Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 60 - 2/8/2004

Tiago medieval

O violonista Tiago Piccoli vem se dedicando a um repertório bem diferente do que costuma apresentar em seus recitais solo. Integrante da nova formação do Conjunto de Câmara de Porto Alegre, ele toca ao alaúde laude spirituali (preces espirituais, ou seja, músicas religiosas não-litúrgicas), compostas entre os séculos XIII e XIV em alemão, francês, latim e italiano. Tiago conseguiu transpor para o alaúde a apurada técnica com que trabalha o violão, principalmente a pureza do som obtido.

O Conjunto de Câmara estreou nesse sábado, 31 de julho, o espetáculo Os Sete Pecados (e Outros Mais...), no Teatro de Arena (Porto Alegre). A temporada segue até 15 de agosto, sempre aos sábados e domingos, às 20h. Um dos destaques da apresentação é a inclusão de poemas de Gregório de Mattos, o baiano que se celebrizou no século XVII como o Boca do Inferno, por sua constante sátira à devassidão dos costumes e à tirania portuguesa no Brasil.

O arranjo vocal do grupo para a lauda "Die Mynne Füget Nyemand" (do alemão Oswald von Wolkenstein, 1377-1445), é simplesmente primoroso.

(Fabio Gomes)

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As armas e os ratos indenizados

Chamou a atenção recentemente a notícia de que a Polícia Federal vinha recebendo armas de fabricação caseira, dentro da campanha de desarmamento remunerado da população. Este tipo de armamento teve sua compra suspensa pelo governo por dois motivos: 1º, não estava previsto no Estatuto do Desarmamento; 2º, suspeita-se que algumas pessoas poderiam estar fabricando armas às pressas para receber valores entre R$ 100 e R$ 300.

A se confirmar essa hipótese, teríamos a repetição, 100 anos depois, de um episódio que marcou a introdução da vacina no Brasil. O médico Oswaldo Cruz sabia que não bastava vacinar a população, era necessário combater os ratos que transmitiam as doenças. Para tanto, o governo começou a comprar ratos, a um tostão cada um, para evitar sua proliferação.

O fato originou a composição de uma polca, "Rato, Rato" (Casemiro Rocha - Claudino Costa), sucesso no carnaval de 1904, gravada por Orestes de Matos. Na última estrofe, o sujeito dizia ao rato: "Vou provar-te que sou mau/ Meu tostão é garantido/ Não te solto nem a pau." O marcante refrão da polca ("Rato, rato, rato/ Por que motivo tu roeste meu baú?/ Rato, rato, rato/ Audacioso e malfazejo gabiru...") inspirou outro sucesso de carnaval, "A RAF em Berlim" (Benedito Lacerda - Darci de Oliveira), lançado por Déo em 1944. Em sua letra, um chefe nazista cantaria o seguinte: "RAF, RAF, RAF/ Vê se tens compaixão de mim/ RAF, RAF, RAF/ Por que motivo destruíste meu Berlim?". RAF era a sigla da Força Aérea Britânica (em inglês, Royal Air Force).

Mas, voltando a 1904, a compra de ratos precisou ser suspensa porque começaram a aparecer alguns de papelão e cera, sem contar o caso de um morador de Niterói que despertou suspeitas ao pedir indenização por quase 90 mil ratos entregues. Descobriu-se que ele comprava roedores de várias cidades vizinhas, além de criar seus próprios em casa...

(F. G.)

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A passeata contra a guitarra

De todas as passeatas acontecidas nos anos rebeldes, a mais curiosa sem dúvida foi a que passou à História como a passeata contra as guitarras. O estranhíssimo fato se deu numa segunda-feira, 17 de julho de 1967, em São Paulo, indo do Largo de São Francisco ao Teatro Paramount (ou seja, algumas quadras da Av. Brigadeiro Luís Antônio).

O que teria feito a guitarra para que motivasse essa estranha marcha, certamente sem similar em qualquer cultura, mobilizando participantes do porte de Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré, MPB-4, Zé Kéti, Luiz Loy, Wilson Simonal e Gilberto Gil (logo ele, que a partir dos anos 70 se tornaria um de nossos maiores guitarristas)? A bem da verdade, Gil participou como gratidão pela força que Elis lhe dera no início da carreira - mas foi muito a contragosto, pois já então admirava The Beatles, aceitava o iê-iê-iê e não via sentido em manifestar-se contra um instrumento musical.

Essa mobilização que virou lenda como uma defesa da música brasileira contra a invasão estrangeira, ou mesmo um embate entre a MPB e a Jovem Guarda, não passou de um lance promocional de um novo programa que a TV Record lançava naquele julho, intitulado Frente Única - Noite da MPB. Houve várias reuniões com os artistas que participavam regularmente d'O Fino da Bossa, comandado por Elis e Jair, cuja audiência vinha caindo. O diretor da Record, Paulo Machado de Carvalho, teve a idéia salvadora: no mesmo dia e horário habituais do Fino, entraria o Frente Única, com apresentadores alternando-se a cada semana: Gil; Simonal; Vandré; Elis e Jair. A idéia da passeata também teria sido de Machado de Carvalho, conforme é narrado em Jovem Guarda - Em Ritmo de Aventura (Ed. 34, 2000). O autor deste livro, Marcelo Fróes, revela ainda que os manifestantes cantaram, acompanhados pela banda da Força Pública de São Paulo, "A Banda" - embora seu autor, Chico Buarque, tenha participado de poucos minutos da marcha, saindo à francesa (ou, segundo outros relatos, assistido a tudo da janela do Paramount). Roberto Carlos limitou-se a espiar a passeata de dentro do carro. Talvez o Rei tenha pressentido o que Caetano Veloso escreveria algumas semanas depois na Última Hora de São Paulo: "Penso até que, se no meio daquela psicose toda aparecessem a Wanderléa ou Erasmo Carlos, seriam mesmo massacrados", arrematando com a definição da passeata como "ridícula" e lembrando o Estado Novo.

Caetano, naturalmente, não tomou parte na manifestação. Já informara a Gil que era contra a passeata, principalmente depois que Nara Leão, numa das reuniões, afirmou que não via nenhuma disputa ideológica, e sim meramente uma questão comercial. Nara e Caetano é que acompanharam a passeata de uma janela - no caso, a do apartamento do empresário Guilherme Araújo no Hotel Danúbio - e espantaram-se com o que viram. De acordo com Carlos Calado em Tropicália - A História de uma Revolução Musical (Ed. 34, 1997), o baiano comentou:

- Nara, eu acho isso muito esquisito...

- Esquisito, Caetano? Isso aí é um horror! Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo mesmo!

Fróes acrescenta que, logo após a passeata, o Frente Única foi lançado no Paramount através de um show que contou com as participações de Vandré, Ataulfo Alves, Juca Chaves, Zimbo Trio, Caçulinha e a orquestra de Ciro Pereira. Nara também estaria presente, mas penso ser pouco provável (a não ser que ela tenha mudado rapidamente de idéia e se tornado integralista também...). De qualquer forma, o Frente Única não emplacou, durando apenas 9 semanas, saindo no ar no início de setembro de 1967 - quando iniciou a disputa do III Festival da Música Popular Brasileira, que consagrou a Tropicália, mostrando que combater a guitarra não tava com nada!

(F. G.)

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