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BATUQUE DE CORDAS NA RODA DO CHORO

Por Tiago Piccoli

 

Os músicos convidados para o Na Roda do Choro do mês de novembro de 2003 foram Cláudio Veiga e Vinicius Corrêa, que formam o duo de violões Batuque de Cordas. Na terça-feira, dia 4, os músicos da Camerata Brasileira se juntaram ao público presente na Sala Luís Cosme da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, pois preferiram reservar suas energias para o próximo Na Roda (dia 02/12), que coincidirá com o Dia Nacional do Samba.

O repertório do Batuque de Cordas (vencedores de duas categorias do Prêmio Açorianos 2003) agregou clássicos do Choro compostos para violão, músicas do disco de estréia da dupla (Batuque de Cordas, lançado em 2002) e arranjos inéditos.

Para começar, três do paulista Dilermando Reis, de sopetão ("Conversa de Baiano", "Bingo" e "Tempo de Criança"), seguidos por "Espia Só", do gaúcho Otávio Dutra. Dentre os clássicos do Choro para violão, também tocaram "Interrogando", de João Pernambuco. O repertório do disco se fez presente com "Imagens", de Vinicius Corrêa, que explicita características de sua paleta composicional, na qual figuram escalas "nordestinas", influências do violão do Sul e uma forma de pensar a música típica do Choro.

A personalidade própria é o ponto forte do Batuque de Cordas. Sem padronizar a interpretação, mas mantendo uma identidade particular, Cláudio e Vinicius conseguem coesão ao unirem suas maneiras individuais de vivenciar o contato com o instrumento. Ambos jogam com o imprevisto com muito bom humor, algumas vezes até provocando-se em diálogos musicais improvisados: algo como uma "irresponsabilidade planejada".

Algumas características da sonoridade do Batuque de Cordas só podem ser percebidas em apresentações totalmente acústicas, como foi esta do Na Roda do Choro. Cláudio geralmente faz os baixos e contracantos, enquanto o discurso musical é liderado pelo violão de Vinicius. Mas aqui reside uma peculiaridade da dupla. Do ponto de vista espacial, o violão de Cláudio fica em primeiro plano, por ter um toque mais "aberto", direcional, enquanto o violão de Vinicius possui um toque mais "fechado". A junção de duas técnicas diferentes aplicadas ao mesmo instrumento resulta nessa condição estética de ênfase na região de graves e médios, que se reverte, por exemplo, quando Cláudio assume o comando da melodia principal (como no arranjo para "Meu Boi Barroso") e o violão de Vinicius sustenta as estruturas harmônicas.

Na segunda metade do recital, os músicos encaixaram uma série de peças com o delicioso sabor das dissonâncias, ao exemplo de "Valsa nº 1", de Baden Powell, "Valsa de Um Só", de Marcos Davi, e uma surpresa: "Taraf", do acordeonista francês Richard Galeano, com uma bela harmonia jazz e um arranjo bem estruturado pelo Batuque de Cordas.

O nome do duo não deixa dúvidas, mas cabe ressaltar seu aspecto rítmico, devido às recorrências aos variados recursos percussivos que o violão pode oferecer. É justamente isto que acontece em abundância em outra música de Corrêa, Batuque de Cordas (que amplia seu campo de influências, com traços da música do cubano Leo Brouwer e do brasileiro Egberto Gismonti), tocada ao final.

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