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Braguinha ou João de Barro?

Um dos mais antigos compositores em atividade no Brasil é um caso curioso de duplicidade de nome - mas não por vontade própria. Carlos Alberto Ferreira Braga integrava, junto com amigos seus de Vila Isabel (Rio de Janeiro), um grupo amador, Flor do Tempo, que se apresentava em saraus em casas de família. Várias gravadoras multinacionais se estabeleciam no Brasil na época, por isso em 1929, parte do grupo resolveu se profissionalizar, adotando o nome de Bando de Tangarás. Foi estabelecido que cada um dos integrantes usaria um nome de pássaro como pseudônimo artístico. Alguns já tinham apelidos - Henrique Foreis Domingues era Almirante, Henrique Brito atendia por Violão e Álvaro Miranda se apresentava como Alvinho; já o outro integrante nunca teve e nunca quis apelidos - sempre quis ser apenas Noel Rosa (é incorreto afirmar que, na escola, Noel fosse ridicularizado com a alcunha de Queixinho). Desta forma, o único que seguiu o combinado foi Carlos Alberto, que desde então passou a assinar João de Barro. O principal motivo é que, sendo seu pai um importante empresário, ele preferia resguardar o nome da família, como era hábito.

Compositor fecundo, que teve músicas em carnaval por mais de 40 anos, João de Barro é autor de clássicos tais como "Carinhoso" (com Pixinguinha), "Copacabana" (com Alberto Ribeiro), "Pastorinhas" (com Noel Rosa) e "Linda Lourinha" (só dele), além de dirigir, na década de 1950, a mais importante gravadora nacional da época, a Continental.

Como Carlos Alberto sempre usou o nome artístico que combinou com seus amigos Tangarás há mais de 70 anos, desconheço o motivo pelo qual a imprensa passou a se referir a ele como Braguinha, seu apelido de família, gerando uma confusão para quem se interessa pela música brasileira, que pode imaginar se tratarem de duas pessoas. Seria o mesmo que, de uma hora pra outra, os jornais passarem a se referir a Roberto Carlos como Zunguinha, ao ministro Gilberto Gil como Beto, a Jorge Benjor, Babulina, a Gal Costa, Gracinha, a Antônio Carlos Jobim, Tom-tom ou a Heitor Villa-Lobos, Tuhú.

(Fabio Gomes - 8/12/2003)


Collector's lança em CD programa sobre Noel Rosa

Entre 6 de abril e 31 de agosto de 1951, Almirante produziu e apresentou na Rádio Tupi (Rio de Janeiro) um programa contando a vida de seu amigo e parceiro Noel Rosa. No Tempo de Noel Rosa teve a participação de parceiros e amigos do Poeta da Vila, que contaram passagens até então pouco conhecidas de sua vida, além de cantar seus grandes sucessos e mesmo músicas que ainda não haviam sido gravadas - e para isso Almirante contava com o auxílio luxuoso do elenco musical da Tupi, um dos melhores do Brasil à época. O programa, depois ampliado em novas séries, foi a base do livro que Almirante publicou em 1963, com segunda edição em 1977, também intitulado No Tempo de Noel Rosa.

Esses 22 programas foram digitalizados e lançados num CD de arquivos MP3 pela Collector's. Entre os destaques, Hélio Rosa, tocando violão ao estilo de seu irmão Noel, acompanha Aracy de Almeida ao vivo; Almirante declama os versos da embolada "Chuva de Vento", última composição de Noel, cuja melodia se perdeu; e Wilson Batista fala da polêmica que Noel começou ao escrever "Rapaz Folgado" como resposta a "Lenço no Pescoço" (polêmica esta, aliás, que não repercutiu muito na época em que ocorreu, entre os anos de 1933 e 1936, e só ficou mais conhecida a partir deste programa). A descrição detalhada dos programas está disponível no link http://www.collectors.com.br/CS05/cs05_02af.shtml; o CD que comentamos reúne todo o material que a própria Collector's havia lançado anteriormente em 11 fitas cassete.

Cada CD custa R$ 440,00, mais o custo de envio (R$ 13,00, até 3 unidades; e R$ 0,90 por unidade adicional. Por exemplo: na compra de 6 unidades, você pagaria R$ 455,70). Se você preferir o envio por Sedex, informe isso em e-mail para [email protected], acrescentando seu CEP correto.

Para adquirir o CD, efetue o depósito do valor que corresponde ao seu pedido na conta da Collector's Studios de Restauração de Áudios Ltda. (CNPJ 05.825.082/0001-27) no Bradesco (agência nº 2801-0 - conta corrente nº 6812-8), enviando cópia do comprovante por fax para 21-3643-6700, contendo as seguintes informações: seu nome e endereço completos para a remessa bem como telefone e e-mail para contato, e a referência: "22 programas NO TEMPO DE NOEL ROSA no formato MP3". A cópia do comprovante, escaneada, pode ser enviada também para o e-mail [email protected], acompanhado igualmente de seu nome, endereço e contatos, mais a referência do programa. O prazo para envio é de até 5 dias úteis a partir do depósito.

(Fabio Gomes -22/5/2008)


Músicas juninas

As músicas cantadas nas festas juninas de Norte a Sul do Brasil são, quase todas, marchas compostas na década de 1930 - com a notável exceção do repertório composto e/ou gravado por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, dos anos 40 e 50 e predominante no Nordeste (ver filme Viva São João, de Andrucha Waddington). A partir de 1933, as gravadoras identificaram neste ciclo de festas populares o que hoje seria chamado de "nicho de mercado". O grande sucesso desse ano foi "Chegou a Hora da Fogueira" (Lamartine Babo), que Carmen Miranda e Mário Reis gravaram na Victor com grande arranjo de Pixinguinha. Carmen e Mário repetiram a fórmula no ano seguinte, com "Isto é Lá com Santo Antônio!" (Lamartine Babo). Já o sucesso junino de 1935 coube a Carmen: "Sonho de Papel" (Alberto Ribeiro, 1935) ("O balão vai subindo/ Vem caindo a garoa..."). A irmã de Carmen, Aurora, estreou gravando com Francisco Alves em "Cai, Cai Balão!" (Assis Valente, 1933). O Rei da Voz chegou a lançar DOIS discos juninos em 1935. Já no ano seguinte, Chico Alves só registrou uma música junina, "Pula a Fogueira" (Getúlio Marinho - João Bastos Filho). A fogueira do gênero estava apagando. Aliás, é sintomático que o disco de Orlando Silva com "História Joanina" (sic) (Leonel Azevedo - J. Cascata) tenha saído somente em julho de 1936. Já não era uma música para cantar pisando nas brasas, e sim tendo a festa de São João como cenário. E é dessa forma que, as festas juninas ainda continuaram a aparecer no repertório urbano - por exemplo, o amor de Noel Rosa e Ceci nasceu, como bem diz o samba "Último Desejo", de 1937, numa festa de São João; já Lupicínio Rodrigues culpa o santo por não conseguir seu amor fazendo uma simpatia em "Pra São João Decidir", de 1952 (parceria com Francisco Alves).

Não sei exatamente por que os compositores pararam de fazer músicas juninas. O mais provável é que as gravadoras tenham se desinteressado do negócio, pois era um produto que só vendia no início de junho (geralmente estas músicas eram gravadas no final do mês anterior! - "Cai, Cai Balão" foi registrada em 22 de maio...).

(Fabio Gomes -23/6/2003)


Natais de Noel Rosa

Dois estudiosos da vida de Noel, os autores de Noel Rosa, uma Biografia, João Máximo e Carlos Didier, consideram o desinteresse do compositor pela comemoração do Natal uma ironia com seu próprio nome. Mas era a realidade: todo ano sua mãe, Marta, armava árvore e presépio no chalé da família em Vila Isabel e Noel nem aí. Dizia, para justificar-se:

- Para que esperar um ano para se dar presente a quem se gosta?

Foi pela época do Natal de 1935 que Noel soube que seria papai. Sua esposa, Lindaura, esperava um filho. Poucos meses depois, porém, ela perdeu a criança, ao cair da goiabeira do quintal do chalé.

(Fabio Gomes - 20/12/2004)


Noel cantou o horário de verão

O horário de verão deste ano começou na terça, 2. O governo o vem adotando anualmente desde 1985. Protestam uns, alegam desconforto biológico uns outros, outros uns apontam a pouca economia resultante etc., mas a tradição é mantida.

O que ninguém mais tem feito é cantá-lo. Em 1931, quando pela primeira vez o Brasil recorreu ao horário de verão, Noel Rosa compôs e gravou dois sambas ironizando o fato. Destinadas ao carnaval de 1932, as composições não chegaram a ser sucesso.

Um dos sambas, "Pulo da Hora", também ficou conhecido pelo seu primeiro verso: "Que Horas São?". Já o outro, intitulado "Por Causa da Hora", era identificado no selo do disco como "samba do horário". Se sua última estrofe era francamente gozadora ("Eu que sempre dormi durante o dia/ Ganhei mais uma hora pra descanso/ Agradeço ao avanço/ De uma hora no ponteiro./ Viva o dia brasileiro!"), dois versos do refrão remetiam ao surrealismo que a mudança de horário poderia causar: "Olho, ninguém me responde/ Chamo, não vejo ninguém".

(Fabio Gomes - 8/11/2004)


Noel Rosa, um presente de Natal

O compositor Noel Rosa nasceu no Rio de Janeiro no dia 11 de dezembro de 1910, mas seu nome não deixa dúvidas: a família esperava que ele nascesse no dia 25. Em função disso, resolveu batizá-lo como Noël, ou seja, Natal em francês. Na época, embora naturalmente não houvesse como saber o sexo do bebê antes do nascimento, Marta e Manoel de Medeiros Rosa estavam certos de que teriam um menino. Influiu na escolha o amor que o pai dedicava à cultura francesa.

A antecipação do parto é em geral atribuída pelos biógrafos de Noel à Revolta da Chibata, movimento dos soldados da Marinha, liderado por João Cândido, que pedia o fim dos castigos corporais naquela Arma. A revolta começara em novembro, durara quatro dias e aparentemente se encerrara com a promessa do governo de acabar com o castigo, anistiando os revoltosos. Mas, como vários marinheiros foram expulsos da corporação ou presos, a luta recomeçou na noite de 9 de dezembro, com a tomada do Batalhão Naval pelos revoltosos. Forças rebeldes e do governo bombardearam-se, chegando a atingir a população civil com balas perdidas (a coisa vem de longe). O pânico tomou conta da capital federal. Foi em meio a esse clima que Marta deu à luz seu filho, preferindo manter o nome escolhido: Noel.

(Fabio Gomes - 20/12/2004)


Noites Brasileiras no Imperial

O Cine Teatro Imperial foi inaugurado em 18 de abril de 1931 como o mais luxuoso de Porto Alegre, com 1.632 lugares. Como novidade para a época, a disposição das cadeiras, garantindo uma visibilidade conveniente em qualquer ponto da sala. Já nos primeiros anos de funcionamento, o Imperial proporcionou a seu público espetáculos com grandes nomes da música brasileira.

Em 29 de abril de 1932, estrearam os Ases do Samba (Francisco Alves, Mário Reis e Noel Rosa), acompanhados pelo pianista Nonô e o bandolinista Pery Cunha. A idéia inicial era que o show acontecesse no dia 8, mas isso não foi possível porque houve demora na definição dos músicos (Noel veio porque Lamartine Babo precisou ir a São Lourenço, MG, por recomendação médica) e também porque o navio no qual viajavam parava em qualquer porto em que pudesse tomar ou deixar passageiros... Em função disso, o Imperial teve que publicar anúncios nos jornais onde se lia: "Eles custam... mas vêm". Após algumas apresentações no Cine Teatro Carlos Gomes e uma excursão pelo interior (São Leopoldo, Cachoeira do Sul, Pelotas e Rio Grande), os Ases retornaram para uma Noite Brasileira no Imperial, em 24 de maio.

Mário voltaria ao Imperial para outra Noite Brasileira, em 31 de julho de 1935, desta vez ao lado de Carmen Miranda.

(Fabio Gomes - 17/5/2004)

NR: a partir de novembro de 2007, o antigo prédio do Cine Carlos Gomes, restaurado, passou a abrigar uma filial das Lojas Pompéia


Primavera musical

Em 1934, a prefeitura do Rio de Janeiro pensou em incluir a abertura da primavera no calendário oficial de festas da cidade. Chegou-se a promover a escolha da Rainha da Primavera, sendo eleita Lela Casatle, moradora de Vila Isabel. A pequena foi homenageada por Benedito Lacerda com a valsa "Lela" e por Jayme Florence (o Meira) com o choro "Primavera" - depois letrado por Jorge Faraj e gravado por Jayme Vogeler. Morador do mesmo bairro de Lela, Noel Rosa não podia deixar por menos: de parceria com Vadico, dedicou à rainha uma obra-prima definitiva: "Feitiço da Vila".

A idéia de comemorar oficialmente a primavera não prosperou, mas ainda em 1934 gerou algumas músicas: "Primavera no Rio", de João de Barro, gravada por Carmen Miranda ("O Rio amanheceu cantando/ Toda a cidade amanheceu em flor/ Os namorados vêm pra rua em bando/ Porque a primavera é a estação do amor..."); e, também de Noel, "Marcha da Prima...Vera", que Almirante cantava no Programa Casé, mas que ficou inédita.

Vinicius de Moraes associou à estação a valsa de Tom Jobim que é tema do primeiro longa-metragem de Paulo César Saraceni, que passou a chamar-se "Derradeira Primavera" ao receber os melancólicos versos do poeta. No mesmo ano, 1962, a composição foi gravada instrumental como "Valsa de Porto das Caixas" por Orlando Silveira e seu conjunto, e como "Derradeira Primavera" pela cantora Elza Laranjeira. Curiosamente, na produção de Vinicius com Toquinho há outra canção primaveril - embora deva se tratar da primavera na Europa, pois é intitulada "As Cores de Abril" (1974): "As cores de abril/ Os ares de anil/ O mundo se abriu em flor/ E pássaros mil/ Nas flores de abril/ Voando e fazendo amor...". Outra manifestação primaveril muito conhecida de Vinicius foi o clássico da bossa nova "Primavera", parceria com Carlos Lyra (1965): "O meu amor sozinho/ É assim como um jardim sem flor...".

Também se chamava "Primavera" um dos primeiros sucessos gravados por Tim Maia (1970), de autoria de Cassiano e Silvio Rochael. Outros compositores também escreveram sobre o tema na época, embora sem obterem o mesmo sucesso: Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho ("Harmonia da Flores", gravada por Aracy Côrtes em 1964), Tito Madi e Arnoldo Medeiros ("Vem, É Primavera", lançada por Claudete Soares), Sílvio César e Sérgio Carvalho ("Primavera, Outono", que Elizeth Cardoso gravou em 1979) e até o sambista Monarco, que dedicou à estação das flores uma marcha: "Rancho da Primavera", interpretada por Clara Nunes.

(Fabio Gomes - 20/9/2004)


Raio-X: "Eu Queria um Retratinho de Você"

Alguns compositores gostam de usar expressões que estão na moda; já outros recorrem, por vezes, a expressões só conhecidas por uma específica categoria profissional. Em ambos os casos, a letra de tais músicas pode se tornar uma espécie de "mensagem cifrada" com o passar do tempo. Pretendemos fazer uma espécie de "raio-X" de algumas destas composições, tentando melhorar sua compreensão.

Inauguramos a série com um samba recheado de expressões jornalísticas: "Eu Queria um Retratinho de Você" (Noel Rosa - Lamartine Babo), gravado em 1933 por Mário Reis com os Diabos do Céu:

"Eu quero um retratinho de você/ Pois vou mandar fazer o seu clichê/ E publicá-lo no meu jornal.../ Você é uma figura original!/ Retrato em um tamanho especial/ Que vai deixar o mundo inteiro mal (bem mal)./ Vai ser um sucesso porque/ Figura só vê quem não lê.../ Eu quero um retratinho de você."

Exímios letristas (e melodistas também, por favor!), Noel e Lamartine jogam com as palavras "jornal" e "diário" - em francês, journal significa, além do periódico noticioso, o diário em que uma pessoa relata seus mais secretos atos e pensamentos. O clichê era uma chapa metálica com material gravado para facilitar sua impressão repetidas vezes, embora em geral o termo fosse utilizado para se referir a imagens, fotos (como neste samba) ou desenhos. Não há como saber o que era o tal "tamanho especial", mas devia ser bem grande, a ponto de chamar a atenção mesmo de quem pegasse o jornal só para "ler as figuras" (quando nos livraremos do analfabetismo???).

"Sou o principal redator/ Do 'Correio do Amor',/ Escrevo artigos de sensação,/ Só recebemos visita/ De moça bonita/ No meu coração é a redação."

O principal redator também já foi chamado de redator-chefe e hoje atende por "diretor de redação" ou "editor responsável". Ou seja, alguém que manda na redação, o que permite ao sujeito apresentar-se como homem cobiçado (mesmo que estejam no singular na letra, percebe-se que as "visitas" de "moças bonitas" eram freqüentes). "Artigos de sensação" talvez remeta ao efeito causado pelos textos do sujeito; de qualquer forma, parece reforçar sua idéia que, sendo ele poderoso e influente, tinha mais que ser cobiçado mesmo.

"O seu olhar tão profundo/ É artigo de fundo/ É grande furo em qualquer diário,/ Seu nome é cabeçalho/ Extraordinário/ São de dez milhões as edições."

"Artigo de fundo" é um antigo sinônimo de editorial - o espaço onde o jornal expressa sua opinião. Já "furo" é termo mais conhecido: trata-se da notícia que um veículo consegue publicar com exclusividade ou antes dos concorrentes. "Cabeçalho", aqui, me parece que equivaleria a "manchete". Agora, se uma edição de 10 milhões seria um espanto mesmo hoje, imagine em 1933 - quando a população do Brasil inteiro não chegava a 40 milhões de pessoas!

Em suma, o sujeito, que se apresentava como poderoso, influente e cobiçado, dirigia-se a sua amada pedindo-lhe um retrato que se tornaria um clichê do jornal dele (=figurasse indefinidamente no diário, ou seja, na vida dele). E mais: ele não tinha dúvidas a respeito dos sentimentos dela, pois os lia em seu olhar (que era "o editorial" da moça!), com exclusividade (seria "grande furo em qualquer diário"). Sendo assim, o retrato serviria para noticiar com estardalhaço ("cabeçalho extraodinário") o romance de ambos, para que todos, mesmo os analfabetos ("quem não lê"), soubessem do fato (edições de "10 milhões") - o que, o sujeito tinha certeza ("vai deixar o mundo inteiro mal"), causaria inveja generalizada .

(Fabio Gomes - 15/8/2005)


Reciclagem musical: "Pastorinhas"

Alguns compositores praticam o que chamo de "reciclagem musical": pegam letras e melodias que já haviam utilizado para compor novas músicas. Algumas vezes isso acontece porque a primeira versão não emplacou. É o caso de "Pastorinhas" (Noel Rosa - João de Barro), que venceu um concurso carnavalesco em 1938. João de Barro vencera o certame com "Touradas em Madrid" (parceria com Alberto Ribeiro), mas alguns colegas, inconformados com a derrota, alegaram que "Touradas..." era pasodoble, um gênero estrangeiro, proibido pelo concurso (quando ela é uma marcha, e das boas!). Anulado o concurso, procedeu-se a nova apuração, que premiou "Pastorinhas", parceria de João de Barro com o já falecido Noel, que fora sambar no céu em 4 de maio de 1937.

Na verdade, "Pastorinhas", gravada por Sílvio Caldas, era uma reciclagem de "Linda Pequena", que os dois compuseram em 1934 e acabou sendo lançada para o carnaval de 1936. João Petra de Barros gravou-a e ninguém tomou conhecimento. A cirurgia a que João de Barro submeteu a marcha original foi sutil, muito sutil. Na primeira estrofe, só uma palavra: "E as moreninhas" deu lugar a "E as pastorinhas". No começo da segunda estrofe, dois versos: "Linda pequena/ Pequena que tens a cor morena" virou "Linda pastora/ Morena da cor de Madalena".

Contam que novamente houve chiadeira: Nássara protestou que quem ganhara o concurso fora a alma de Noel...

(Fabio Gomes - 18/10/2004)


70 anos sem Noel Rosa

Eu sei, você já ouviu isso: é espantoso constatar que Noel Rosa, em menos de 27 anos de vida, foi autor de mais de 200 músicas, boa parte delas obras-primas. O espanto é maior ainda se pensarmos que, na real, de seus 26 anos, ele só compôs mesmo em 8 (1929 a 1937) - ou menos, porque fora viagens para shows, ele fez vários períodos de repouso para se tratar da tuberculose, que o vitimou em 4 de maio de 1937.

Boa parte de sua fantástica produção cai em domínio público a partir de 1º de janeiro de 2008. O que isso quer dizer exatamente? Significa que tudo o que Noel Rosa escreveu sozinho (como "Com que Roupa?") ou com parceiros que morreram antes dele (é o caso de "Queixumes", parceria com Henrique Brito, falecido em 1935) poderá ser gravado em CD e incluído em shows e trilhas sonoras de filmes, shows e peças (entre outras utilizações possíveis) sem a necessidade de pagamento de direitos autorais ou consulta aos herdeiros do compositor. Isto porque já terá se cumprido o prazo de 70 anos que a lei nº 9610/98, que regula o direito autoral no Brasil, estipula para proteção da obra intelectual. Porém, obras com parceiros que tenham morrido depois de Noel (ou eventualmente ainda vivos) seguem protegidas: é o caso de "Pastorinhas", que Noel fez com João de Barro, falecido no final de 2006; esta obra só estará liberada em 2077!

Provavelmente assistamos a partir do ano que vem, portanto, uma overdose positiva de shows e discos com músicas do autor de "Palpite Infeliz" - e creio que ela não acabe em seguida, como muitas vezes acontece, isto porque estaremos a dois anos do centenário de Noel, a ser comemorado em 2010.

O fato tem grande repercussão devido ao conjunto da obra de Noel, de extrema qualidade e, digamos, em moldes similares aos da música posterior a ele. Nos últimos anos, a obra de vários compositores que foram expoentes em seu tempo também entraram em domínio público - podemos citar: Sinhô (2001), Nilton Bastos (2002), Ernesto Nazareth (2005) e Chiquinha Gonzaga e Zequinha de Abreu (2006) -, mas a repercussão foi escassa. Nilton tem obra quase toda em parceria com Ismael Silva (falecido em 1976) e Francisco Alves (morto em 1952), enquanto as composições de Nazareth, Chiquinha e Zequinha são predominantemente instrumentais. De Sinhô, pouco ou nada se toca além do "Jura".

Impacto semelhante à liberação da obra de Noel no Brasil talvez só se encontre na Argentina, onde caiu em domínio público no ano passado a obra de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera (ambos desaparecidos em acidente aéreo em 1935).

(Fabio Gomes - 28/4/2007)


Sobre a autoria de "Vejo Amanhecer"

Quando, no começo de março, publiquei a lista das músicas de Noel Rosa que haviam passado ao domínio público, incluí o samba "Vejo Amanhecer", que não constava da relação divulgada em janeiro pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. A principal fonte para minha lista, o livro Noel Rosa: uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier (Ed. UnB/ Linha Gráfica, 1990), aponta apenas Noel como autor deste samba gravado duas vezes em 1933: uma por Mario Reis, lançado no mesmo ano, e outra pelo próprio Noel em dupla com Ismael Silva, que só saiu em disco em 1955.

Na atualização do site deste final de semana, porém, retirei "Vejo Amanhecer" da lista, além de ter incluído o crédito a Francisco Alves como co-autor na página "Rádio" do Projeto Noel Rosa, onde se pode ouvir a gravação de Noel & Ismael. Ao fazer um confronto da relação apresentada por Máximo & Didier com a da 2ª edição do livro No Tempo de Noel Rosa, publicada por Almirante em 1977, dei-me conta da omissão do nome de Francisco Alves como parceiro em Noel Rosa: uma Biografia.

De toda a produção de Noel Rosa, este me parece ser o único samba em que não há um consenso sobre a autoria. Apontam o samba "Vejo Amanhecer" como da parceria Noel Rosa-Francisco Alves, além do livro de Almirante, a Base de Dados da Fundação Joquim Nabuco (Recife) e o livro Francisco Alves: as mil canções do Rei da Voz (Revivendo, 1998), de Abel Cardoso Junior (ambos só referem a gravação por Mario Reis). Já a autoria exclusiva de Noel aparece no livro Mario Reis: o fino do samba, de Luís Antônio Giron (Ed. 34, 2001) e na Enciclopédia da Música Brasileira (Art Editora/ Publifolha, 2ª ed, 1998). E há até quem aponte um terceiro autor: em São Ismael do Estácio: o sambista que foi rei (Funarte, 1985), Maria Thereza Mello Soares inclui Ismael Silva como parceiro de Noel Rosa e Francisco Alves nesta composição.

A Collector's, uma fonte obrigatória quando se pensa na produção musical brasileira da primeira metade do século passado, em diversas ocasiões veiculou as duas versões: na fita nº 22 da Coleção de Ouro, que reunia gravações de Noel Rosa e de Vassourinha na Columbia, que adquiri em 1991, "Vejo Amanhecer" é creditada a Noel e Francisco Alves; já na fita nº 5 da obra completa de Mario Reis, lançada em setembro de 1994, apenas Noel figura como autor. Na matéria de capa do jornal Collector's Notícias nº 36 (maio/junho de 1995), "Francisco Alves, o Compositor", volta-se a registrar a parceria do Rei da Voz no samba. Em outra matéria de capa, "Noel Rosa", da edição nº 48 do jornal (maio/junho de 1997), volta a se apontar apenas Noel como autor - o mesmo acontecendo na programação atual da Rádio Collector's.

No artigo 52 da Lei nº 9610/98, consta que a omissão de nome de co-autor na divulgação da obra não presume a cessão de seus direitos; então, Francisco Alves só poderia deixar de ser citado como parceiro caso tivesse havido algum pedido nesse sentido por parte de seus herdeiros, fato do qual não tenho notícia nem me parece provável (além de ser um objetivo muito difícil de alcançar: já contamos no Mistura e Manda nº 65 a luta que a família de Torquato Neto travou até provar que ele não era co-autor de "Soy Loco por Tí, América"). Portanto, sendo parceria de Noel com Francisco Alves, morto em 1952, pela lei atual "Vejo Amanhecer" só passará ao domínio público em 2023.

(Fabio Gomes - 22/6/2008)


A versão original de "Silêncio de um Minuto"

Hoje mais uma gravação original de música de Noel Rosa passou ao domínio público: trata-se da primeira versão de "Silêncio de um Minuto", samba-canção de 1935 que Marília Batista gravou em 1940. Depois de ter feito bastante sucesso na década anterior cantando ao lado de Noel no Programa Casé e em três discos gravados em 1936 (que você ouve na Rádio Noel Rosa - cantor), era a primeira vez que Marília gravava música do Poeta da Vila sem a presença dele.

Marília recebeu da mãe de Noel, quando ele faleceu, em 1937, um caderno com anotações, entre outros materiais. Ali estava, por exemplo, a letra de "Balão Apagado", que ela musicou nos anos 60. Talvez no caderno também estivesse esta versão resumida, digamos, de "Silêncio...". Resumida porque aqui não há duas das imagens mais marcantes desta canção, "a pá do fingimento" e "a cal do esquecimento", além disso o violão do Poeta não soluça. A letra completa, com refrão e duas estrofes, foi gravada por Aracy de Almeida em 1951. Por algum motivo, Marília gravou apenas o refrão, os quatro versos que abrem a primeira estrofe e os quatro que encerram a segunda estrofe. Ouça na Rádio Noel Rosa - compositor

(Fabio Gomes - 2/1/2011)

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