Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 59 - 26/7/2004

Brasileirinho, espaço plural

O artigo Cadê o Samba que Tava Aqui?, do compositor gaúcho Felipe Azevedo, que colocamos no ar nesta semana, defende a origem africana do samba. Eu estou convicto da procedência indígena do ritmo, após ter lido A Pré-História do Samba, de Bernardo Alves. Acima disso, porém, creio que minha função como editor de um site jornalístico dedicado ao samba é dar espaço às mais variadas opiniões sobre o assunto. Basta que elas sejam coerentes e bem fundamentadas - como o artigo de Felipe.

Aliás, falando em pluralidade, o referido artigo consta da edição nº 12 (junho de 2004) do jornal Vaia, de Porto Alegre, e inaugura no Brasileirinho o intercâmbio com o veículo impresso que já resultou na publicação do Mistura e Manda nesse mesmo nº 12. Desta forma, mais pessoas podem ter acesso aos textos do jornal, através do site, e o conteúdo do site pode chegar a leitores desconectados por meio do jornal - o tipo de relação que eu chamo boa pra todo mundo.

(Fabio Gomes)

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Adriana Deffenti de repertório novo

O foyer do Theatro São Pedro (Porto Alegre) lotou de gente ansiosa para assistir o espetáculo da cantora Adriana Deffenti com o pianista Michel Dorfman, na sexta, 23. A ansiedade era plenamente justificada (Adriana estava estreando um novo repertório) e foi completamente recompensada (a dupla estava numa tarde inspiradíssima).

Adriana é uma artista em permanente evolução. Sempre afinadíssima, ela demonstra um completo domínio do volume de sua voz - se é certo que ela tem uma grande extensão vocal, mais certo é saber quando é legal usar esse recurso ou não. Esse domínio, aliado ao emprego de gestos e expressões faciais reforçando o clima da letra interpretada, faz com que seja uma delícia ouvi-la cantar "Aonde Você For" (Chico Saraiva - Fausto Nilo), "Um Beijo Meu" (Herbert Vianna) e o clássico do Boca Livre, "Toada" (Zé Renato - Claudio Nucci - Juca Filho) - para mim o grande momento do fim de tarde. Ela declamou ainda o início da letra de "Pequeno Circo Íntimo" (Ivan Lins - Aldir Blanc) e tocou flauta em "Tem Tainha" (Raul Ellwanger) e "He Loves and She Loves" (dos irmãos George & Ira Gershwin). No solo de "He Loves...", aliás, Adriana citou discretamente na flauta "Perfidia" (Alberto Dominguez), que retornou assumidamente no "shá-lá-lá" ao final da música. Os recursos de interpretação só deixaram a desejar em "Iracema Voou" (Chico Buarque), em que a simpatia pela personagem que a gravação de Chico transpira foi substituída por um sentimento de pena na versão de Adriana.

A cantora surpreendeu ainda ao revelar um sotaque portenho na interpretação de duas músicas de Fito Paez, "Tres Agujas" e "Tengo una Muñeca que Regala Besos" (houve outro "momento sotaque", desta vez lisboeta, durante a apresentação de "O Recado Delas", de Maria João e Mário Laginha). No bis, Dorfman sugeriu e Adriana topou: brindaram a platéia com "Chovendo na Roseira" (Tom Jobim).

É importante o público estar atento a esse show da Deffenti, porque foi exatamente este o caminho seguido por ela com o repertório do CD Peças de Pessoas: apresentação do repertório no foyer do TSP em 15 de junho de 2001 e lançamento do CD no palco principal em 17 de dezembro de 2002.

(F. G.)

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Abertas inscrições para o Projeto Mutirão

Lidar com arte no Brasil não é fácil, isso todo mundo sabe. Mas o Teatro Plínio Marcos (São Paulo) não ficou só no conhecimento da dificuldade, buscou resolvê-la. Inaugurado em março de 2000 no Shopping Pompéia Nobre por Tanah Corrêa, Alexandre Borges, Julia Lemmertz e Orleyd Faya, o espaço vinha deixando de ser ocupado por muitos grupos devido ao custo do aluguel. Nasceu daí o Projeto Mutirão.

A idéia é muito simples: vários grupos dividem a pauta e o aluguel do espaço. De novembro de 2002 até hoje, já foram 10 edições do projeto (aliás, a 10ª está em andamento, até o final de agosto!), que levaram dezenas de apresentações de teatro, música e dança a mais de 12 mil espectadores. O Plínio Marcos é uma sala com 90 lugares e ar-condicionado. Cada grupo ocupa um dia fixo da semana durante um mês, tendo um custo por espetáculo de R$ 125,00 (total de R$ 500,00 no mês). O teatro garante ainda a assessoria de imprensa de Sonia Kessar para o espetáculo.

Os grupos interessados podem se inscrever até o dia 10 de agosto para a 11ª edição do projeto. É necessário encaminhar, para a coordenadora Orleyd Faya, via e-mail ([email protected]), um projeto e o currículo do grupo, além de uma solicitação de participação, contendo nome e contato do responsável pelo grupo junto ao projeto (RG; CPF; endereço e telefone); número da edição e dia da semana que pretende reservar; nome do espetáculo; autor; e direção.

(F. G.)

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Como ouvir o Samba da Minha Terra

Nossos leitores habituais já se acostumaram a ver toda semana nas Dicas os destaques do programa Samba da Minha Terra, da Rádio América de São Paulo. Lidos os destaques, pinta aquela dúvida: e quem não mora em São Paulo, fica sem poder ouvir o programa apresentado por Claudia Alexandre e produzido por Cristiane Molina?

De jeito nenhum! Várias emissoras em outros estados integram a Rede Paulus, que capta o sinal da América via satélite e o retransmite. Eis a relação:

(F. G.)

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Torquato Neto x Jorge Ben

O poeta e letrista Torquato Neto manteve uma coluna diária, intitulada Geléia Geral, no jornal Última Hora do Rio de Janeiro entre 19/8/1971 e 11/3/1972. Seu assunto favorito era a MPB, com abertura para cinema, artes plásticas, literatura e demais manifestações criativas. Diariamente, seus leitores sabiam, geralmente em primeira mão, de notícias de Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento, Roberto Carlos, Novos Baianos, Hélio Oiticica, Júlio Bressane e outros. Jorge Ben, vivendo um grande momento, com certeza deveria ser personagem freqüente da Geléia.

Deveria, mas não foi. Só no início. Numa das primeiras colunas, a 23 de agosto, Torquato noticiou a preparação de novo disco do autor de "País Tropical": "Está pronto o novo LP de Jorge Ben. Foi produzido por ele mesmo e a CBD [Companhia Brasileira de Discos, representante da Philips no Brasil] está preparando o lançamento com bastante badalação para setembro, lá pro fim do mês". Em seguida, apresentava a relação das músicas, que incluía "Rita Jipe" e duas parcerias de Jorge com Toquinho: "Que Maravilha" e "Cassius Marcelus Clay". Já a 13 de setembro, Torquato informava que o lançamento seria adiado para início de outubro.

Aparentemente, algo muito sério aconteceu em seguida, pois, poucos dias depois, o poeta caiu de pau na participação de Jorge no 6º Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Torquato, em 29 de setembro, referiu-se à aparição de Jorge como "inteiramente melancólica", "horrível", "pobreza total". A situação culminou com a nota seca de 9 de outubro. Leiam vocês mesmos:

"Já está nas lojas o disco novo de Jorge Ben - Negro é Lindo. Podes crer, criancinha: não é legal não."

Depois disso, Jorge jamais voltou a ser citado na Geléia Geral.

(F. G.)

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