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BANHO DE SOPA - Barrosinho&Maracatamba

Por Luciano Ribeiro

 

O trompetista Barrosinho vem, aos poucos, tendo reconhecida parte de sua importância graças ao cuidadoso trabalho de produtores como Roberto de Moura, do recém-criado selo Kalimba, que, com este Banho de Sopa, lança o terceiro álbum do músico em apenas dois anos. Co-fundador da saudosa Banda Black Rio, começou na década de 80 a desenvolver pesquisas musicais com ritmos brasileiros somados a influências jazzísticas, as quais denominou maracatamba. Barrosinho costuma rasgar as harmonias com seu trompete ímpar e passeia com intimidade por gafieiras: chorinho, samba e bossas. Ed Mota já o comparou ao saxofonista (tenor e soprano) John Coltrane e este disco vem, mais uma vez, atestar tal associação. Como o Coltrane desconstrutor de "My favorite things", Barrosinho parece investigar ritmos e propor novas visões para clássicos, numa eterna busca pela liberdade de improvisação. É o que ele faz, por exemplo, com "Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso. Amparado pela repetição funkeada do baixo elétrico, Barrosinho desfia sua usina de idéias, revirando pelo o avesso o delicioso samba. Com técnica surpreendente, ele cria ótimas idéias melódicas e fica evidente, que, apesar de ter escolhido o trompete, tem domínio absoluto das harmonias, mesmo as mais intrincadas. "Costumo buscar no piano e na guitarra o senso harmônico de cada canção. Esta é a melhor forma para desenvolver as minhas impressões jazzísticas", conta.

E todas elas estão bem evidentes neste terceiro álbum. Seja na reconstrução que faz do standard "Cherokee" à lírica "Banho de Sopa", passando pela suingada "Bom Dia Johnny Alf", em homenagem a um dos precursores da bossa nova, e na deliciosa "Gosto que me enrosco" de Sinhô.

Barrosinho consegue fazer música moderna, faz a ponte entre o bebop nova-iorquino e a progressividade pop criada por Miles Davis, engrossando o caldo com temperos brasileiros. São 10 faixas em que ele apresenta o maracatamba, cita as melodias e cai dentro em longos improvisos de idéias bem articuladas. Vale ressaltar ainda um fato curioso, que aconteceu recentemente na edição carioca do Chivas Jazz Festival. Convidado para uma participação no show do amigo Dom Salvador, com quem tocou no grupo Abolição, Barrosinho apareceu nas duas últimas músicas da apresentação, e reviveu a época do Grupo Abolição do pianista radicado há mais de duas décadas nos EUA. A repercussão entre os presentes foi tanta que o produtor Toy Lima foi obrigado a mandá-lo para tocar na edição paulista do evento. "Barrosinho ia tocar só no Rio, mas depois do que ele fez seria loucura privar o público paulista de sua impressionante participação", conta Toy.

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