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CULTURA DO BRASIL REVELADA
NO BARRACÃO DA MANGUEIRA
(Análise Institucional da Organização do Carnaval)

Por Candida Rosa Ferreira Costa

O desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial, inserido no contexto do Carnaval do Rio de Janeiro, tornou-se um megaevento de repercussão mundial. Ano após ano, exerce fascínio por sua suntuosidade, beleza, criatividade e expressão de constante vir a ser, percebida na passagem ondulatória de milhares de componentes.

Identificadas como manifestações da cultura brasileira, as escolas, no entanto, têm merecido pouca atenção no que se refere ao desvelamento dos processos administrativos que engendram e realizam o desfile. Um olhar crítico revela que, se de um lado, há algo nele de imponderável, há também toda uma ordenação relacional de tarefas que viabiliza sua ocorrência. Tais tarefas têm lugar no barracão e na quadra.

O estudo consolidado neste trabalho está delimitado ao barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Não se detém, portanto, na análise do Carnaval, nem na do desfile em geral, ou de uma escola em particular. Os aspectos culturais aí presentes já foram exaustivamente analisados por DaMatta (1990). Aqui o foco é o barracão na tentativa de uma breve análise institucional.

Motiva o estudo a vontade de desvelar os aspectos administrativos de uma organização tipicamente brasileira e de neles identificar aspectos da cultura brasileira. Aquece-o a crença de que embora as descrições e interpretações feitas sejam fruto de uma realidade recortada, o que aponta para a necessidade de cautela em relação a inferências para um universo mais abrangente, possivelmente elas oferecem elementos para um arcabouço compreensivo daquela cultura e das organizações que lhe são próprias.

Permeio este trabalho com algumas citações de René Lourau (1993), quando, em visita à UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), o autor apresentou suas opiniões na palestra Análise Institucional e Práticas de Pesquisa, além de recorrer a Bruno Latour (1994 e 2002) e a Sigmund Freud (1950), no que diz respeito a fetiche e fantasia.

Escolas de Samba: Origens e Evolução

Nos seus primórdios, as Escolas de Samba tinham um caráter extremamente temporário, reunindo-se apenas nas proximidades do Carnaval. Surgiram nos anos 1920 e emergiram dos blocos que desfilavam pelas ruas do Rio de Janeiro agregando as camadas pobres da população. A oficialização desta festa, em 1935, todavia, condicionou-as a uma definição formal: uma entidade civil sem fins lucrativos.

A partir dos anos 60, com a valorização da cultura popular, as escolas de samba passaram a atrair a atenção da sociedade brasileira. Nos dias de hoje, são empreendimentos que funcionam durante todo o ano, agregando milhares de pessoas.A fundação da Liga Independente das Escolas de Samba - LIESA, em 1984, sistematizou a racionalização administrativa e financeira da organização do desfile, cujo controle total lhe passado em 1995.

No Carnaval de 1995 e no ano de 1996 as escolas demonstraram sua flexibilidade ao encontrarem meios alternativos de financiamento, dado que a prisão dos "bicheiros", tradicionalmente seus provedores dos recursos financeiros, ocorrida em 1993 por decisão judicial, reduziu drasticamente a quantidade de dinheiro alocada na realização do evento.

Estrutura da escola de samba

Uma escola de samba está dividida em instâncias distintas: barracão, quadra e alas.

O barracão é onde se produzem os carros alegóricos e os protótipos das fantasias e alegorias. Na quadra se realizam os ensaios para o Carnaval. Permeiam essas duas instâncias os membros que formam a estrutura básica de uma escola de samba: as alas. Os Presidentes de Alas são os que recrutam e gerenciam os integrantes que vão dar forma à escola na avenida. São responsáveis por reproduzir o protótipo da fantasia de suas alas e vendê-las, contando, para isso, com uma rede de costureiras e de uma organizada estrutura de vendas.

Algumas alas têm uma seleção rígida e apresentam grande integração. Como por exemplo a ala das passistas, onde é imperativo saber sambar com graça, desenvoltura e sensualidade, além de ser obrigatória a harmonia e beleza das formas físicas das representantes dessa ala. Outras alas, também conhecidas como gerais ou ainda denominadas de grupos, têm características bastante temporárias. Agregam o público de fora - integrantes das classes sociais mais abastadas, turistas nacionais e estrangeiros - que quer participar do desfile e que é necessário à escola, pois gera recursos financeiros com a compra de fantasias e a afluência à quadra nos dias de ensaio.

Este conjunto aparentemente desordenado de pessoas adquire forma na avenida. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tal como as demais escolas, cuida para que isto aconteça. O esforço começa no barracão.

O barracão de uma escola de samba: A Nação Mangueirense

A pesquisa de campo que nutre este trabalho exigiu a permanência, por mais de um mês, no barracão da Mangueira (a coleta de dados foi realizada entre os meses de junho e agosto de 2003. Visitas periódicas de acompanhamento do processo de trabalho foram feitas durante esse período).

Partimos da suposição de que a Escola deveria revelar uma rede de atividades e de relações de trabalho cuja revelação seria do interesse de muitos. Decidimos por começar desnudando seu ambiente físico e a relação espaço - tempo.

Ambiente físico e a relação espaço tempo

O barracão é a oficina do samba. É a fábrica dos sonhos, onde algumas toneladas de ferro, tecidos, madeira, isopor e uma infinidade de adereços distintos transformam-se pouco a pouco, sob a batuta de um carnavalesco, em gigantescos carros alegóricos e centenas de fantasias. É no barracão do samba que a ilusão, a imaginação e a fantasia se transformam em realidade. Uma realidade recheada de fetiches e que apesar da dura estrutura de suas alegorias, a oficina do samba é onde se desenvolve e apresenta a maior máquina/fábrica de lazer que é o nosso doce e maravilhoso carnaval.

O primeiro olhar lançado ao seu interior revela uma oficina feia, desorganizada e barulhenta. A pessoa (o pesquisador) é, então, levado a perceber que um desfile de Carnaval não é realizado apenas com visões lúdicas, frases emocionadas e o capital do patrono se esparramando pelo barracão. Procurando desviar-se das tentadoras visões fantasiosas, reordena seu pensamento para desvendar e interpretar aquela oficina de características tão peculiares.

Após a primeira impressão de desorganização, uma observação mais atenta revela independência física dos diversos setores que compõem o barracão da escola. As demarcações são, porém, flexíveis. O relógio próprio do Carnaval gradualmente promove associações e até simbiose entre setores. Tal relógio parece dominar as demarcações físicas do ambiente de forma bem mais acentuada do que poderiam fazê-lo os papéis sociais representados pelas pessoas do barracão. É certo que, ao nele entrar, depara-se logo com as salas reservadas ao Presidente da Escola e à Administração do Barracão. Porém, esses espaços não se apresentam como áreas de exclusão; mas sim como espaços inclusivos, onde o trânsito é livre.

Embora longe de igualar-se, em termos da rigidez da divisão do trabalho, a uma oficina tradicional, o barracão da Mangueira, entretanto, permite a identificação de departamentalização por produto.

O teórico Bruno Latour (2002) ao abordar este assunto no estudo de questões de instituição, percebe que as mesmas "às vezes lhe parece espaços de executivos, conspiradores ou mesmo guerrilheiros na forma diária como conduzem seu trabalho".

Setores e Produções

Toda nova disciplina ou novo espaço de saber entra em contradição com o velho saber então instituído. Este se bate, a todo o momento, contra novas situações que lutam para se instituir, como diz Lourau (1993).

Isso não acontece, por exemplo, em um barracão de uma Escola de Samba, onde todos os setores de produção dessa instituição dependem um do outro mutuamente para o desempenho e desenvolvimento de suas funções. O Carnaval é assim: mutante, camaleônico, diferente em cada apresentação anual, se reinventa e se renova a cada festejar. O que o barracão da escola de samba faz é isso: busca novas formas de apresentar sempre o mesmo carnaval, só que com tema e abordagem inovadora e fantástica. Obedecendo a propostas operacionais distintas, mesmo que essa diversificação de atividades seja grandiosa o fim concreto é o mesmo: apresentar sempre o melhor carnaval-espetáculo a cada ano. E conseguem. Trabalham duro o ano todo. Nem todos os setores de produção dessa estranha oficina estão presentes durante todo o período de produção do Carnaval. Nos meses de julho e agosto estavam em atividade apenas oito setores: ferragem, carpintaria, adereços, costura, chapelaria, escultura, almoxarifado e cozinha. Além desses, existem dois setores funcionais, representados pelas figuras isoladas do Presidente da Escola e da Administração do Barracão. Permeando toda essa estrutura paira a figura do Carnavalesco, regendo, com sua afiada batuta, a grande orquestra do barracão.

Lourau (1993) faz uma apresentação geral da Análise Institucional, apresentando um aspecto importante que ele chama de Novo Campo de Coerência e enfoca as relações e inter-relações existentes e encontradas.

"O campo de coerência surgiu em contradição com a Sociologia e em contradição com o saber eminentemente teórico da Sociologia. Lembremo-nos que os primeiros sociólogos fizeram escândalo e foram acusados das piores intenções contra a ordem moral. Mas eles destronaram a Religião e a Filosofia.

As novas explicações para o social que, hoje, formam um novo campo de coerência, não foram aceitas pelo instituído de então. Durkheim, por exemplo, teve inúmeras dificuldades para impor seu trabalho. Durkheim foi instituinte. Seu campo de coerência aparecia à época como loucura. O mesmo aconteceu com Freud quando propôs a Psicanálise: seu campo de coerência foi percebido, qual o de Durkheim, como incoerente. Já foi loucura pretender, como Freud, que a sexualidade tivesse um papel essencial em toda e qualquer atividade humana". (Lourau, 1993, p. 9)

Sem querer nos comparar a esses três cientistas famosos, vale contudo apresentar alguma semelhança entre o Carnaval e o surgimento do campo da Análise Institucional, a aparição da Sociologia e a da Psicanálise.

É fácil reconhecer e identificar o conhecido e o instituído no Carnaval, pois é sempre a mesma alegria e a mesma folia. O novo, o que difere, o estranho, o desconhecido, o que é interessante é a magia e a versatilidade do carnaval que se apresenta nesse aspecto, de ter que se renovar, se reinventar, muitas vezes sob velhas, antigas e arcaicas estruturas; se apresentando de forma integradora da sociedade, exercendo um papel influente na sexualidade devido à sensualidade exuberante.

Ferragem: A Sustentação do Belo

O sonho do Carnaval termina e novamente se reinventa com a ferragem. É neste setor que são produzidas as estruturas metálicas sobre as quais vão, paulatinamente, se formando os grandes carros alegóricos, marca registrada do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Ao término de um desfile, inicia-se o trabalho do desmonte dos carros e a preparação de suas estruturas para o reaproveitamento. É, portanto, o primeiro trabalho a recomeçar no barracão, reiniciando suas atividades em março e terminando dias ou horas antes do desfile, com retoques de última hora.

"Eles desfiam, portanto, para nós, a diferença entre fabricação e realidade, domínio e criação, construtivismo e realismo". (Latour, 1996, p. 105)

A Mangueira planejou para o desfile de 2004 nove carros alegóricos com o tema "Os caminhos da Fé em Minas Gerais - A Compostelo Brasileira" (OBS: alterado depois, conforme consta no item O Carnavalesco), sendo que, de forma surpreendente, em meados de agosto apenas o primeiro deles começava a tomar forma. É o Sr Comandante, responsável pelo prédio novo do Centro Cultural Cartola, que responde à perplexidade frente ao atraso iminente :

- O Carnaval é como um sonho, se deixar nunca acaba....Mas na hora que tiver que ficar pronto, vai ficar! Vocês já viram Carnaval atrasar? Tudo atrasa, mas o Carnaval nunca!

Carpintaria: A Arte na Madeira

Obedecendo a um nítido encadeamento de atividades, entram em cena, a partir de maio, os setores de costura, adereços e carpintaria. Do setor de carpintaria saem tanto peças amorfas, como as tábuas de compensado que recobrem as ferragens dos carros alegóricos, quanto um requintado trabalho artístico em madeira, na forma de igrejas, teatros, barcos, entre outros.

Ao ser elogiado pela qualidade e riqueza de seu trabalho, o responsável pela carpintaria, diz humildemente, que tal trabalho é todo do Carnavalesco. Todavia, basta um olhar desarmado nos esboços que são distribuídos para os responsáveis pelos setores, para perceber a significativa parcela de criatividade deixada a cargo da carpintaria. Vale nesse ponto, salientar que os esboços elaborados pelo Carnavalesco, sejam da visão de conjunto de um carro alegórico, ou seja, apenas de um detalhe como por exemplo, um boneco, são distribuídos igualmente para todos os responsáveis pelos setores, sem indicações se o objeto em questão será produzido em madeira, fibra ou tecido. Segundo o setor de Carpintaria, no caso de uma interpretação sair errada dos indicativos dos esboços, um outro setor cobrirá o setor necessitado a tempo. A observação parece indicar uma organização do trabalho que permite o relaxamento de um esquema rígido de sua divisão, por meio de mecanismos integrativos. A visão de conjunto norteia, então, as contribuições individuais.

Adereços: O Belo em Construção

O setor de adereços é, por si, uma fábrica de fantasia. Neste setor, uma infinidade de diferentes materiais, como, por exemplo, plásticos, tecidos, acetatos, espelhos, papelão, tinta, cola, plumas, transformam-se em bonecos, fantasias, interiores de igrejas, teatros e acessórios de mão. Se os setores de ferragem e carpintaria respondem pelo esqueleto dos carros alegóricos, ou pela parte não-visível destes, o setor de adereços responde pela sua face aparente, ou seja, pela cobertura dos carros.

"Zomba-se, às vezes, do caráter grosseiro dos fetiches, troncos mal esculpidos, pedras mal talhadas, máscaras caricatas. Desculpem-me, portanto, propor uma descrição sobre os fé(i)tiches modernos também desajeitados". (Latour, 2002, p 57)

Fantasias: Onde o Pano toma Forma

No setor de costura são confeccionadas todas as fantasias dos figurantes e destaques que desfilarão em cima dos carros alegóricos, juntamente com todas as fantasias da Ala das Baianas, Infantil ou Mirim e da Bateria, doadas pela escola. Também é responsabilidade desse setor a confecção dos protótipos das fantasias de cada uma das alas que comporão a escola na Avenida.

É interessante notar que, ao contrário dos outros setores, o de costura é ordenado de forma a obedecer aos padrões de uma oficina tradicional. Lá se encontra o espaço total dividido em duas partes distintas: uma destinada ao corte dos tecidos e outra à costura propriamente dita. Principalmente no segundo, observa-se uma disposição até certo ponto fordiana das cerca de vinte costureiras. Elas se alinham diante de suas máquinas em uma longa fila indiana e, olhadas em conjunto, remetem às cenas chaplinianas de Tempos Modernos.

Chapelaria: Luxo na Cabeça

Os adereços de cabeça, que complementam as fantasias, são produzidos em um espaço específico, denominado setor de chapelaria. Nele são produzidos todos os chapéus das fantasias de carros, da Ala das Baianas e da Bateria, bem como os protótipos e enfeites de cabeça para cada uma dessas alas. Esta é a ala responsável pela ornamentação da Porta Bandeira e do Mestre Salas.

Escultura: A Terceirização do Samba?

A produção de esculturas é realizada dentro do barracão de forma independente. O trabalho é contratado a um artista alheio à Nação Mangueirense. O profissional e sua equipe haviam iniciado suas atividades em meados de outubro de 1965 e sua área de trabalho ainda se constituía apenas de enormes blocos de isopor que ganhavam formas de animais e cabeças de bonecos, pelas mãos privilegiadas dos artistas.

De forma similar à produção das esculturas, outros setores do barracão também se caracterizam como produções independentes. A comunidade tem sempre prioridade em quaisquer que seja a área de atuação. São elas: formas, fibra, iluminação, pintura de arte, "pastelação" e efeitos especiais. Dessa forma, essas tarefas como que se encaixam dentro da organização do trabalho do barracão como uma espécie de terceirização, na qual atividades periféricas são contratadas a profissionais externos.

Almoxarifado: O Guarda Roupa dos Sonhos

O almoxarifado tem a função de organizar os estoques de materiais dentro do barracão. Todas as entradas e saídas de produto são controladas manualmente em fichas, que alimentam um programa de controle de estoque desenvolvido e em seguida tudo é lançado em tabelas e rigorosamente controlado por computadores; semanalmente são feitos balanços de reajustes que são fixados em quadros informativos para que toda a Nação Mangueirense tenha ciência e controle de todo o andamento das coisas do Carnaval. Esse banco de dados de controle de estoque é apenas mais uma das muitas faces e interfaces da informática com o trabalho do barracão, fato corriqueiro em um mundo cada vez mais dependente dos recursos da computação.

Apesar do trabalho desenvolvido pelo setor de almoxarifado, visando otimizar o reaproveitamento de materiais de carnavais passados, é interessante notar que não existe nenhuma preocupação com a valoração dos estoques. A dimensão financeira passa despercebida, não só no almoxarifado, como também no discurso dos demais responsáveis chefes de setor. O fato se contrapõe ao percebido em empresas tradicionais, onde a observância do valor monetário dos produtos e máquinas manuseados é empurrada ao chão da fábrica, a fim de criar mecanismos de responsabilidade e autocontrole.

Cozinha: Recarregando as Baterias

Os atores do barracão alimentam-se não somente de imagens artísticas, mas também de comida. A fim de suprir essa necessidade, o barracão possui um refeitório próprio, este é conduzido por um grupo de cozinheiras, em total de dez. Lá são servidos o café da manhã e um almoço em dois turnos, subsidiados pela Mangueira. Tendo em vista que no mês que antecede ao grande desfile existem cerca de seiscentas pessoas trabalhando no barracão, percebe-se que a tarefa da cozinha também apresenta certa dose de arte e malabarismo.

O Presidente da Escola

Além dos setores que representam as células de produção dessa fábrica de sonhos, existem três funções dentro do barracão, realizadas por três indivíduos, que permeiam todo o trabalho: o presidente, Álvaro Luiz Caetano, o carnavalesco Max Lopes e a administração do barracão. Estes não possuem setores com funcionários ligados às atividades produtivas, mas desempenham funções estratégicas.

O Presidente da Mangueira durante muito tempo foi o Sr Elmo dos Santos. Álvaro Luiz Caetano está à frente dessa escola há um ano, a duração do mandato de presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira é de apenas dois anos e o presidente deve ser eleito. Dessa eleição participam todos os integrantes do corpo político da Escola e também os representantes da comunidade. O Presidente da Escola é o dono do dinheiro, e é somente ele quem toma todas as decisões referentes à entrada e saída de recursos financeiros. Além dessa atividade de que presta conta ao patrono e à comunidade denominada Nação Mangueirense, parece também caber ao presidente a tarefa de distribuição dos postos mais atraentes da Escola, como os destaques e as fantasias que aparecerão com maior evidência em cima de carros alegóricos. Nas proximidades do carnaval mulheres bonitas, pessoas influentes e membros da comunidade vêm à sua sala barganhar um espaço privilegiado no desfile. Neste mundo relacional, não existem outros critérios que não a simpatia, o charme ou....o famoso jeitinho brasileiro para definir as regras de inclusão. Há controvérsias. Pode-se até desconfiar que talvez o dinheiro ou o poder aquisitivo venha a influenciar esse critério de definição de espaço no desfile, mas não existem regras e ninguém pode afirmar nada, é tudo muito aleatório e no fundo depende da opinião do presidente.

A Administração do Barracão

A administração do barracão possui encargos específicos e explícitos, como controlar o ponto, manter registros de ocorrências e efetuar o pagamento dos funcionários, além de elaborar o cardápio da cozinha e efetuar as compras de materiais para o barracão. Todavia, parece possuir também algumas funções implícitas. Esta sala constantemente torna-se uma sala de visitas, onde as pessoas da Família Mangueirense entram para comer um doce, ler uma revista, reclamar de alguma coisa ou, até mesmo, provocar uma discussão sobre algum assunto. Nesse espaço todos podem se comportar como se estivessem em casa, e contando sempre com alguém para proteção e para contar contra as intempéries da rua. A comunidade da Mangueira tem fama de encrenqueira, arruaceira, abusada, topetuda, atrevida e orgulhosa. E a Mangueira escola de samba é uma verdadeira mãe com seus integrantes, entrou para a verde e rosa e já virou filho e todos têm tratamento igual, sem diferenciação. Na necessidade é só gritar que a mãe Mangueira atende e está sempre disposta a defender seus filhos, componentes, integrantes e até simpatizantes. A união é uma de suas maiores bandeiras, diferente de muitas outras escolas de samba a Mangueira é um verdadeiro exemplo em se tratando de harmonização entre todos, a Nação Mangueirense se orgulha muito desse aspecto unido e familiar que integra a comunidade daquela Escola. O lema lá é "Unidos Venceremos".

O Carnavalesco

Max Lopes já assumiu grandes conquistas para a Mangueira, inclusive o campeonato de 2003 com o tema "Moisés e Os Dez Mandamentos: A Mangueira dita as Leis nesse Carnaval", e em 2004 está certo de conquistar outra vez o primeiro lugar com o tema "A Mangueira Redescobre a Estrada Real e desse Eldorado faz seu Carnaval" (OBS: a Mangueira obteve o 3º lugar no desfile de 2004).

Ao Carnavalesco de uma escola de samba cabe a função vital da criação do enredo e de seu desenvolvimento. Todavia, o trabalho de um carnavalesco vai muito além. Seu sucesso não é, necessariamente, medido pela obtenção do campeonato. Trata-se, antes de um jogo de interação informal que permite estar à vontade em relação à comunidade e colocar a comunidade à vontade em relação ao Carnavalesco (Cavalcante, 1994). Dentro do barracão, mais especificamente, o relacionamento entre o Carnavalesco e o Presidente da Escola também é de fundamental importância.

No barracão da Mangueira percebe-se que o Carnavalesco Max Lopes não executa suas atividades de maneira formalizada. Não houve reuniões para discussão de problemas técnicos ou distúrbios entre os setores do barracão. Seu estilo parece ser o do administrador itinerante. Ele percorre os setores, verificando o andamento dos trabalhos, discutindo e planejando modificações, resolvendo problemas, explicando detalhes de seus esboços ou, até mesmo, pintando adereços, ele próprio. Percebe-se nitidamente seu poder decisório frente a todo o processo de execução das alegorias e fantasias. Também é transparente a responsabilidade (ou a honra) que lhe é atribuída em relação à criação. Mesmo onde, de forma clara até para um leigo, existe criação, seus criadores esquivam-se de assumir tais atributos, julgando-se reprodutores dos esboços do Carnavalesco.

O estilo de atuação de Max Lopes causa certa estranheza, pois ao contrário do observado nas outras organizações tradicionais, a dimensão do controle não é aparente, formalizada através de cronogramas físicos, prestações de contas do tipo "previsto x realizado" ou em inspeções de conformidade. Parece haver uma consciência geral de que todas as principais pessoas envolvidas no processo de elaboração do desfile da Mangueira são capazes de realizar seu trabalho de forma competente e dentro do prazo estipulado. Quando há discordância entre pessoas, ele assume ares de briga em família. É assim que acontece em todo o barracão, um setor fala mal do outro setor abertamente, cada qual querendo ser melhor em tudo, mas não questionam mutuamente a competência funcional, tipo assim coisa de família.

A Nobreza Caiu no Samba

Em 1978, uma cena curiosa invadiu os lares brasileiros. O príncipe Charles, herdeiro do trono inglês em visita oficial ao Brasil, arriscou-se a sambar ao lado de uma princesa negra, careca e quase desnuda, de nome Pinah. Os trejeitos mecânicos do Príncipe, ao lado dessa figura exótica que movimentava inventiva e harmoniosamente seu corpo, provocaram uma cena insólita e aparentemente sem significado.

Entretanto, tratava-se do encontro de dois mundos que, ao longo da história, sempre se encontraram sob a égide de dominação unilateral. Nada poderia, então, causar tanto espanto como a reverência da realeza inglesa a uma mulher representante da raça negra, que traz dentro de suas entranhas as lembranças de uma época de submissão escrava. Esse encontro, talvez possível somente no Brasil, e no desfile da Mangueira na avenida, claro, onde segundo Freyre (1987), a casa grande e a senzala possuíam zonas sociais de intersecção, produz também uma caricatura do encontro do mundo racional e previsível com a intuição e imprevisibilidade, representadas pelo bailado da Pinah.

Análise Institucional do Barracão

Primado transformador de Recursos em Processo de Planejamento
Estratégico de Elaboração de Luxo e Beleza

Uma análise institucional e organizacional do barracão de uma escola de samba assemelha-se ao encontro do príncipe Charles com a negra Pinah. Não é de outra forma que o barracão da Mangueira se apresenta e de maneira bem eclética, quando se percebe uma organização na qual aspectos clássicos e tradicionais se misturam a realizações inovadoras e inesperadas. O todo é surpreendente.

Segundo a tipologia tradicional de funções administrativas, pode-se afirmar que as funções de planejamento estratégico para a elaboração de um desfile são executadas pelo Carnavalesco. Conforme descrito, cabe-lhe a concepção do enredo, ou seja, a história ou tema que a escola irá contar durante o desfile através da combinação do visual e da música. Depois de vários desdobramentos, a concepção chega aos diversos setores do barracão na forma de esboços e figurinos, a partir dos quais os responsáveis pelos setores elaboram o planejamento de suas atividades, o que corresponde ao planejamento operacional.

Ainda dentro da concepção tradicional, o planejamento tático da produção parece estar diluído entre o Carnavalesco e os chefes de setor. O setor que determina o que fazer e o setor que determina como fazer não estão, desta forma, separados, já que os esboços e figurinos elaborados pelo Carnavalesco, apesar de representarem de que jeito fazer, não são fechados em si, cabendo aos chefes de setor uma significativa parcela de criação. O fato indica que, apesar da existência da especialização do trabalho, não existe uma ruptura entre as funções de planejamento (ou criação) e a de execução.

A dimensão financeira é tratada em termos estratégicos pelo patrono da agremiação. Quase todas as outras Escolas de Samba tem seu patrono, patrono é aquele ser que injeta dinheiro, é quem sustenta a Escola. A Mangueira não tem patrono, mas recebe ajuda de quem quiser ajudar. A verba é repassada e distribuída por seus dirigentes. Já em termos táticos e operacionais, está centralizada na figura do Presidente da Escola. Alguns patronos impõem um limite de gastos para a elaboração do desfile. Esse não parece ser o caso da Mangueira. Os recursos necessários não se constituem em fatores restritivos.

"Condições inclusive materiais, onde o dinheiro tem uma participação tão econômica quanto libidinal. Hoje pela manhã, na televisão, um político brasileiro dizia que a política permite gozar de algumas vantagens. A palavra gozo me chamou a atenção, pois se aplica ao poder político e, igualmente, ao científico - já que a ciência é um instrumento de poder político. Por conseguinte, as implicações políticas e libidinais e, é claro, materiais (financeiras) são uma realidade. Isto não é nenhuma abstração inventada pela Análise Institucional..." (Lourau, 1993 p. 17)

O planejamento tático de Recursos Humanos, ou seja, do pessoal que trabalhará no barracão durante a elaboração do desfile, cabe à Administração do Barracão. Sob sua responsabilidade está a administração do pessoal fixo, vale dizer, aquele que trabalha durante todo o ano no barracão, bem como o planejamento do aumento gradativo do quadro, que ocorre a partir dos meses de setembro e outubro. Vale salientar que os chefes de setor participam do processo de alocação de recursos, tendo poder de veto sobre a efetivação dos funcionários selecionados pela Administração do Barracão e vice-versa.

Na Mangueira, a organização interna de cada um dos setores é bastante simples. Possui um responsável, denominado chefe de setor, que coordena as atividades de algumas dezenas de funcionários. Não existem outros níveis hierárquicos visíveis, bem como funções de supervisão especializada ou de controle de qualidade.

Entre os chefes de setor predomina aquilo que costuma se chamar o estilo democrático de liderança. Esse fato parece carregar características da relação entre artesão e aprendiz, na qual o chefe, após transmitir o seu conhecimento, passa a atuar como um facilitador dentro do grupo, papel tão raro à contemporânea literatura de barracão. Vale frisar que dentro de cada setor os chefes não possuem espaços físicos privilegiados ou exibem qualquer símbolo de status que permitam, numa primeira observação, identificar sua posição no grupo. A autoridade é reconhecida por sua capacidade na área de atuação.

Aspectos motivacionais, apesar de não explícitos, também podem ser observados. Os responsáveis pelos setores demonstram uma preocupação em recompensar funcionários que revelem interesse e habilidades acima da média. Além da recompensa monetária, uma espécie de grupo de ajudantes próximos, os funcionários de destaque. Com eles, buscam solidificar as capacidades necessárias à elaboração de um desfile de carnaval. Vale salientar que, ao contrário do que poderia a princípio inferir, a dimensão da paixão pela Escola representa um papel quase desprezível na motivação dos funcionários. Muitos declaram, sem constrangimento, torcer por outra escola, pois da Mangueira se formaram e originaram tantas outras escolas, que são assim filhas descendentes da Mangueira. Nos bastidores do samba todos se conhecem, em sua grande estrutura são na verdade uma grande família do samba, aonde alguns chegam até a ser parentes de fato.

"Os diários traem o segredo da produção. Tais textos revelam a hipocrisia institucional. A vivência íntima se encontra em contradição com as suas posições.É algo muito incômodo, e conseqüentemente é preciso negar a contradição existente nele, em nós e em todos. A instituição psicanalista, como todas as demais, funciona à base de segredos e não ditos, revelando e denunciando coisas que não se deve dizer." (Lourau, 1993 p 73)

Sendo o produto final do trabalho do barracão o desfile, a Mangueira, principalmente através da Administração do Barracão, enfatiza a importância da participação dos funcionários nesse produto. Dessa forma, todos desfilam no grande dia compondo a Ala do Barracão, com fantasias cedidas pela Escola.

O processo de comunicação é básica e essencialmente verbal. Ordens, pedidos, instruções e orientações são transmitidas oralmente, inexistindo a figura de circulares internos ou instruções de trabalho escritas. Os únicos papéis manuseados são os esboços e figurinos elaborados pelo Carnavalesco, que funcionam como documentos de entrada para os processos desenvolvidos nos setores.

A comunicação é pontual e específica, estando sempre relacionada à ação. A baixa rigidez hierárquica entre chefe de setor e funcionário torna o canal de comunicação simples e eficaz, dificultando o aparecimento de ruídos.

A função administrativa menos visível no barracão da Mangueira é o controle. Norma de destaque em organizações tradicionais, o controle, seja para padronizar desempenho ou qualidade, para proteger bens organizacionais, para limitar a quantidade de autoridade ou para avaliar e dirigir o desempenho das pessoas, não está explicito no barracão. Este parece, portanto, esconder um grande segredo, tão valioso para aqueles que buscam o desenho de organizações autogerenciáveis.

Consonância com Novos Tempos

Tanto quanto possível, as tarefas são encaradas como projetos, cabendo ao administrador agrupar, a todo o momento, a capacitação necessária, não importando de onde venha. Esse conceito, denominado de parceirização, oposto de forma enfática à terceirização, levaria ao surgimento de organizações virtuais, calcadas numa relação de confiança mútua entre os membros da rede.

A Escola de Samba Mangueira esconde, em seus maltratados espaços de quadra e barracão, sob uma lógica toda particular, soluções naturais de organização do trabalho que parecem situar-se em consonância com esses tempos. Uma espécie de organização virtual e flexível, tem seus recursos agrupados em torno do propósito projeto Desfile de Carnaval, na hora certa, na quantidade necessária. Mantém apenas um núcleo fixo de pessoas e capacitação chave, representadas nas funções de Carnavalesco, Presidente de Escola, Administrador de Barracão e de alguns Chefes de Setor, em torno das quais forma-se uma rede de relações pessoais, acionada no momento necessário. Além de caracterizar-se por uma estrutura que DaMatta (1990) chamou de cometa, na qual ao redor de um núcleo pequeno e permanente forma-se uma grande cauda de agregados temporários, o barracão nos fornece indícios de uma organização holográfica.

A idéia central do holograma é a representação do todo em cada uma das partes, o que permite a esses sistemas sobreviver, mesmo com a perda de alguns dos seus componentes. Certos princípios, como a conectividade e redundância, especialização e generalização simultâneas e capacidade de auto-organização, favorecem sua formação. Segundo Morgan (1996), nessas organizações se encontra a capacidade de aprender a aprender, fundamental nos tempos correntes.

O todo de um desfile de Carnaval está visualizado em cada um dos setores do barracão. Uma vez que recebem os mesmos esboços e figurinos do Carnavalesco, deixam de ter a visão restrita de apenas seu campo de trabalho. Existe uma intensa rede de conectividade entre os setores e a redundância de funções que pode ser observada nas interfaces, não muito bem definidas, entre o Carnavalesco e os demais dirigentes. E apesar do barracão apresentar uma clara departamentalização por produto, está explícita no discurso dos Chefes de Setor uma preocupação de fazer rodar entre os setores o pessoal mais interessado, tornando-os generalistas em barracão.

Sem a imposição rígida de objetivos a serem alcançadas, a escola de samba inventa-se e reinventa-se constantemente, mantendo-se, desta forma, consoante com seu ambiente, sinalizando sua capacidade de auto-organização. É nesse contexto que se revela a cultura brasileira.

A Cultura Brasileira Revelada no Barracão

Recheado de controvérsias, o conceito de cultura tem inúmeras abordagens. Aqui se assume cultura como algo essencialmente interpretativo (Geertz, 1978). Sendo assim

"a análise cultural requer uma sensibilidade que busque discernir padrões de significado e discriminar nuanças de sentido em um contexto socialmente estruturado, inserido em um momento histórico específico" (Thompson, 1994).

A Busca do Sentido

O movimento dinâmico de interpretação proposto pela hermenêutica permite que seja feita uma análise em múltiplos níveis da realidade observada no barracão da Mangueira.

Em um primeiro nível da análise tem-se a realidade como ela é relatada pelos componentes da Escola. Em um segundo nível, tem-se a visão e interpretação da gente que está fazendo a pesquisa, e nem sempre é fiel ao que é relatado pelos membros da Mangueira.

Ainda um outro nível é possível: o da reinterpretação da realidade, por nós, à luz de autores que direcionaram seus esforços na busca do que se denomina brasilidade. A utilização desses três níveis pode ajudar a entender os processos até aqui descritos.

Ser Mangueira é ser Brasileiro Sofredor e Ser Herói Vencedor

Denominado por Mário de Andrade (1986) como uma rapsódia, Macunaíma, escrito em 1928, se insere no contexto modernista de tentativa de interpretação e síntese do Brasil. Conta a saga de um herói nacional, nascido nos confins da Amazônia, que vem ao Sul à procura de um amuleto.

O livro apresenta um país de grandes disparidades, confrontando-se consigo mesmo através da persona síntese de Macunaíma. É o Brasil visto com suas diferenças culturais, com seus diferentes graus de formação - do tribal ao industrial, com suas faces otimista e pessimista. O herói Macunaíma é síntese, pois carrega em si o mito das três raças: um índio negro que se torna branco ao se banhar numa fonte.

Macunaíma tem um inimigo que lhe rouba o amuleto Muiraquitã, a pedra da felicidade: o gigante Venceslau Pietro Pietra, um novo rico, que a guarda em seu museu. O que diferencia Macunaíma de seu opositor não é o caráter e, sim, o fato de que a lógica de Macunaíma é a lógica do desperdício. O herói não acumula nada, ganha e perde repetidas vezes ao longo da narrativa. Venceslau Pietro Pietra, ao contrário, vive no reduto da propriedade.

Macunaíma é o herói ambivalente. Por vezes responsável e corajoso, por outras covarde, irresponsável e mau-caráter. Nasce Deus, pois é filho da mãe e do escuro da noite. Contudo, carrega consigo uma maldição - Macunaíma, nome começado com má, aquele que tem má sina. Ao mesmo tempo é o herói de nossa gente. Está, simultaneamente, além e aquém da sua idade. Recusa-se a falar até os seis anos de idade, mas, ao mesmo tempo, precocemente, põe a mão nas graças das moças (Andrade, 1986). Por não ser produto de uma cultura estável, Macunaíma se caracteriza pela enorme versatilidade e adaptabilidade. Sua potencialidade criativa e alegre é uma de suas maiores vantagens.

Macunaíma é um personagem importante pois carrega em si uma certa tipicidade, na qual os brasileiros podem se reconhecer. Naquilo que Macunaíma é e no que ele faz, identificam-se traços recorrentes da vida brasileira (Wisnik, 1993).

Macunaíma se realiza e se atualiza na cultura brasileira de diferentes formas. O barracão da Mangueira é uma delas. A mais clara refere-se à abundante criatividade e alegria que essa organização traz desde suas origens. A transformação de tecidos e plásticos, a revelação do objeto oculto dentro de cada peça de isopor, assombram pelas formas sempre surpreendentes que ganham na hora do desfile.

E, assim como o herói, no barracão da Mangueira pouco se ouve falar de dinheiro. As escolas têm como objetivo o lucro financeiro, mas não acumulam nada. Na realidade do barracão a lógica do desperdício fica clara. Esculturas, carros, adereços e outros objetos de carnavais passados ficam jogados pelo chão, sem preocupações quanto a sua conservação. Mesmo a vitória no carnaval, a Muiraquitã do Sambista, é efêmera, contraria a lógica do desempenho linear. Hoje se vence, amanhã se perde.

Além disso, nada, por si só, garante tal vitória. Se é necessária uma adequada organização produtiva, ser consagrada campeã também depende de fatores imponderáveis, como a emoção, garra, a sinergia com o público.

O barracão também é ambíguo em sua essência. Ao mesmo tempo em que inova em sua estrutura organizacional, foge no que há de mais tradicional na área financeira de recursos em uma escola de samba que é a patronagem. A Mangueira nunca teve assim um patrono definido, nem indefinido, aquele território é apenas e somente dominado e sustentado pelo samba, pelos recursos angariados pelo samba, e gerenciados pela comunidade constituída Nação Mangueirense e pelo Presidente da Escola e seus súditos fiéis. Seu belo esplendor não está vinculado a toda a sordidez dos escusos negócios do jogo do bicho. Esse vínculo não parece envergonhar nenhum de seus participantes. Muito pelo contrário, sentem-se orgulhosos. "Somos um povo sofrido e batalhador, que sabe vencer honestamente", declara Carlos Cachaça, um dos fundadores da Mangueira. Há mesmo uma certa ironia debochada, macunaímica da condição de não ter condição da Escola e mesmo assim ser a Campeã das Campeãs, pois no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo quando se pensa em uma escola de samba campeã, se pensa logo em Mangueira.

O contraste entre o moderno e o tradicional, preponderante em Macunaíma, se reedita no barracão. A preocupação do setor de almoxarifado, em informatizar suas tabelas, perde sentido quando subtraídas de sua principal função, que é a quantificação financeira de estoques. Talvez seja o mesmo movimento que leva Macunaíma a retornar ao Uraricoera, nos confins da Amazônia, munido de três bens da civilização: um relógio Patek, uma pistola Smith-Wesson e o casal de galinhas Legorne.

De forma lendária o herói da nossa gente retrata a conjunção do público e do privado no Brasil, ou seja, revela o observado por Sérgio Buarque de Holanda (1995) segundo o qual o Brasil não se formou fazendo uma clara distinção entre as duas instâncias, ao contrário de outras sociedades onde a distinção é muito nítida."A conjunção entre o público e o privado no Brasil traduz-se no barracão pela transformação do ambiente de trabalho, ou seja, o espaço da rua, em um espaço familiar: a casa" (DaMatta, 1987). Segue as normas da rua, pois é uma empresa como outra qualquer. As pessoas que lá trabalham tem horários a cumprir e um salário a receber no final do mês. Porém, o ambiente de trabalho, em uma observação mais cuidadosa, desvela-se como uma enorme casa. Na alocação dos espaços, nas formas de relacionamento interpessoal e nas suas normas e procedimentos encentram-se as duas lógicas. E, como já disse anteriormente, nesse mundo relacional, não existem outros critérios que não o parentesco, a simpatia, o charme ou o famoso jeitinho brasileiro para definir as regras de inclusão.

Assim como Macunaíma, uma Escola de Samba é síntese. A manifestação cultural, derivada das classes sociais menos abastadas e reproduzida para milhares de pessoas. Hoje vemos as empresas tradicionais contratando palestras de conhecidos carnavalescos (Joãozinho Trinta proferiu em 1992 a palestra Planejamento e Crescimento do Ser Humano, na Semana da Qualidade da Petrobrás) e até mesmo autores estrangeiros evidenciando o Carnaval carioca como exemplo administrativo a ser seguido (Tom Peters, consultor americano, no livro Rompendo as Barreiras da Administração, afirma que as organizações modernas deveriam parecer-se mais com o carnaval carioca do que com as pirâmides do Egito), após realizarem detalhada análise institucional no Grêmio Recreativo Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Para Concluir

No barracão pode ser observada a característica brasileira de conjunção de elementos contraditórios. Oscila entre o mundo público das leis universais e o privado da família, dos amigos, da casa. Todavia, é possível dizer que a casa é seu ideal, levando-se em conta a importância que as relações pessoais assumem nos seus processos de organização do trabalho.

O barracão vive em constante estado de vir a ser moderno sem, contudo, deixar para trás suas amarras tradicionais. Assim, os modos e discursos pertinentes ao clássico e ao inovador, ao planejado e à criatividade, à racionalização e ao desperdício, à especialização e à versatilidade, à seriedade e à alegria, ao previsível e ao imponderável, ao sonho e à realização, interagem. O tempo é o da realização do sonho, concretamente percebível no desfile, a síntese.

Foi a observação e a análise dos aspectos administrativos daquela instituição que é a família do barracão da Mangueira que permitiram descobrir esses aspectos da cultura brasileira, que lhes constrói um sentido.

É relevante a descoberta porque, à medida que a administração tenta integrar pessoas em um empreendimento comum, não pode prescindir de identificar as teias de significado que seus integrantes tecem.

Afinal, elas estão incorporadas nas ações, nas falas, nos processos e nos produtos, na convivência, no dia a dia daquela comunidade, tão bem integralizada pelos projetos anuais de construção e reconstrução, da mesma conhecida euforia maravilhosa e fantástica do velho e sempre mesmo Carnaval.

Carnaval, essa festa encantadora onde a magia e as fantasias predominam e se repetem, mas a repetição do carnaval é sempre diferente. Um Carnaval nunca é igual a outro que passou.... Cada Carnaval é único, inesquecível e de possibilidades ínfimas de reapresentação. Reconstruir um Carnaval significa reciclar todo um velho carnaval. É ressurgir dos escombros do carnaval que passou. Que o diga o barracão da Mangueira.

Como diz Latour (2002 p.106):

"tem que destruir o anterior e reconstruir o novo, mas não de forma igual, pois para ele no mundo comum da antropologia comparada, as diferenças não existem para serem respeitadas, ignoradas ou subsumidas, mas para servirem de isca aos sentimentos, de alimento para o pensamento."

Tem que pensar. Tem que imaginar. Tem que criar....

Bibliografia

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 23ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.

CAVALCANTE, M. L. V. C. Carnaval Carioca: dos bastidores ao Desfile. Rio de Janeiro: UFRJ/ MinC/ Funarte, 1994.

DaMATTA, Roberto. A casa e a Rua. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

DaMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 25ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.

GEERTZ, C. A interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

HANDY, C. Inside organization. London: BBC, 1990.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

LATOUR, Bruno. Reflexão sobre os Cultos Modernos dos Deuses Fé(i)tiches. Tradução de Sandra Moreira. Bauru: EDUSC, 2002.

LOURAU, René. Lourau em visita a UERJ - Palestra Análise Institucional e Práticas de Pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993. (mimeograado).

MORGAN, G. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 1996.

PETERS, Tom. Rompendo as Barreiras da Administração. São Paulo: Harbra, 1992.

PETERS, Tom. Tempos Loucos Exigem Organizações Malucas. São Paulo: Harbra, 1995

THOMPSON, J. B. Ideology and Modern Culture. Cambridg: Polity Press, 1994.

WISNIK, José Miguel. Mário de Andrade e a Identidade Cultural Brasileira (I Ciclo de Palestras Formação da Sociedade Brasileira, Projeto Tele Educação Embratel). Rio de Janeiro, 3/12/1993.

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