Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 75 - 15/11/2004

Seminário "Samba Belô" discute potencial turístico do Carnaval

A Belotur realiza nos dias 19 e 20, no Laces JK (Rua Caetés, 603, Centro, Belo Horizonte). o 2º Seminário Samba Belô, para capacitar escolas de samba, blocos carnavalescos e outras agremiações que participam do Carnaval da capital mineira para buscar independência financeira e administrativa. Também será debatida a potencialidade turística que o Carnaval pode desenvolver na cidade.

Outros objetivos são contribuir para a democratização do conhecimento dos integrantes das agremiações carnavalescas sobre elaboração, confecção e realização de eventos relacionados ao Carnaval, facilitar a profissionalização do Carnaval de Belo Horizonte, proporcionando o aprimoramento da qualidade dos desfiles e promover a cidade por meio de uma festa popular bem estruturada e realizada com profissionalismo, para aumentar o fluxo turístico à capital mineira e gerando emprego e postos de trabalho.

O seminário inicia sexta, 19, com o credenciamento (18h). À abertura, a cargo do presidente da Belotur, Tadeu Martins (19h), segue-se a palestra de Carlos Felipe Horta, jornalista e pesquisador, do Convention & Visictors Bureau de Belo Horizonte (20h), falando da visão turística do Carnaval.

Já no sábado, 20, às 8h30min, Selminha Sorriso, porta-bandeira da Escola de Samba Beija-Flor, fala sobre o papel do mestre-sala e porta-bandeira. Às 10h30min, Janine Rabelo, professora da UFMG, aborda a captação de recursos para as entidades carnavalescas. No encerramento das atividades do seminário, às 16h, será inaugurada a "Rua do Samba", entre as ruas dos Guaicurus e da Bahia, com a presença da Corte Real Momesca do Rio de Janeiro.

As inscrições são gratuitas e estão abertas até o dia 19 a representantes de todas as agremiações carnavalescas de Belo Horizonte. Os interessados devem procurar o Departamento de Eventos da Belotur (Rua Aimorés 981, 5º andar), das 9 às 17h. Informações: 31-3277-9719, com Celeste Gontijo.

(Fabio Gomes)

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60 anos de Torquato Neto

Agradeço ao poeta piauiense Fred Maia por ter me lembrado que na terça, 9, o poeta e letrista Torquato Neto (1944-72) teria completado 60 anos. Nascido em Teresina (PI), Torquato morou pouco tempo no Piauí, pois aos 15 anos foi expulso do colégio em função de atividades políticas. Os pais o colocaram num internato em Salvador, onde ficou até 1963, quando seguiu para o Rio de Janeiro, pretendendo cursar Jornalismo.

Desde a época de escola já escrevia poemas. O contato, na Bahia e depois no Rio, com Caetano Veloso e Gilberto Gil levou-o a fazer as primeiras letras de música. A parceria com Gil decolou quando, em 1966, Torquato passou algumas semanas na casa do atual ministro em São Paulo. Dessa temporada, saiu "Louvação", que Elis Regina e Jair Rodrigues gravaram no LP Dois na Bossa nº 2 e que a Rede Record transformou em sucesso por causa de... um incêndio. Esta era a música que estava sendo tocada na Rádio Jovem Pan quando a programação foi interrompida para noticiar que o prédio-sede da rede estava pegando fogo. Nos dias seguintes, sempre que se conseguia colocar alguma das emissoras no ar, só se tocava "Louvação", o que ajudou muito a projetar Gil.

Depois de compor com outros parceiros, como Edu Lobo (com quem fez "pra Dizer Adeus"), Torquato foi figura de destaque no movimento tropicalista, do qual redigiu o manifesto, além de compor pérolas como "Geléia Geral" (com Gil, citando Décio Pignatari e Oswald de Andrade). Também se destacou por buscar manter vivos os ideais que nortearam a Tropicália, mesmo depois da prisão e do exílio de Caetano e Gil. Este era um dos motes de sua coluna Geléia Geral, que manteve no jornal carioca Última Hora entre 1971 e 1972, relatando o dia-a-dia de uma das fases mais criativas da música brasileira. Ali ele também defendia a contracultura, o cinema marginal, o rock, a vanguarda nas artes plásticas - enfim, toda atitude em arte que pretendesse fugir dos padrões academicistas. Entre seus alvos preferidos de críticas, estavam as gravadoras e os festivais de música popular das TVs - principalmente o FIC, da TV Globo. O poeta lembrava constantemente, por exemplo, que as músicas premiadas no FIC só tocavam em rádios do Sistema Globo...

Nos últimos anos, compunha menos e enfrentava a depressão, que o levou a se internar nove vezes em clínicas, tanto no Rio como em Teresina. Isto o levou ao suicídio, em 10 de novembro de 1972, um dia após completar 28 anos. Seu único livro, Os Últimos Dias de Paupéria, foi organizado em 1973 pelo poeta Waly Salomão e pela viúva, Ana Maria Silva de Araújo Duarte. Nova edição, incluindo letras de música e as colunas da Última Hora, foi lançada em 1982.

Provavelmente o maior sucesso assinado por Torquato seja uma parceria póstuma: "Go Back". O titã Sérgio Brito musicou este poema que deu nome ao LP ao vivo que os Titãs gravaram em 1988. Os Paralamas do Sucesso cantavam esta música em seus shows em 1992, além de gravar uma versão em espanhol assinada por Martin Cardoso e incluída como faixa-bônus na edição brasileira do CD Severino (1994). Herbert Vianna acrescentou nesta gravação a declamação de outro poema de Torquato: Andarandei.

(F. G.)

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Reciclagem musical (5): Jorge Benjor

Jorge Benjor com certeza é o rei da reciclagem musical. Isto é uma conseqüência direta de sua extrema liberdade ao compor (a ponto de um de seus raros parceiros, Toquinho, chegar a declarar que preferia ter estudado menos para poder escrever como Jorge!). A liberdade se estende ao tocar também: os músicos que o acompanham dizem que ele jamais repete a forma de tocar uma música. Ao gravar, então, é radical: se não gosta do resultado de um take, no próximo Jorge muda tudo.

Quando estava escrevendo a letra de "W/Brasil", que ele considera sua melhor música, Jorge se empolgou tanto que fez uma letra quilométrica, selecionando apenas parte dela para a gravação no LP Jorge Ben Jor Ao Vivo no Rio (1990). Com o restante, estruturou a letra de "Engenho de Dentro", para o disco seguinte, 23 (1993). Duvidam? Então escutem "Engenho de Dentro" e reparem nas referências ao publicitário Washington Olivetto ("A cabeça do Olivetto é igual a uma cabeça de negro, muito QI e TNT do lado esquerdo") e Tim Maia ("Tudo é tudo, nada é nada, assim filosofou Dom Maia") - os dois também são "personagens" de "W/Brasil", Olivetto pela menção ao nome de sua agência, enquanto Tim é o síndico do Brasil.

Parte da letra de "Pega Ela de Montão", do LP Benjor (1989), reaparece em "Mulheres no Volante", de 23: "Todo homem tem direito a uma casa confortável para sua despreocupada velhice..." Aliás, "Mulheres no Volante" é um espanto: sobre uma base de dance music com metais suingantes, Jorge canta uma letra em que mistura a citação de "Pega Ela..." com brincadeiras sobre o mito de que as mulheres não dirigiriam bem e frases que já contêm uma idéia percussiva ("Maximiliano toca guitarra e caça plutônio"), concluindo com imitação de narração de futebol por um locutor português.

Os exemplos acima pretendem dar ao menos uma pálida idéia do efervescente processo de criação do autor de "País Tropical". Aliás, que artista ousaria, como ele, incluir numa gravação ao vivo de um clássico de seu repertório uma música completamente desconhecida, como ele fez ao promover uma junção de "País Tropical" com "Spyro Gyro" no LP ao vivo de 1990? A canção, rebatizada "Spirogyra Story", só receberia gravação de estúdio em 1993, voltando a se chamar "Spyro Gyro" no CD Acústico MTV (2002).

(F. G.)

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