Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 84 - 17/1/2005

Vander Lee contra a mosca

O mineiro Vander Lee dificilmente esquecerá seu primeiro show em Porto Alegre (Santander Cultural, na quarta, 12). Pra começo de conversa, pela qualidade musical: acompanhado de seu violão, o cantor-compositor promoveu um desfile de canções românticas ("Quem me Dirá" e "Românticos" - nesta subiu dois tons durante a execução) e sambas muito bem-humorados, boa parte deles envolvendo casais em conflito, casos de "Piti", "Neném" e, principalmente, "Galo e Cruzeiro". Neste, a briga descrita na letra é motivada pela paixão futebolística: o marido torce pelo Atlético Mineiro e a esposa, pelo Cruzeiro. Outro ponto alto da apresentação foi o clássico samba-de-breque "Orora Arnafabeta" (Gordurinha - Nascimento Gomes), do repertório de Jorge Veiga.

Mas o que tornou o show inesquecível foi a luta de Vander com uma mosca que insistia em pousar na sua cabeça quando ele cantava um de seus sucessos, gravado por Gal Costa: "Onde Deus Possa me Ouvir". Os versos "Me deixe aqui, pode sair/ Adeus" ganharam um novo significado...

Vander acabou interrompendo a música até se livrar da mosca; tentou retomar a canção, mas só chegou a tocá-la por inteiro no bis.

(Fabio Gomes)

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Raízes

"Hoje em dia é fácil dizer, essa música é nossa raiz. Tá chovendo de gente que fala de samba e não sabe o que diz".

Vira e mexe surgem grupos que dizem defender as raízes, sem ao menos saber o real significado da palavra. Raízes, dentro do samba, são todos aqueles que lutam com respeito pela sua manutenção. Enquanto morrem velhas raízes, novas raízes as substituem, sem prejuízo da planta.

Raízes podres são aquelas que usam o samba apenas como forma de estar na mídia, que na maioria das vezes nos trata como massa de manobra, sem respeito algum pelas nossas tradições. Também são raízes podres esses grupos que fazem do samba apenas uma forma de ganhar dinheiro. Pra quem sabe, bater pandeiro é coisa fácil, difícil é bater pandeiro com dignidade e respeito ao samba. Da Bahia ao Rio de Janeiro (casa da Tia Ciata ou Asseata) até os dias de hoje, as raízes se renovam. Pixinguinha, Paulo da Portela, Cartola, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, e Zeca Pagodinho são provas dessa renovação. Se Pixinguinha se eternizou, muita gente da geração do Zeca Pagodinho também se eternizará.

Obrigado, meu Deus, pela honra e a glória de ter nascido sambista.

(Mestre Affonso)

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Reciclagem musical (6): Paralamas de novo

Lembram daquele famoso acorde que interrompia a placidez do solo de "Impressão", d'Os Paralamas do Sucesso, que comentamos aqui na nota Reciclagem musical (4): Paralamas, no Mistura e Manda nº 74? Pois ele voltou a aparecer na introdução de "O Rio Severino" (Herbert Vianna), no LP Severino (1994), e, de forma mais aguda, na gravação desta mesma música no CD ao vivo Vamo Batê Lata (1995). Gravação, aliás, que se notabiliza pela longa e bela introdução entremeada de referências a temas populares nordestinos.

A letra de "O Rio Severino" está envolvida em outra reciclagem dos Paralamas. Herbert declamou parte dela numa introdução falada a "Lanterna dos Afogados", num show que a MTV apresentou em 1995.

(F. G.)

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