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Mistura e Manda

Nº 87 - 7/2/2005

Novidades no Brasileirinho

O encontro entre os Fóruns Regionais de Música de São Paulo e do Rio Grande do Sul, que comentamos no Mistura e Manda nº 86, já rendeu um fruto: a Carta Manifesto do Fórum Brasileiro de Música, que colocamos no ar na terça, 1.

(Fabio Gomes)

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Domingão do sambão

O Domingão do Faustão deste domingo, 6, foi simplesmente fantástico (não confundir com outro programa!). Foram mais de quatro horas de roda de samba com partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo desde o tempo que o Dondon jogava no Andaraí até os dias de hoje. Tudo ao vivo com especialistas no assunto: Martinho da Vila, Monarco, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Dudu Nobre, Teresa Cristina, Juliana Diniz e Toninho Geraes, luxuosamente acompanhados pelo Quinteto em Branco e Preto e por ritmistas do porte de Paulinho da Aba e Beloba, com Analimar e Ari Bispo nos vocais. Ajudando a selecionar o repertório, o ator-produtor-escritor Haroldo Costa. O apresentador Fausto Silva aproveitou a ocasião para entregar a Beth CDs de ouro e de platina por suas expressivas vendagens recentes. Detalhe: certamente foi um dos programas mais longos dedicados ao samba da história da TV brasileira (se alguém souber de algo parecido, me avise!).

Uma pálida idéia do que andou nas cabeças e nas bocas: "Vai Vadiar" (Monarco - Ratinho), Tom Maior (Martinho), "Aquarela Brasileira" (Silas de Oliveira), "Sonho Meu" (Dona Ivone Lara - Délcio Carvalho), "Kizomba, Festa da Raça" (Rodolpho - Jonas - Luiz Carlos da Vila), "Os Sertões" (Edeor de Paula), "Contos de Areia" (Dedé da Portela - Norival Reis), "O Mundo Melhor de Pixinguinha" (Jair Amorim - Evaldo Gouveia - Velha), "Tudo, Menos Amor" (Monarco - Walter Rosa)(em dose dupla), "É Hoje" (Didi - Mestrinho), "Bum Bum Paticumbum Prugurundum" (Beto sem Braço - Aloísio Machado), "O que é, o que é" (Gonzaguinha)... Difícil destacar um momento só, mas um bom candidato é aquele em que Fausto exaltou a presença do compositor Toninho Geraes. O mineiro teve a oportunidade (rara na TV atual) de cantar seu sucesso "Mulheres" ao lado do intérprete que consagrou a obra, Martinho.

(F. G.)

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Uma dúzia de autores

Os sambas-enredo com muitos autores têm sido regra nos últimos anos. Quatro parceiros assinando já é uma espécie de padrão atual do gênero. Neste Carnaval, entretanto, a Beija-Flor de Nilópolis certamente bateu todos os recordes: o samba "O Vento Corta as Terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete Povos na Fé e na Dor... Sete Missões de Amor", que narra a história dos Sete Povos das Missões (ambientada no Rio Grande do Sul do século 18) é assinado por J. C. Coelho, Ribeirinho, Adilson China, Serginho Sumaré, Domingos PS, R. Alves, Sidney de Pilares, Zequinha do Cavaco, Jorginho Moreira, Wanderlei Novidade, Walnei Rocha e Paulinho Rocha. Doze.

(F. G.)

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Porto da Pedra: o último (?) repeteco

Ano passado, quatro escolas do Rio de Janeiro desfilaram com sambas-enredo antigos (o que criticamos no Manifesto pelo Inédito). Mesmo contando com a empolgação adicional que a música já conhecida causou no público, nenhuma das quatro conseguiu ir além de um 4º lugar.

Este ano, só uma escola insistiu na tática: a Porto da Pedra abre a última noite de desfiles no Rio na segunda, 7, com "Festa Profana" (J. Brito - Bujão), com o qual a União da Ilha obteve o 3º lugar em 1989.

(F. G.)

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Caetanave

Mais de 50 anos depois de seu surgimento na Bahia, o trio elétrico continua saindo em cima de um caminhão (tá certo, pra que mexer em time que tá ganhando?). Uma das poucas vezes em que se inovou no formato do veículo foi em 1972, com a Caetanave. Segundo o Jornal do Brasil de sexta, 4, "o carro tinha forma de foguete espacial, alto-falantes em todos os lados e era cercado de lâmpadas coloridas".

Caetano Veloso, que naquele Carnaval de 1972 estava em Salvador, recém-chegado do exílio, encontrava-se na praça Castro Alves quando teve sua atenção voltada para aquele veículo de formato inusitado que vinha subindo a Ladeira da Montanha (o que não era o roteiro usual dos trios). Também o intrigou o fato do carro se aproximar em silêncio. Assim que o veículo chegou à praça, suas luzes foram acesas e o Trio Elétrico Tapajós revelou-se, passando a tocar "Chuva, Suor e Cerveja" - justamente o frevo que Caetano gravara em Londres no final do ano anterior e que já se tornara o grande sucesso da folia baiana. No mesmo momento, começou a chover forte. A chuva, que durou a noite toda, não diminuiu a animação dos foliões, que seguiram a Caetanave pela rua Chile. Já de madrugada, o Tapajós deixou a Sé e voltou à praça Castro Alves, onde Caetano subiu no caminhão para agradecer e, conforme conta em seu livro Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1996, pág. 466), "Embaixo, na rua, eu via pela primeira vez a multidão do Carnaval de uma distância que revelava sua força e seu mistério."

Com Caetano no caminhão, o Tapajós tocou "Atrás do Trio Elétrico" e voltou com "Chuva, Suor e Cerveja", indo até o Campo Grande, onde encerrou as atividades (o circuito dos trios não ia até Ondina na época). Caetano aproveitou para pedir uma carona até a casa que tinha alugado no Rio Vermelho - onde Gilberto Gil, acordado pelo som do gerador do caminhão, a princípio julgou tratar-se de alguma nave espacial...

A Caetanave foi incluída pelo poeta Torquato Neto em seu rol de atrações imperdíveis daquele Carnaval, em sua coluna Geléia Geral (Última Hora, Rio de Janeiro), de 24 de fevereiro de 1972:

"...quem não brincou esse carnval desenfreado, quem não pulou, atrás, na frente, ao lado dos trios elétricos, quem não confraternizou no meio da rua da Bahia com a grande loucura concentrada nas ruas da Bahia, quem não viu Caetano na Caetanave pelas três da madrugada - quem não foi lá pra tomar parte no que pintasse, no que pintou, quem não foi perdeu. E não está com nada, por enquanto. O carnaval da Bahia em 1972 foi a glória total."

O caminhão diferente se consagrou ao ser citado por Gil na letra de "Vamos Passear no Astral", composta naquele mesmo ano: "Vamos passear no astral/ Com o intelecto pirado/ Caetanaves do ano passado vão pintar/ Pra levar todo mundo pelo espaço/ Pra levar todo mundo pro planeta Carnaval". O próprio Gil gravou a música, lançada em compacto Philips no final de 1974.

O poeta Waly Salomão até pensou em batizar como Caetanave o livro em que reuniu alguns dos textos que Caetano publicou em O Pasquim durante o exílio. A obra, porém, foi lançada em 1978 pela editora Pedra Q Ronca, com o título de Alegria, Alegria.

(F. G.)

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Queda

Seria o samba alguma espécie de abismo, buraco, precipício ou pirambeira? Não, né? Então porque tem gente que insiste em usar a péssima expressão cair no samba???

(F. G.)

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