propósito de Chico, um espectador quis saber como foi para Ruy a experiência de escrever com ele a peça Calabar, o Elogio da Traição. Ruy contou que, sem condições de filmar no Brasil após a proibição de Os Fuzis, trabalhou um período como letrista, compondo com Edu Lobo (ele poderia citar ainda Marcos Valle, Sérgio Ricardo e Francis Hime). Para escrever com Edu, ia seguido a São Paulo, onde conheceu Chico, "ainda antes de ele ser famoso". Nascia aí a amizade, que só foi se tornar parceria em 1972, quando Chico o convidou para fazerem em conjunto as versões das letras para o musical O Homem de la Mancha (a mais conhecida das quais era "Sonho Impossível", de J. Darion e M. Leigh).

(Fabio Gomes)

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Ruy Guerra fala de Calabar

Terminadas as versões para ...la Mancha, os parceiros Chico Buarque e Ruy Guerra sem outra perspectiva pela frente, resolveram fazer eles próprios o seu musical, surgindo daí Calabar. Ruy conta que Marieta Severo, casada à época com Chico, não acreditava que eles estavam escrevendo um musical, pois passavam o dia em grande farra no apartamento de Chico, conversando alto, cantando, um escrevendo uma parte da letra, passando pro outro... (Realmente, o autor de "Folhetim" costuma trabalhar bem mais recolhido!). Nas músicas da peça, as melodias são de Chico (Ruy não é músico) e as letras são divididas.

Peça pronta, partiu-se para a produção, que alugou o Teatro João Caetano (Rio de Janeiro) para a temporada. Mas faltava o carimbo da Censura. Os censores faltaram a todos os ensaios que foram marcados especialmente para que a peça fosse censurada (no caso, liberada, com ou sem cortes, ou proibida). Novos ensaios eram marcados, mas depois de algum tempo ficou insustentável manter o teatro alugado e arcar com as despesas da produção sem saber se a peça poderia ou não ser feita. Cancelou-se a peça. Para minimizar o prejuízo, os autores buscaram outras mídias: as músicas foram gravadas no disco Chico Canta (a palavra Calabar, que complementava o título, foi proibida); a capa de Regina Vater para o disco (o nome "Calabar" pichado num muro) foi vetada; o disco não era tocado nas rádios; mas a peça saiu em livro numa boa (ao menos 7 edições pela Civilização Brasileira até 1975, COM a capa de Regina que não podia estar no LP!).

Foi feito ainda um show com temporada de dois meses, Tempo e Contratempo, em que na primeira parte o MPB-4 cantava sucessos de Chico e, na segunda parte, o próprio apresentava o repertório de Calabar: "Ana de Amsterdam", "Bárbara", "Tatuagem", "Fado Tropical"... Algumas músicas, que podiam ser gravadas em disco, não estavam liberadas para ser cantadas em show (vá entender os critérios dos censores!) - mas tudo correu bem, pois bastava Chico dar alguns acordes no violão e o próprio público cantava a música inteira. Por sinal, as quatro cadeiras reservadas para a Censura durante a temporada inteira nunca foram ocupadas...

A peça jamais foi montada no Brasil. Ruy contou que volta e meia alguém quer fazer, mas a coisa não avança. Ele sabe, porém, de uma montagem em Viena (Áustria), por um grupo de brasileiros.

(F. G.)

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Sambistas querem disputar vagas nesta eleição

Edleia dos Santos, presidente da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas) desde 1997, aceitou mais um desafio em sua militância pelo samba paulista: é candidata a vereadora nas eleições de 2004.

Léia está se afastando da presidência da entidade para se dedicar totalmente à campanha política e nesta segunda-feira, 19 de julho, entrega o cargo para o vice-presidente da UESP, Dr. Jorge Henrique Guedes, que garante dar continuidade aos trabalhos da entidade com a mesma fidelidade e bom senso que Léia.

- Eu sempre tive uma postura muito crítica em relação aos políticos e nunca sonhei em concorrer em uma eleição. Quando algumas lideranças me procuraram, dizendo que eu poderia ajudar a brigar por respeito à nossa cultura, eu decidi aceitar o desafio - explica.

Edleia afirma ainda que, embora os espetáculos das entidades carnavalescas filiadas à UESP tenham crescido bastante, ainda existe descaso das autoridades e dificuldades que só seriam resolvidos se houvesse um interlocutor entre o poder e as manifestações culturais que nascem nas periferias da cidade. Com o tema da Campanha: "Cultura é coisa séria", Leia defende que a cultura deve ser valorizada como um meio de informação e instrumento de conhecimento.

A cerimônia da transmissão do cargo de presidente para o Dr. Jorge Henrique Guedes acontece nesta segunda-feira, dia 19 de julho, às 20h, na sede da UESP – Rua Rui Barbosa, 588, Bela Vista, e contará com a presença de várias personalidades do samba, como a Embaixada do Samba Paulistano, Tias Baianas, representantes da Anhembi Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo, presidentes das escolas de samba e blocos carnavalescos filiados à entidade e a Corte do Carnaval 2004.

(Claudia Alexandre e Cristiane Molina)

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