Misture e Mande

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Mistura e Manda

Nº 85 - 24/1/2005

Bezerra da Silva, uma voz do morro

O mundo passou a ser um lugar mais triste desde a manhã da segunda, 17, quando faleceu o sambista José Bezerra da Silva. Bezerra era o legítimo intérprete dos compositores do morro do Rio de Janeiro, cantando seus sambas que relatavam a visão de mundo e a situação do morador da favela, destacando-se os que contavam histórias sobre conflitos do favelado com a justiça e disputas dentro do próprio morro entre malandros e manés.

(Fabio Gomes)

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Do Recife aos anos difíceis no Rio

Não há muita certeza quanto a datas de vários fatos importantes de sua vida. Nascido em 1927 em Recife (PE) - em 23 de fevereiro, segundo o pai, ou a 9 de março, de acordo com a mãe -, cedo mostrou inclinação para a música, o que desagradava sua família. Chegou a aprender a tocar trombone escondido. Em busca de mais liberdade, fugiu de casa no fim da adolescência - em vários depoimentos, Bezerra disse que isso foi aos 15 anos, mas o mais provável é que fosse com 18 anos, em 1945-46, pois ele buscava se alistar na Marinha Mercante, como seu pai, que vivia então no Rio de Janeiro. Não sendo aceito pelo pai, tornou-se pedreiro e foi morar no morro do Cantagalo. Ali conheceu o compositor Alcides Fernandes, que o levou em 1950 à Rádio Clube do Brasil, onde atuou como ritmista.

Bezerra tocava na rádio de novembro a fevereiro, acompanhando os cantores que interpretavam ao vivo os sucessos de Carnaval. No resto do ano, voltava à construção civil. Em 1954, porém, algo aconteceu que o levou a, num curto espaço de tempo, a perder os dois empregos e ser rejeitado pela família de sua irmã, que viera morar em Niterói. Bezerra declara ter passado os três anos seguintes como mendigo, vivendo na rua, tentando até pôr fim à vida. Em 1957, uma das poucas pessoas que ainda falavam com ele no Cantagalo, uma senhora chamada Paula, o encaminhou a um terreiro de candomblé onde ele ficou morando por quatro anos até que, cumpridas suas obrigações rituais, foi aconselhado a não mais trabalhar na construção civil e se dedicar por inteiro à música. Bezerra freqüentou o candomblé até 2002, quando se tornou evangélico.

(F. G.)

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O compositor

A partir de 1961, Bezerra retoma suas atividades musicais como ritmista free-lancer e depois contratado da gravadora Copacabana. Tocava todos os instrumentos de percussão e dedicou-se ao estudo de violão (mais tarde, já no fim da vida, chegou a estudar piano). Também começou a compor. Sua primeira música gravada foi um samba, "Nunca Mais Sambo", que Marlene lançou em 1965. Mas ele logo preferiu compor coco (um ritmo pernambucano, irmão do samba, mas bem menos conhecido), conseguindo gravar dois com seu ídolo Jackson do Pandeiro: "O Preguiçoso" e "Meu Veneno". Compôs pouco, porém, e os sambas de sua autoria são raridade. Bezerra justificava-se dizendo que "não tinha jeito" para compor samba. Sua biógrafa, a antropóloga Letícia Vianna (autora de Bezerra da Silva, Produto do Morro, Jorge Zahar Editor, 1999), acredita que, ao não assinar sambas em que possivelmente tivesse contribuído com letra, melodia ou sugestões, Bezerra reforçava sua legitimidade como porta-voz dos compositores do morro. Letícia cita como exemplo o samba "O Preço da Glória" (Caboré - Pinga - Jorge Portela, 1983), que fala de alguém que saiu do Nordeste, sofreu muito, morou na rua, foi preso várias vezes, nunca se revoltou e morava no Cantagalo... Quem será, hein?

(F. G.)

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O cantor

Em 1969, Bezerra conseguiu gravar como cantor dois cocos num compacto da Copacabana: "Mana, cadê meu Boi" e "A Viola é Testemunha". Em seu primeiro LP, lançado em 1975 pela Tapecar, ele era apontado como O Rei do Coco, imagem reforçada pelo disco O Rei do Coco Vol. 2, do ano seguinte. Só em 1978 é que, já em novo selo, a CID, ele começa a gravar partido-alto. Mesmo assim, a gravadora impôs ao disco o nome Genaro e Bezerra da Silva - Partido Alto Nota 10, apostando mais no líder do grupo que acompanhava o cantor, o Nosso Samba, do que em Bezerra. Mas já no ano seguinte saía só o nome dele: Bezerra da Silva - Partido Alto Nota 10 - Vol. 2. Assim foi até seu último disco, Meu Bom Juiz (CID, 2003).

Curiosa essa demora no encontro entre Bezerra do Silva e o samba de partido-alto. Ouvindo qualquer gravação dele, você diz que eles foram feitos um para o outro. Bezerra é um cantor irrepreensível, além de rechear a gravação com frases faladas cheias de malandragem. Em geral, no espaço dedicado ao improviso no final que é marca do samba de partido-alto, Bezerra limitava-se a repetir trechos da letra, mas ele improvisou de verdade em pelo menos uma gravação, "Defunto Cagüete" (Adelzonilton - Franco Teixeira - Ubirajara Lúcio, 1984). Se só fosse possível destacar apenas um samba gravado por Bezerra, eu citaria "A Semente" (Walmir da Purificação - Tião Miranda - Roxinho - Felipão, 1987) - um partido-alto muito bem construído, inclusive com uma bela escala ascendente no trecho "Quando os federais grampearam e levaram o vizinho inocente...". E os instrumentistas que gravavam com ele eram de primeira água. Basta ouvir o cavaco que abre "Na Hora da Dura" (Beto Pernada - Simões PQD, 1987).

(F. G.)

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Bezerra & Moreira

Tanto em "A Semente" quanto em "Defunto Grampeado" (Evandro do Galo - Pedro Butina, 1986), a gravação é aberta com um diálogo entre Bezerra e outra(s) pessoa(s). "Defunto Grampeado", aliás, também tem sirenes e som de tiros. Desta forma, Bezerra dava ao samba de partido-alto uma cara de "radionovela", semelhante à encontrada em parte da produção de samba-de-breque de Moreira da Silva (1902-2000) nos anos 1960.

Muita gente confundia Bezerra e Moreira. É compreensível. Embora seus estilos de cantar fossem diferentes (Moreira fazendo o acompanhamento parar e conversando com o público, Bezerra numa linha mais tradicional), ambos se constituíram em cantores da malandragem - Moreira daquela malandragem "romântica", de pequenos golpes, que dominava os morros no começo do século XX, e Bezerra da malandragem atual, sem um pingo de "romantismo".

Os dois atuaram juntos algumas vezes. Bezerra tocou tumbadora num disco Odeon de Moreira nos anos 60. Durante algum tempo, circulou o boato de que gravariam um disco chamado Malandros da Silva. Mas eles foram cantar juntos mesmo numa faixa do LP Ataulfo Alves - Leva Meu Samba (Som Livre, 1989), em que Bezerra interpretava "Vestiu Saia Tá pra Mim" (Ataulfo - J. Batista) e Moreira, "Desaforo Eu não Carrego" (Ataulfo). Novo encontro aconteceu no CD Os Três Malandros in Concert (CID, 1995), em que, ao lado de Dicró, os dois cantavam sambas novos e clássicos numa idéia que buscava parodiar o encontro dos três tenores Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti, ocorrido no ano anterior. Para entrar no clima, os sambistas posaram para a capa do disco vestindo casaca nas escadas do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Pena que, quando Bezerra & Moreira puderam cantar juntos, a voz de Moreira já estivesse bastante comprometida pela idade. Imagino o que poderia ter sido um disco dos dois até por volta de 1986, no máximo.

(F. G.)

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Interface pop

Com seu samba e malandragem, não é que Bezerra virou ídolo de roqueiros também? Depois de sua participação num LP do RPM em 1988, cantando "O Teu Futuro Espelha essa Grandeza", o primeiro grupo a valorizar suas músicas foi o Barão Vermelho, regravando em 1996 a música "Malandragem, Dá um Tempo" (Adelzonilton - Popular P - Moacir Bombeiro). Depois disso ele foi convidado para regravar suas músicas pelas bandas O Rappa e Planet Hemp. Para retribuir, Bezerra convidou Marcelo D2 para uma participação na música "Garrafada do Norte" (Edson Show - Wilsinho Saravá - Roxinho) no álbum Meu Bom Juiz, em 2003.

(Sabrina La Roque)

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Malandro versus mané

Bezerra trazia para a sociedade temas e fatos que muitos preferem ignorar. Chegaram a denominá-lo cantor de bandido por relatar em seus sambas conflitos entre favelados e policiais. Fingiam não ver que, em vários sambas, como "Na Hora da Dura", o foco de Bezerra não é a marginalidade em si, e sim a falta de ética de alguém que, tendo sido preso e com medo de apanhar, entregou à polícia o nome de companheiros do morro (culpados ou não).

Para conseguir lidar com um cantor que insistia em dar voz aos humildes, parte da mídia passou a tratá-lo como um folclórico ou excêntrico, que viveria repetindo a frase "Malandro é malandro, mané é mané". É verdade que ele dizia isso mesmo, e até aproveitou a frase como título de seu CD de 2000, mas reduzir o valor de Bezerra a ter consagrado esta "máxima" é ridículo. Era inevitável: em toda entrevista sua vinha a pergunta sobre quem era malandro, quem era mané. Durante muito tempo, Bezerra apontou como manés os alcagüetas (ou seja, os delatores, como o medroso de "Na Hora da Dura"), enquanto os malandros seriam os que, trabalhando honestamente, conseguiam sobreviver. Era isso que ele dizia no filme Coruja (Márcia Derraik e Simplício Neto, 2001), que retratava os seus compositores.

Na última versão, porém, Bezerra mudou tudo. Leiam o que ele declarou em entrevista a Zé Mangini, Bia Sant'Anna e Ricardo Cruz na Revista da MTV nº 29 (setembro de 2003):

MTV - Essa máxima "malandro é malandro, mané é mané" quer dizer exatamente o quê?

Bezerra - Num programa de televisão me fizeram a mesma pergunta, e eu respondi: "Olha, eu não sei dizer para você realmente porque eu não entendo nada de malandro, eu não sei nem o que é isso, para que lado vai. Conheço o trabalho, esse negócio de malandro não sei o que é, honestamente". E eu não sabia e fui perguntar ao Neguinho da Beija-Flor, ele além de puxar samba é um compositor muito bom, porque o autor quando escreve sabe porque está escrevendo. (...) Perguntei ao Neguinho, e sabe o que ele me disse? "Bezerra, mané é o povo, somos nós, Bezerra, tu não se manca, não? Malandro são eles, Bezerra, que matam, roubam, pintam o diabo e fica tudo por isso mesmo, rapaz! Mané é o povo brasileiro". Tá vendo aí? (...) Não existe malandro pobre, malandro está tudo em Brasília! São os deputados, senadores, juízes. (...) Eles são os malandros, e nós os otários. Dei nota 10 pro Neguinho.

(F. G.)

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Bezerra, um Zumbi moderno

Na casa de Ephigênio Souto, um sambista da velha guarda de Belo Horizonte, bati longos papos com o Bezerra, que nada tinha de brincalhão. Sua fala era muito séria, imensa era sua responsabilidade com os sambistas que somente através dele apareceriam para a mídia. Bezerra da Silva era mensageiro do grito preso na garganta dos pobres e miseráveis, e, de uma certa forma, foi Zumbi dos tempos modernos. Nunca se curvou à mídia, jamais negociou seu projeto de ajudar compositores humildes.

Axé Bezerra, que Deus ilumine sua nova estrada.

(Mestre Affonso)

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