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CADÊ O SAMBA QUE TAVA AQUI?

Por Felipe Azevedo



"Na música o Brasil não destrói o passado.
Ao contrário ele irrompe, espontaneamente,
e se reconstrói todos os dias.
"
(Leonel Kaz)

"BUM BUM PATICUMBUMPRUGURUNDUM"... Ismael (Silva) cantou e Sergio Cabral entendeu - isto é samba, não é maxixe.

Terá tido, em algum momento da saga mestiça da cultura musical brasileira, algo que comprove que este ritmo veio da África e aqui se estabeleceu magicamente, intocável e irretocável, passando oralmente, ou pelas mãos de tamboreiros, de geração a geração intacto?

Mário de Andrade considerava ser o maxixe originário da polca, habanera e do lundu. Samba, por sua vez, entre os descendentes de africanos era termo que continuava com a significação do quimbundo: reza, oração. Samba e Maxixe, portanto, não teriam relação de descendência um do outro. O Maxixe é ligado ao Samba pela família do lundu, por sua vez filho do batuque africano, pai legítimo do Samba.

Kazadi Wa Mukuna, em seu livro Contribuição Bantu na Música Popular Brasileira, afirma: "...a origem do samba e a data da sua introdução no cenário da música brasileira têm levantado momentos controversos entre os estudiosos... Apesar das controvérsias, há um ponto de convergência a respeito da inegável herança africana encaixada dentro desta forma musical".

Nei Lopes, no seu Sambeabá, já nas primeiras páginas escreve: "...Buscando comprovar essa origem africana do samba - nome que aqui, tomado em sua acepção inicial, define várias danças brasileiras e a música que acompanha cada uma delas-, veremos que o termo foi corrente também no Prata como Samba ou Semba.... Responsáveis, então pela introdução no continente americano, de múltiplos instrumentos musicais, como a cuíca ou puíta, berimbau, ganzá, reco-reco... foram certamente africanos do grande grupo etnolingüístico Banto que legaram à música brasileira as bases do samba e o amplo leque de manifestações que lhe são afins".

Câmara Cascudo no seu Made In Africa também escreve: "Que significará Samba em Angola? Samba é nome próprio, divulgadíssimo na toponímia de Angola: Samba, povoação no sobado de Calumbu, Quilende; Samba em Caculo-Cabango, Muxima; Samba em Huí-iá-Cava, Ambaca, Samba em Senze..."

Entretanto para transformar este gostoso debate num bom Samba de terreiro surgiu um etnomusicólogo brasileiro de nome Carlos Sandroni que, ao fazer uma varredura, uma assepsia no tema levantou algumas questões pertinentes: "...Assim, mesmo se a noção de síncope inexiste na música africana (a síncope é uma medição ocidental - explicamos), é por síncopes que, no Brasil, elementos desta última vieram a se manifestar na música escrita; ou, se preferirmos, é por síncopes que a música escrita fez alusões ao que há de AFRICANO em nossa música de tradição oral. É nesse sentido, E SÓ NESSE, que tinham razão os que afirmavam que a origem da síncope brasileira estava na África".

Sandroni, usando termos como cometricidade e contrametricidade, aos poucos, em cada capítulo do seu livro Feitiço Decente, vai explicando os lugares comuns da lógica musical africana na música brasileira, principalmente em ritmos de tradição oral como Coco, Maracatu e manifestações afro-religiosas (vide transcrições em partituras no livro de Reginaldo Gil Braga, Batuque Jejê-Ijexá em Porto Alegre, como exemplo também), incluindo é claro o Samba.

Apenas para uma pequena constatação. Experimente o leitor deste texto assistir a um ensaio de uma bateria de escola de Samba. Atente para os vários e variados instrumentos de percussão que a compõem. Em seguida preste atenção, concentre-se nas linhas rítmicas, ou conduções que cada um destes grupos de instrumentos desenvolve: tamborins, maracanãs, agogôs, caixas, repiniques... e por último, perceba as variações que eles vão construindo dentro de uma base rítmica geral que funciona como um pivô, onde todos estes instrumentos gravitam, com uma margem de improvisação e levadas. A partir daqui reflita na rítmica oral do Ismael citada no início deste texto e experimente escutar uma gravação de músicos africanos tocando seus tambores, djembés etc...A música meu amigo falará por si só.

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