Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu

 

LEMBRANDO ADRIANA MARQUES

Por Fabio Gomes

COMENTÁRIOS


  • Oi Fabio! Parabéns pelo teu empenho em registrar historicamente a carreira da Adri e por tabela a minha. Esse é um momento bem difícil pra mim como ser humano e como artista. Perdi ao mesmo tempo minha melhor amiga e minha parceira de trabalho. Grande abraço e obrigado. Simone Rasslan, em 13/7/09

  • Prezado Fabio, obrigada pelo carinho neste momento tão difícil. Achei muito bacana sua iniciativa de homenageá-la em seu site! Estou repassando o texto para a família da Adriana. Grande abraço, Cintia Betina, produtora do show Rádio Esmeralda, em 14/7/09

  • Oi, querido! Fiquei emocionada com tua matéria sobre a Adri. Profunda e verdadeira, como ela. Que bom que temos tantas boas lembranças dela. Um beijo com carinho, Raquel Grabauska (Grupo Cuidado Que Mancha), em 14/7/09
  • Adriana Marques morreu em casa, em Porto Alegre, aos 43 anos, na tarde do dia 11 de julho de 2009. Eu soube da notícia através da Rádio Gaúcha, na manhã do dia 12, um domingo. Por acaso, a mesma emissora que, também nesse dia da semana, há mais de onze anos, me revelou a existência da cantora.

    A primeira vez que ouvi falar de Adriana foi numa entrevista que ela concedeu em abril de 1998 ao programa O Som do Rio Grande, que Paulo Deniz apresentava nas noites de domingo na Gaúcha. Ela falava do CD que iria lançar em breve, Adriana Marques e Bando Barato pra Cachorro. O que primeiro me chamou a atenção foi o repertório que Adriana escolheu: pérolas da MPB das décadas de 1920 a 40, de Sinhô a Assis Valente, passando por Noel Rosa e Lamartine Babo. E, dentro desse recorte, a coragem de optar pelas músicas que queria cantar, não se importando em ficar nos clássicos mais conhecidos. Basta dizer que, em vez do "Jura", hoje praticamente o único samba conhecido de Sinhô, Adriana gravou "Não Quero Saber Mais Dela", em dueto com Geraldo Fischer - uma das faixas cômicas do disco: ela uma mulata que buscava fugir ao assédio de um português mulherengo. De Assis Valente, além do clássico "E o Mundo não se Acabou", incluiu também "Recenseamento", que incorpora rap e guitarras ao samba. Liberdade na escolha do repertório e na elaboração dos arranjos, bom humor e apelo cênico: já temos aí três dos pilares da carreira de Adriana. Mas naquele domingo eu não tive como notar isso tudo, nem foi possível ouvir mais que uma ou duas faixas do CD no programa, pois a entrevista de Adriana era interrompida a todo momento por boletins sobre uma importante decisão de um campeonato de vôlei. Mesmo assim, intuí o quarto pilar: a qualidade vocal de Adriana, com timbre agradável, afinação total, perfeita dicção e excelente noção de ritmo (isso tudo eu só vim a perceber com cuidado mais tarde, nesse dia o vôlei não deixou).

    Dias depois, tendo conseguido com a produção do programa o número de Adriana, telefonei a ela, dizendo ter gostado muito da sua proposta artística e querendo saber onde ouvi-la e como comprar o CD. Ela então me convidou para o show de lançamento do CD, que aconteceria no dia 25 de abril no Salão de Atos da UFRGS. Ali, além de conhecer Adriana pessoalmente, comprar o CD e levá-lo autografado (a dedicatória foi "Fábio: Já que gostamos destas velharias, bom proveito! Adriana Marques"), pude ver pela primeira vez em ação a dupla Adriana Marques-Simone Rasslan, uma das mais perfeitas combinações vocais que meus ouvidos já tiveram a felicidade de escutar. Tudo que foi dito sobre a voz de Adriana pode ser aplicado à de Simone, que soma a isto o fato de ser uma exímia pianista.

    Tendo, além das afinidades vocais, as de interesse musical, nada mais natural que Adriana e Simone trabalhassem juntas em uma série de shows, culminando no primoroso Rádio Esmeralda AM - Uma Jóia no Ar. Mas houve vários outros, inclusive tributos a cantoras como Elis Regina (...E Assim se Passaram Dez Anos, em 1992) e Carmen Miranda: Mirando Carmen - Cem Anos da Estrela Maior. Esta última parceria da dupla estreou na Fundação Ecarta em 25 de abril de 2009, comemorando o centenário da Pequena Notável, influência confessa de Adriana.

    Estive na estreia de Rádio Esmeralda, em abril de 2000 no Teatro Renascença, bem como na do show que lhe deu origem - Amor de Parceria, na Sala Luís Cosme (Casa de Cultura Mário Quintana), em outubro de 1999. Em comum nos dois espetáculos, além de uma proposta cênica, o repertório privilegiando o olhar feminino e o desejo de estender a comunicação para além do trivial desfile de canções com escassa ou nula interligação. Em Amor de Parceria, algumas vezes a letra de determinada canção que Adriana e Simone interpretavam "respondia" a um recado que elas recém tinham ouvido na secretária eletrônica - sim, havia uma secretária eletrônica no palco, em cima do piano, acionada a intervalos.

    No show seguinte, a idéia de ir além do trivial incorporava um aspecto altamente revolucionário em termos de espetáculo: ao invés de simular telefonemas recebidos, Adriana e Simone passaram a telefonar de verdade para celulares da platéia (cada espectador fornecia seu número na bilheteria, ao entrar no teatro). Provavelmente foi o primeiro espetáculo a pedir que o público não desligasse os celulares. Esta interatividade foi com certeza um dos principais fatores dos 9 anos de sucesso do show. Além das apresentações especiais para empresas, Adriana e Simone faziam várias temporadas por ano em teatros de Porto Alegre. Rádio Esmeralda inclusive já tinha agendado sua volta ao Theatro São Pedro entre os dias 30 de julho e 2 de agosto de 2009. A produção do show devolveu ao Theatro as datas, para possibilitar o agendamento de outro espetáculo; porém a administração optou por utilizá-las, como forma de homenagear a memória de Adriana.

    Se o roteiro de falas e quadros apresentados na rádio montada no palco era constantemente alterado, a coerência inicial do repertório se manteve, apesar das naturais mudanças ao longo de nove anos. Isto transparece ao se comparar o set list do show que Adriana e Simone fizeram no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mário Quintana em setembro de 2000 com a relação de músicas do CD Rádio Esmeralda - O Espetáculo, lançado em 2003. O CD traz as seguintes faixas:

    1 - Introdução
    2 - Quando esse nego chega (Haroldo Barbosa)
    3 - Chatanooga Cho Cho (Harry Warren - Mack Gordon)
    4 - Vinheta
    5 - A menina do subúrbio (Eduardo França-Paulo Coelho)
    6 - Devolva-me (Renato Barros - Lilian Knapp)
    7 - É que nessa encarnação eu nasci manga (Luli - Lucina)
    8 - Killing me softly with his songs (Norman Ginbel - Charles Fox)
    9 - Hino do Rio Grande do Sul (Joaquim José Mendanha - Francisco Pinto da Fontoura)
    10 - Negrinho do Pastoreio (Barbosa Lessa)
    11 - No bom do baile (Barbosa Lessa)
    12 - Chalana (Mário Zan - Arlindo Pinto)
    13 - Padaria (Wandi Doratiotto - Mário Manga)
    14 - Cantoras do rádio (João de Barro - Alberto Ribeiro - Lamartine Babo)
    15 - Jingle Schmitt (Adriana Marques - Simone Rasslan)
    16 - O Ritmo da Chuva (John Gummoe - Demétrius)

    O show de 2000 tinha praticamente todas estas músicas, menos a 9, 10, 11 e 15. Nas outras 12 faixas, houve apenas uma troca na ordem: no show, "O Ritmo da Chuva" vinha logo depois de "Chalana". Entre "Chatanooga Choo Choo" e "É que nessa encarnação eu nasci manga", vinham "Qui nem Jiló" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) e "Fruto Proibido" (Rita Lee). E depois de "Padaria" e antes de "Cantoras do rádio", "Vida de Cachorro" (Mutantes). No encerramento, "Final Feliz" (Nico Nicolaiewki).

    O sucesso da Rádio Esmeralda acabou deixando em segundo plano a carreira solo de Adriana. O fato de o espetáculo ter ficado mais conhecido que as criadoras gerou ao menos uma situação inusitada, que revelo aqui pela primeira vez. O Fellini Piano Bar anunciou Adriana Marques como atração na noite de 12 de dezembro de 2004, um domingo. Salvo engano meu agora, era o primeiro show solo da cantora desde a estreia da Rádio Esmeralda, quatro anos e meio antes. Além disso, quem acompanharia Adriana desta vez não seria Simone, e sim a pianista da casa, Dionara Schneider (que atualmente está às terças e quintas no Odeon). Achei interessante e fui até lá. Mas pelo jeito, mais ninguém achou, pois afora a cantora, a pianista, o proprietário e os garçons, a única pessoa presente no Fellini aquela noite era eu. Perto dali, no Parcão, acontecia um concerto de Natal com a Orquestra da PUC tendo Milton Nascimento como cantor convidado. Durante algum tempo, enquanto se esperava mais gente chegar ao bar, Adriana e eu botamos o papo em dia, e aproveitei para passar algumas dicas para Dionara - coisas do tipo "Depois que nossa amiga começar a subir o tom da música, pode ir em frente porque ela não vai mais voltar ao tom inicial de jeito nenhum" (e é a pura verdade, os sustenidos são marca registrada da interpretação de Adriana, principalmente depois que passou a cantar regularmente com Simone). Mais adiante, não vindo ninguém mesmo, transferimos o papo da mesa para perto do piano. Foi uma noite muito agradável, em que nós três nos divertimos muito, eu sugerindo músicas para elas tocarem e até cantando junto algumas. O único que não achou a noite nada divertida foi o dono do bar, Rogério, que me cobrou o couvert como se tivesse havido mesmo um show ali...

    Estas lembranças não estariam completas sem se mencionar o engajamento de Adriana na defesa dos direitos da classe musical. Ela foi uma das artistas presentes à reunião ocorrida na Sala Álvaro Moreyra em 7 de dezembro de 2004, visando criar o Fórum Gaúcho da Música Brasileira - que em seguida foi rebatizado como Fórum Permanente de Música do Rio Grande do Sul. É de sua autoria o relato desta reunião, editado por Álvaro Santi e publicado por mim no Mistura e Manda nº 83.

    No ato-show coletivo acontecido no Salão de Atos da UFRGS no dia do Acorde Nacional, 10 de julho de 2005, um domingo, Adriana, além de cantar "Chatanooga Choo Choo" com Simone, sugeriu que espaços da cidade que em geral ficam ociosos aos domingos (como o próprio Salão de Atos) poderiam abrir para que os músicos tocassem de graça, ajudando na formação de platéias (a idéia não agradou a setores da classe ali presentes e jamais foi levada adiante). O dia do Acorde Nacional foi uma mobilização dos músicos profissionais brasileiros para chamar a atenção da sociedade para as reivindicações da categoria. O Acorde, propriamente dito, foi um si bemol agudo cuja emissão iniciou em Belém do Pará às 17h daquele domingo, sendo repetido na seqüência em shows semelhantes em outros 8 estados e culminando justamente nesse show em Porto Alegre.

    Adriana para ouvir

    Como acontece com boa parte dos artistas independentes de sua geração, Adriana foi basicamente uma cantora de palco. Os interessados em ouvi-la agora passam a contar com bem poucas opções, quase todas gravadas num intervalo de três anos. Afora seu primeiro e único CD solo, o de 1998, a carreira fonográfica de Adriana em estúdio se resume a duas faixas no CD Túlio Piva - Composições Inéditas (1996)("De chegada" e "Fala violão", esta com Bando Barato Pra Cachorro) e sua participação como vocalista do Grupo Cuidado que Mancha no CD adulto de 1995 e do infantil CD A Mulher Gigante (1998). O CD Rádio Esmeralda - O Espetáculo, em dupla com Simone Rasslan, lançado em 2003, é o registro de um show. Saiba mais sobre a discografia de Adriana no blog Música da Boa.

    O segundo CD solo de Adriana foi um projeto alimentado por algum tempo, mas jamais concretizado. Perto do carnaval de 1999, ela me contou que as gravações, já iniciadas, haviam sido interrompidas por divergências com a gravadora Atração. A cantora acabou depois rompendo com a empresa, que havia escolhido para distribuir nacionalmente seu 1º CD, gravado de forma independente em Porto Alegre com recursos do Fumproarte. Adriana considerou que os números informados pela Atração relativos às vendas do CD estavam muito abaixo do real faturamento. Pouco tempo depois, em setembro, César Fraga, em artigo no jornal Extra Classe que abordava a dupla jornada de Adriana como cantora e professora, mencionava que o show de lançamento do 2º disco estava marcado para o mês seguinte, no Bar Opinião, mas nada se confirmou.

    Adriana para ver

    É de se lamentar que não haja sido lançado um DVD da Rádio Esmeralda, que sempre foi um espetáculo tanto para ver quanto para ouvir. Sem formação teatral anterior, Adriana e Simone foram ao longo do tempo ficando mais à vontade em cena, tanto que deixaram de se tratar no palco pelos nomes verdadeiros e incorporando as personagens Cat Milleidy e Erothildes Malta. Acredito que a produção do espetáculo tenha material audiovisual que possa ser lançado.

    Felizmente, na internet você encontra dezenas de vídeos do espetáculo. A TV Brasileirinho preparou uma página especial com os melhores momentos do show no YouTube. Foi lá também que encontramos este um momento raríssimo: Adriana se acompanhando ao violão numa aula de Pedagogia. A música é do repertório da Rádio Esmeralda: "Padaria".

    Entrevistas com Adriana

    Recomendo duas entrevistas de Adriana e Simone sobre a Rádio Esmeralda.

    A primeira é a que elas me concederam em setembro de 2000 e que foi ao ar no programa Por Volta do Meio-Dia, na Rádio da Universidade. Trechos dessa conversa estão no Brasileirinho desde que o site entrou no ar, em 17 de outubro de 2002, e podem ser ouvidos aqui e lidos aqui.

    Outra entrevista muito rica é a que as artistas concederam ao site da PUCRS, cujo link é http://www.pucrs.br/famecos/vozesrad/20061/radio_esmeralda/esmeraldacompleta.html

    Copyright © 2009. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais