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APOLÔNIO BRASIL, CAMPEÃO DA ALEGRIA

Por Fabio Gomes

 

Em seu sexto longa, Apolônio Brasil, Campeão da Alegria, o cineasta carioca Hugo Carvana consegue a proeza de fazer um musical realmente alegre que, ao mesmo tempo, é capaz de levar o público à reflexão.

Apolônio (Marco Nanini) só aparece vivo, digamos, no prólogo, onde canta "Nossos Momentos" (Luiz Reis - Haroldo Barbosa). Um letreiro informa que estamos na boate Golden Night e o ano é 1980. Em seguida, a música volta num arranjo para orquestra de metais, embalando os créditos de abertura (as duas versões de "Nossos Momentos", e todas as músicas do filme, constam do CD Trilha Sonora Original do Filme Apolônio Brasil - Campeão da Alegria). Ao iniciar o filme propriamente dito, Apolônio está morto e, atendendo a seu último pedido, seu corpo é retalhado pela doutora Milu (Louise Cardoso), sua ex-colega de orfanato, devendo cada pedaço ser enviado a teatros (onde, depois viremos a saber, sua arte jamais entrou). Milu, porém, não segue à risca a vontade de Apolônio, guardando o cérebro. Por essas coisas da vida, a massa cinzenta do músico vai parar nas mãos de um cientista inescrupuloso (José Lewgoy), dono da empresa Smiles, Clones and Money (o nome é um achado, significando em português sorriso, clones e dinheiro...). O cientista reúne amigos de Apolônio, que vão lembrando sua vida, em flashbacks muito saborosos. Com esse recurso, Carvana consegue traçar um panorama de formas de difusão da música brasileira ao longo de cinco décadas.

A música de tradição folclórica está no coro do orfanato que canta "Pirulito" e "Peixe Vivo". Já o costume de tocar piano nas casas surge com a ida de Apolônio e seu amigo Pedro X ("Xis de charmoso!", ele informa, todo pimpão) à pensão da cafetina (Sílvia Bandeira). A dona da casa está sendo despejada, quando Apolônio (vivido por Caio Junqueira em sua fase adolescente) aparece, tocando "Minha Viola" (Noel Rosa) ao piano e conseguindo atrair público, impedindo o fechamento da casa de tolerância.

A partir daí, Apolônio consegue entrar no mercado de trabalho, seja participando da gravação de jingles (aqui acho que Carvana exagerou, creio que dificilmente um produto antiflatulência seria anunciado dessa forma naquele tempo) ou de chanchadas da Atlântida. Esse é um ponto alto do filme, mostrando Apolônio e Pedro lutando a qualquer custo para aparecerem em destaque na fita, de preferência ao lado da vedete (e os extras faziam isso mesmo, como Daniel Filho confessa no livro Antes que me Esqueçam). A homenagem à chanchada se completa com a menção ao diretor Carlos Manga (vivido pelo próprio, numa ponta não-creditada) e ao fotógrafo Amleto Daissé, ícones da Atlântida, além do cuidado no detalhe de intitular o filme que estaria sendo rodado como Manga de Colete - com as 13 letras que Manga recomendava que um filme deveria ter no título para fazer sucesso... A única mácula nessa homenagem à chanchada é a fotografia superexposta, com baixo contraste - pô, Carvana, nenhuma chanchada era assim!

Mas o grande emprego de Apolônio foi mesmo na Golden Night, à qual ele era extremamente ligado - basta dizer que ele morre no exato dia em que a boate vai ser fechada (ao som de uma paródia de "Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo), numa seqüência que lembra um pouco o último dia do Bar Esperança, outro filme de Carvana. Sublime, nesta seqüência, a hora em que o pianista chama Os Cariocas para cantarem "Valsa de uma Cidade" (Ismael Netto - Antônio Maria).

Apolônio até tentou o rádio, acompanhando calouros, ou gravar discos, mas sua pouca paciência com gente menos talentosa que ele (quase todo o mundo...) não ajudava muito. Após todas essas incursões, é à Golden que ele volta, para cantar ao lado de Tânia (Alessandra Verney) "Coração Vagabundo" (Caetano Veloso). Ou "Se Todos Fossem Iguais a Você" (Tom Jobim - Vinicius de Moraes). Também é a boate seu porto seguro ao fugir de maridos enganados e furiosos - inclusive o dono da Golden (Marcos Paulo, numa rara aparição no cinema), que jamais reconheceu talento em Apolônio. Obviamente, esses maridos não entendiam sua busca pela melodia perfeita, constituída de um acorde único, e menos ainda porque ele precisaria de suas mulheres nessa busca...

Mas não foi Tânia, nem Ana, nem nenhuma das muitas outras mulheres com nome e sim uma anônima freqüentadora da Golden que inspirou Apolônio a escrever "Outra Vez Nunca Mais" (na vida real composta por Sueli Costa e Abel Silva), sua obra-prima e sua realização mais próxima da tal melodia perfeita.

A reflexão que Carvana propõe é da efemeridade da vida. Apolônio, na vida pessoal, é um homem sem família (é órfão), não se casa, tem um filho mas não sabe (é por isso que o cientista reúne os amigos de Apolônio buscando uma autorização para cloná-lo - eles eram a sua família). Ao morrer, seu corpo não é enterrado, e sim dividido, como se ele fosse uma espécie de Tiradentes. Ah, e a única parte de seu corpo que sobra não tem paz (não direi mais para não estragar o final). Artisticamente, permaneceu ligado a um piano-bar bastante agradável, sem dúvida, mas não chegou a fazer espetáculos ou lançar discos, não chegando a ser um nome conhecido do grande público.

Apolônio Brasil, Campeão da Alegria traz ainda bons desempenhos de Antônio Pitanga, Anselmo Vasconcelos, Maria Gladys (que só foi atendida no seu pedido por "Babalu" nos créditos finais, mas quem a atende não é Apolônio, e sim a voz de Ney Matogrosso) e Antônio Pedro, além de pontas de nomes conhecidos, como Paulo José, e excelentes músicas - além das já citadas, "Roda Viva" (Chico Buarque), "Neurastênico" (Betinho - Nazareno de Brito) e muitas outras. A destacar, ainda, a coragem de Nanini, que canta e toca mesmo, sem ser dublado.

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