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BAMBAS NO TEATRO

Por Fabio Gomes com reportagem de Cláudia Ramos

 

 

A escola de samba Bambas da Orgia, campeã do desfile de Porto Alegre de 2002, levou sua história e sua alegria ao palco do Theatro São Pedro em 1 de novembro do mesmo ano. A animação dos componentes da escola e o entusiasmo do público eram tantas que, próximo ao final do espetáculo, parecia que não havia a separação entre palco e platéia, como se o teatro houvesse se transformado na avenida. Foi esta, por exemplo, a impressão do apreciador de samba João Damião Pedroso: “Ficou perfeito, como se fosse lá na própria quadra”.

O espetáculo, dirigido por Sérgio Cidade, iniciou com uma apresentação teatral, na qual o ator Sirmar Antunes (dos filmes Netto Perde Sua Alma e O Dia em que Dorival Encarou a Guarda) vivia o Chico Rei, um folião saudosista que, no boteco de um português (João França), discutia com um bambista jovem (o próprio Cidade) se o carnaval era melhor no passado ou agora. As falas, a pretexto de darem razão a um ou outro, iam contando a história do carnaval brasileiro e porto-alegrense e dos próprios Bambas, que em maio comemoraram seus 62 anos. Além dos atores mencionados, estavam no bar, como figurantes, os integrantes da Velha Guarda da escola, que permaneceram no palco durante todo o espetáculo, como uma forma de homenagem. Também foram lembrados os bambistas que já não mais vivem.

Encerrada a peça, Cláudio Vieira cantou “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” (Paulinho da Viola), para lembrar a Portela, madrinha dos Bambas. Em seguida, Jajá, Cláudio Barulho, Meneca e Deco revezaram-se no palco, lembrando grandes sambas da escola, como “Quatro Décadas de Glória” (Caqui da Portela – Jajá), com o qual os Bambas foram campeões em 1980, e “Festa de Batuque” (Delmar Barbosa Pavão – Jajá), outro samba campeão, de 1995. Estes dois sambas foram interpretados por Jajá, que, no dizer da presidente Rosalina Conceição (Rose), “é a cara de Bambas da Orgia”. Acompanhando os puxadores, o Regional da Velha Guarda, os Amigos Leais (Enio Santos – violão 7, Calotinha – cavaco, Fernando – guitarra, Vinicius – baixo, Amaro – surdo, Helio – pandeiro, Mosinho – ritmo) e a bateria do Mestre Sandro. A cada número, alternavam-se no palco dançarinos com camisas brancas com “Quero Paz!” escrito em azul, porta-bandeiras, porta-estandartes, casais de passistas. A animação era crescente no palco e na platéia. A esta altura, o ritmo da bateria já era de desfile oficial. O grande destaque desta parte do espetáculo foi o casal de passistas Débora e Adílson, ambos há dois anos nos Bambas e já vencedores do Estandarte de Ouro, mas em carnavais diferentes. Débora samba muitíssimo bem e transmite uma alegria contagiante.

A presidente Rose agradeceu a direção da Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul (AECPARS), do Theatro São Pedro, do Grêmio Foot-Ball Portoalegrense (tema da escola para 2003) e aos atores, acrescentando que dividia com o público a alegria do espetáculo e a emoção das vitórias da trajetória da nação azul e branco. A bateria seguiu no palco, mas os Amigos Leais deram lugar a um grupo de 3 cavaquinistas e 1 violonista, para acompanhar Gílson, Alexandre Belo e Nego Edu na interpretação dos sambas mais recentes dos Bambas, culminando com o tema do próximo carnaval: “No caminho uma bola, dentro da bola o sonho azul de um Grêmio vencedor”. O samba tem uma introdução longa, iniciando com acordes japoneses, seguindo-se a tradicional chamada dos componentes pelo puxador e uma citação do “Hino do Grêmio” (Lupicínio Rodrigues), para então entrar no tema. Novamente a avenida parecia ser o palco do São Pedro. Ou, como definiu a jornalista Vera Xavier: “A adesão dos componentes da escola foi geral e encheu o teatro, tanto no palco quanto na platéia, parece que se sentem numa verdadeira comunidade.”, acrescentando: “No espetáculo, não esqueceram de nenhum detalhe da história da escola, desde a jovem a velha guarda.”

Ao final, um toque de emoção. Uma senhora disse a Rose que queria beijar o estandarte da escola na mão da presidente. Rose buscou o estandarte, veio à frente do palco e executou alguns passos, lembrando seu tempo de porta-estandarte e sendo muito aplaudida.

O que ficou a desejar foi a parte técnica, a cargo do próprio Theatro São Pedro. Além de não ter sido ligado o ar-condicionado, numa noite bastante quente, o som embolava quando o puxador cantava mais forte. Também houve tropeços na iluminação, o mais grave deles sendo desligar a luz enquanto o apresentador Odir Ferreira lia um texto. Mas foram detalhes pequenos, que não tiraram o brilho da apresentação dos Bambas da Orgia. Rose já atuou como porta-estandarte dos Bambas em outras apresentações da escola em teatro, como no próprio São Pedro e no Teatro Renascença, em meados da década de 1990. Agora, como presidente, buscou novamente este espaço como forma de mostrar que carnaval é cultura. Rose lembrou ainda que as escolas de samba cumprem um importante papel social (por exemplo, tirando crianças da rua). Ela salienta que o espetáculo no TSP teve a melhor receptividade possível, estando de parabéns não só os Bambas, mas todos os carnavalescos da cidade.

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