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Mistura e Manda

Nº 94 - 28/3/2005

Novidades no Brasileirinho

Esta semana entraram no ar dois textos, a saber: na terça, 22, um artigo do novo presidente do Clube do Choro de Florianópolis, João Randolfo Pontes, intitulado Tributo a Waldir Azevedo. Já na quarta, 23, publicamos Cinco Perguntas para Maurício Marques, uma entrevista com o violonista gaúcho selecionado no projeto Rumos Música Itaú Cultural. Destaco uma importante declaração de Maurício: "Parece que passei a existir depois do CD (Cordas ao Sul). Você estuda e toca anos a fio, grava com muitos, vai a todos os festivais mas você só existe se tiver um disco".

(Fabio Gomes)

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Semana Santa

A Semana Santa é dos poucos ciclos festivos do calendário anual que não tem uma trilha sonora específica, como o Carnaval, São João ou Natal. Contam-se nos dedos canções que a abordam, como "O Terço" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos), que Roberto gravou no auge de sua fase religiosa, em 1996: "Nos mistérios contemplo o nascer de Jesus/ E a alegria/ Na Paixão por amor preso à cruz/ Sua dor e agonia,/ Sua Ressurreição e aos céus a Ascenção/ No terceiro dia".

Já o dia de Aleluia aparece em "Perplexo" (Bi Ribeiro - João Barone - Herbert Vianna), que Os Paralamas do Sucesso gravaram em 1989: "Não penso mais no futuro/ É tudo imprevisível/ Posso morrer de vergonha/ Mas eu ainda estou vivo/ Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira/ Quinta-feira, sexta-feira, Sábado de Aleluia/ Eu vou lutar, eu vou lutar/ Eu sou Maguila, não sou Tyson."

Por que uma das festas mais importantes do Cristianismo teria inspirado tão pouco nossos compositores? Creio que isso aconteceu porque na década de 1930, quando se compunham as obras que deram início aos ciclos natalino e junino, no período de Quaresma se observava rigorosamente o recolhimento sugerido pela Igreja Católica. A partir do meio-dia da Quinta-Feira de Endoenças, as rádios substituíam a programação musical habitual por música erudita e os cinemas passavam filmes sobre a vida de Cristo.

(F. G.)

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Músicas de Páscoa

O clima de austero recolhimento influenciou o muito pouco que se compôs no Brasil especificamente para a Páscoa, na década de 1950. Basta dizer que não há nenhum samba ou marcha no repertório desse fugaz ciclo, no qual predominam as valsas.

Em 1953, Gilberto Alves gravou "Feliz Páscoa", de Irani de Oliveira e Ari Monteiro. Os mesmos autores lançaram no ano seguinte "O Disco da Páscoa", com Lolita Rios. Já em 1956 foi a vez de Carlos Gonzaga cantar "Salve a Páscoa" (Celso Aguiar - Raguinho - Constantino). A única destas músicas que não era valsa, a canção "Presente de Páscoa" (Lino Tedesco) foi interpretada pelos Demônios da Garoa num disco de 1958.

É bem possível que a música "Coelhinho da Páscoa", de Olga Bhering Pohlmann ("Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?/ Um ovo, dois ovos, três ovos assim!") seja dessa época, pois foi incluída no livro Música na Escola Primária, editado pelo Ministério da Educação e Cultura em 1962.

(F. G.)

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Traço em obras

O Espaço Cultural Traço de União (São Paulo) está fechado desde o domingo, 20, devido a obras que vão qualificar um das mais destacadas casas de samba do momento. O Sambão reabre na quinta, 31, com a Banda Traço de União acompanhando Aldo Bueno e Deise do Banjo. O Traço está disponível para eventos fechados às sextas, que podem ser agendados pelo telefone 11-3031-8065.

(F. G.)

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Mestre Marçal

Nilton Delfino Marçal, o Mestre Marçal, foi um dos grandes amigos que tive. Quando vinha a Belo Horizonte, depois dos shows nossos papos varavam a madrugada, falávamos do samba e da vida. Meu Mestre era homem de pouca leitura, mas de extrema inteligência. Sua fala era firme, mas seus sonhos o traíam, principalmente quando falava da sua amada Portela, onde foi por 20 anos diretor de bateria. Elegante, brincalhão, bravo e terno, Marçal era a mistura de um homem de muita experiência.

Nosso último encontro se deu na cidade de Viçosa (MG), quando fizemos uma palestra na Universidade Federal. Ele falou sobre o samba do Rio de Janeiro e eu sobre o samba de Belo Horizonte. Passamos três dias juntos, eu, ele, e meu filho Afonso Henrique, numa casa cedida pela Prefeitura. Nesses três dias conheci melhor uma das mais importantes pessoas que já passaram pela minha vida. Na despedida, na Rodoviária, Marçal ajeitou suas coisas, desceu do ônibus, deu-me um beijo no rosto e disse: “Afonso, você é meu amigo, te considero muito. Passe uns dias com sua mulher lá em casa”. Um mês depois morria Marçal, morria um pedaço de mim.

Pena que neste país alguns grandes nomes sejam desvalorizados pela mídia e esquecidos por seus pares. Estou contando isso porque hoje estou ouvindo o Mestre Marçal, em três CDs que mandei copiar de LPs antigos. Sua voz está invadindo meu ser, suas palavras soam em meus ouvidos, uma imensa saudade se apossou de mim. Um beijo, Marçal, onde você estiver.

(Mestre Affonso)

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