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UM MERGULHO NAS ÁGUAS DE UMA CABOCLA

Por Kleber de Oliveira Silva

 

"Dentro do mar tem rio/ Dentro de mim tem o quê?" são os versos que abrem a canção "Beira-mar" (Roberto Mendes - Capinam), e apontam o rumo do mais recente álbum duplo de Maria Bethânia, Dentro do mar tem rio, gravado ao vivo no Canecão (Rio de Janeiro), nos dias 17, 18 e 19 de agosto de 2007.

Ao curso das canções, Maria Bethânia responde àquela pergunta valendo-se de excertos literários de escritores brasileiros (João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa) e portugueses (Sophia de Melo Breyner, Álvaro de Campos) e de canções líricas e de protesto, compostas por artistas consagrados (Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Chico Buarque, Chico César) e da safra musical contemporânea (Ana Carolina, Jorge Vercilo, Vanessa da Mata), além de músicas de domínio público ("Pedrinha Miudinha", "Cantigas Populares", "Meu Divino São José") - mistura que é marca da sua produção musical.

Show cujo repertório foi selecionado a partir dos dois álbuns lançados simultaneamente em 2006 (Mar de Sophia e Pirata), Dentro do mar tem rio revela o olhar da cabocla Maria Bethânia, debruçado sobre o mundo que a circunda, denunciando sempre de maneira singela, mas incisiva, as mazelas de um progresso vazio - a exemplo do que ela já fizera no álbum Brasileirinho (2003). A partir do instante em que busca traduzir as águas doces e salgadas do Brasil e de si mesma, Bethânia deixa transparecer o saudosismo e a felicidade de quem nasceu e viveu às margens do rio Subaé, pois "perto de muita água tudo é feliz", de acordo com Guimarães Rosa; e a revolta e indignação daquela que assistiu à morte desse rio e que sofre com as implicações desse fim: "Agora compro uma passagem/ Agora ainda estou aqui/ Agora sinto muita sede" ("Agora", de Tony Bellotto, Charles Gavin, Branco Mello, Nando Reis, Marcelo Fromer, Paulo Miklos, Sérgio Brito e Arnaldo Antunes).

Neste álbum, percebemos que Maria Bethânia, quanto mais baixo grita, mais forte discursa. Se em 1965 (início da ditadura militar) ela gritava em "Eu vivo num tempo de guerra", de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, hoje ela discursa "Se me der a folha certa/ E eu cantar como aprendi/ Vou livrar a Terra inteira/ De tudo que é ruim" ("Kirimurê", de Jota Velloso); se no show Opinião ela dramatizava "Carcará pega mata e come" ("Carcará", de João do Vale e José Cândido), neste disco é a "Asa Branca" de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que denuncia a ausência de água. É o compromisso daquela que tão bem sabe unir o protesto e o lírico, sem abrir mão da palavra interpretada.

O Rio de Janeiro, lugar de grande beleza natural, também é referido pela cantora. Partindo de "O Nome da Cidade", de Caetano Veloso, até chegar ao "Sábado em Copacabana", de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, Maria Bethânia discorre sobre a primeira impressão do caboclo que chega ao Rio de Janeiro e percebe as contradições de uma cidade banhada pelas águas, mas que vivencia os mesmos problemas de uma terra seca, ou seja, sem vida: "O Redentor que horror, que lindo/ Meninos maus, mulheres nuas/ Ôôôô êh boi êh bus/ (...) Sertão ê mar" ("O Nome da Cidade"). O canto do sertanejo já não chama pela boiada, mas pelos ônibus das grandes cidades, metaforizando o deslocamento do interiorano, que, fascinado pelo desenvolvimento das metrópoles, deixa o seu rancho estigmatizado pela seca. A partir dessa leitura, nos vem à mente a trajetória de Severino, o retirante de Morte e vida severina, de João Cabral, que sai da sua terra, almejando uma vida menos agreste na cidade grande, mas que encontra na metrópole problemas semelhantes aos da sua terra. Nessa canção, percebemos outra contradição do Rio de Janeiro, que a carrega no seu próprio topônimo: Rio, uma cidade que possui mais mar que rio: "Cheguei ao nome da cidade/ (...) Rio que não é rio: imagens/ (...) Este rio é mais mar que o mar?".

Passada a primeira impressão, o olhar do caboclo agora se volta para os encantos cariocas e logo se imagina "Um bom lugar para encontrar: Copacabana/ Pra passear à beira-mar: Copacabana" ("Sábado em Copacabana"). A mesma cidade sendo interpretada por visões distintas.

O verso "Eu que não sei quase nada do mar" intitula uma das canções líricas do álbum. Composta por Ana Carolina e Jorge Vercilo, a canção trata do relacionamento amoroso de um casal, com passagens que beiram a sensualidade dos parceiros. O eu lírico (feminino) descreve a sua relação, empregando vocábulos e expressões referentes ao mar: "E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer/ Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio/ Não vou esquecer". O mar é a metáfora da relação amorosa, marcada por oscilações, calmaria, marés baixas e altas. Notamos que, independente da situação, o eu lírico permanecerá sempre ao lado e buscando ajuda da pessoa amada: "Me agarrei em seus cabelos/ Sua boca quente pra não me afogar/ Tua língua correnteza lambe minhas pernas/ Como faz o mar". Também percebemos a semelhança entre os parceiros, que se vêem refletidos um no outro, nesse espelho d'água que é a relação: "Clara noite rara nos levando além da arrebentação/ Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão".

E, ao longo desse percurso pelas águas doces e salgadas, Bethânia pede proteção a entidades dos cultos afro-brasileiros - Iemanjá (rainha das águas salgadas), Oxum (rainha das doces), Iansã (dona do raio e do vento) e Nanã (orixá ancião, responsável pelo início de tudo) - e do catolicismo - São Francisco, São José e Santo Amaro. Essa junção de ícones religiosos caracteriza a formação sincrética da própria cantora, que os roga para proteger "O Marujo Português" (Linhares Barbosa - Artur Ribeiro), os velhos marinheiros do mar da Bahia (citados em "Memórias do Mar", de Vevé Calazans e Jorge Portugal) e aqueles que têm a metade da alma feita de maresia (uma alusão ao texto de Sophia de Mello Breyner "Mar, metade de minha alma é feita de maresia").

Cantora que prima pela intertextualidade do repertório, Maria Bethânia no segundo ato (cada um destes discos é chamado de "ato") constrói uma série a partir do texto "Amor é sede depois de se ter bem bebido" (Guimarães Rosa), que introduz a canção "A saudade mata a gente" (João de Barro - Antônio Almeida), passa por "Gostoso demais" (Dominguinhos - Nando Cordel) e "Você" (Erasmo Carlos - Roberto Carlos) até "Sob Medida" (Chico Buarque). Um mergulho nas profundezas das águas, que paulatinamente vai se distanciando e chegando à superfície, para logo após voltar ao fundo do mar e recuperar as "Memórias das águas", de Roberto Mendes e Jorge Portugal, e "O Rio", texto de João Cabral.

Ao chamar escritores portugueses e brasileiros para o mesmo barco, a fim de navegar por mares nunca dantes navegados, parafraseando o poeta Camões, Bethânia quebra as barreiras românticas que separam as literaturas por nacionalidades, ao interpretar o texto "Poesia (Poetas Populares)", de Antonio Vieira: "A nossa poesia é uma só/ Eu não vejo razão pra separar/ Todo o conhecimento que está cá/ Foi trazido dentro de um só mocó". O texto chama atenção para a importância do ensino e da leitura das poesias dos poetas populares nas escolas, a fim de levar os estudantes a valorizar as temáticas singelas desses escritores e, por conseguinte, da própria vida: "A escola devia ensinar/ Pro aluno não me achar um bobo/ Sem saber que os nomes que eu louvo/ São vates de muitas qualidades". Pura cidadania, sobretudo, pelos versos da canção "Filosofia pura", de Roberto Mendes e Jorge Portugal, cantados a seguir: "Pois trocar vida com vida é somar na dividida/ Multiplicando o amor". É o desejo daquela que se propõe a enfatizar a formação daqueles que serão responsáveis pela construção de um mundo melhor.

Mais adiante, dando continuidade às interpretações de textos literários e direcionando sua ótica para o protesto, Bethânia dramatiza "Ultimatum" (1917), de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa). É o discurso de quem anseia por mudanças e observa a reacionária conduta brasileira, enfatizando a suposta descoberta do novo mundo: "Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir (...)/ O mundo tem sede de que se crie/ O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. (...)/ Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!/ Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um novo mundo." Ao dramatizar essa poesia, Bethânia ressalta a necessidade de mudar determinados comportamentos dos brasileiros, criticando aqueles que passivamente assistem ao fim do país, submetem-se aos "aristocratas de tanga de ouro", "frouxos" e "radicais do pouco" e servirão de "estrume para o futuro". Uma nação de "socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhador/ Para quererem deixar de trabalhar", numa referência menos velada ao atual governo, em quem, aliás, votou.

Concluindo o segundo ato, Maria Bethânia cita o carnaval, entoando a marcha "Alá-lá-ô" (Haroldo Lobo - Nássara) e o "Frevo molhado" (Jaime Alem), depois de ter cantado "Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite", de David Côrrea e Jorge Macedo, mostrando que a água também se faz presente em instantes de felicidade como aquele - retomando a citação de Guimarães Rosa, "Perto de muita água tudo é feliz".

Ao fim e ao cabo desse encontro entre mar e rio, percebemos os nossos sentimentos banhados pelas águas da cabocla Bethânia. A voz da senhora de engenho sempre nos relava e soa como flecha ardente, entoando os sentimentos mais profundos emanados das águas e denunciando aqueles que desejam pôr fim a essa força, que, na voz de Bethânia, nunca seca.

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