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COMO ROTULAR A CAMERATA BRASILEIRA?

Por Fabio Gomes

 

Ao final de um dos shows que fez no Teatro do SESC (Porto Alegre) nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro de 2008, a Camerata Brasileira voltou ao palco a pedido da platéia. O violonista Moysés Lopes anunciou que o bis seria "Descendo a Serra" (Pixinguinha - Benedito Lacerda), a ser tocada como um "choro clássico", acrescentando que a Camerata iniciou com uma formação típica de grupo de choro (2 violões, cavaquinho, bandolim e pandeiro), mas que "hoje tá difícil rotular o que é o nosso som". Em seguida, ouviu-se uma primorosa execução do choro, com Moysés ao violão, Rafael Ferrari ao bandolim, Rodrigo Siervo à flauta e Edgar Araújo ao pandeiro. Isso foi no sábado, 16; no domingo, 17, o bis também foi "Descendo a Serra" (OBS: clique no nome de cada música para assisti-la em vídeo) e a execução foi igualmente primorosa, o que não se repetiu foi a frase sobre "rótulo".

(Sim, eu fui nos dois dias, afinal acompanho a trajetória do grupo desde o começo e sempre achei que que jamais um show da Camerata seria igual ao outro, mesmo em dois dias consecutivos; em algum momento eu teria que comprovar a tese, né!)

Não é de estranhar que o próprio Moysés não consiga rotular o som do seu grupo: no começo do show, predomina a execução tradicional das músicas, que cede lugar gradualmente a boas doses de experimentalismo; este desaparece no encerramento, com o bis sendo executado de maneira tradicional. Teríamos aqui então a conhecida "estrutura circular", tão utilizada pelo cinema de Hollywood (o final sendo igual ou muito parecido com o começo), não fosse o número de abertura: um solo de Ferrari, intitulado "Sensação" quando tocado apenas com bandolim, e "Improviso" quando o músico adicionou o efeito de um pedal de delay - o que, com certeza, não é nada tradicional no choro! (Pra quem não sabe, o delay é um efeito que repete o que está sendo tocado, com defasagem de alguns segundos; em outras palavras, um "eco atrasado".) Bem que o próprio Ferrari avisou logo no comecinho do show de sábado: nos ensaios da Camerata há muita disciplina, os shows são mais soltos.

Mas talvez a idéia inicial da Camerata fosse mesmo ir deixando o som mais experimental no decorrer do show: foi só na tarde da sexta (sim, o dia da estréia do show!) que Ferrari decidiu usar o delay. No sábado, houve um certo imprevisto na hora do "Improviso" - o delay não silenciava após quatro segundos, como fora programado, e ficava se repetindo, dando mais a impressão de ser um loop (efeito que repete indefinidamente uma mesma seqüência sonora). Foi preciso que Ferrari parasse momentaneamente de tocar para se abaixar e desligar o delay, para se passar ao número seguinte, a valsa "Menino Hamilton" (Rafael Ferrari - Rafael Mallmith), uma homenagem a Hamilton de Holanda, interpretada por Moysés e Ferrari. (No domingo, Ferrari conseguiu ter um maior controle sobre o delay, de modo que quando Moysés começou a valsa, parecia ser uma música que continuava e não uma nova que se iniciava. A platéia do domingo considerou que tudo até ali era um número só, pois só aplaudiu ao final da valsa). Completou-se então o grupo no palco - Edgar ocupou seu lugar na bateria, Rodrigo chegou com o saxofone -, dando seqüência a este set mais tradicional, com excelentes execuções de "Brasileiro" (do recém-homenageado Hamilton de Holanda) e de duas músicas de Ferrari, o baião "Pra Vocês" e a faixa-título do segundo CD do grupo, "Noves Fora". Mesmo que esse momento do show possa ser apontado como "mais tradicional", na parte final de cada música a execução já dava pistas (sutis) do que estava por vir.

Após o final de "Noves Fora", Moysés e Ferrari deixam o palco, para que Rodrigo no sax e Edgar à bateria comecem a tocar "Hermeteando" (música da Camerata, a partir de fragmentos de "O Ovo", de Hermeto Paschoal). Rodrigo usa também o delay (o dele funcionou bem nos dois dias) para fazer uns "grooves vocais", que alterna com o toque do sax, ora melodioso, ora rascante. Os acordes mais harmônicos vão dando lugar a sons aleatórios, coincidindo com o momento que Edgar empunha uma cuíca e aproxima-se de Rodrigo no centro do tablado. No sábado, nesse momento Ferrari voltou ao palco com a flauta, utilizando um dos microfones da bateria para emitir alguns sons também aleatórios (afinal, Ferrari toca muitos instrumentos, mas a flauta não é um deles...) e sair novamente, permitindo o retorno de Edgar a seu posto para o encerramento da música.

Com a volta de Moysés e Ferrari ao palco, está tudo pronto para aquele que eu considero o grande momento do show, de certo modo a sua síntese: "Assanhado", de Jacob do Bandolim. Quem tinha ouvido esse choro na comportada performance do grupo no programa Estúdio 36 (TV Com, Porto Alegre) na quarta, 13 de fevereiro (em que, sem a bateria, Edgar tocou cajón com vassourinhas) e esperou algo parecido, com certeza ficou muito surpreso. De início, a Camerata realmente fez uma levada tradicional, com algumas inovações aqui e ali, junto a algumas expressões faciais e poucos movimentos dos músicos passando uma impressão de que algo não estaria indo bem. De repente, Moysés, até então em seu lugar à direita do palco, larga o violão e, parecendo estar furioso, se dirige a um microfone que está à esquerda, perto da bateria, no qual emite sons incompreensíveis, gesticulando muito. Era como se as leves alterações que os colegas (especialmente Ferrari) estariam fazendo na melodia o incomodassem. Pouco depois, porém, ele retoma seu lugar e seu violão e segue tocando, com uma que outra leve careta dando a idéia de que ainda não estava convencido de que o arranjo devia ser aquele. (Claro que a surpresa foi maior pra mim no sábado, primeiro porque eu não esperava a "explosão" de Moysés, segundo porque nesse dia ele realmente parecia estar furioso, ficando com o rosto muito vermelho e as veias do pescoço saltadas, além de ter reforçado a expressão do incômodo que sentia jogando-se de joelhos no palco. No domingo, o impacto pra mim foi menor porque eu já esperava a cena, mas nesse dia o violonista foi mesmo mais comedido). Após alguns compassos de sons aleatórios, foi a vez de Edgar chamar a atenção para si, fazendo um solo de bateria de três minutos (ao menos no domingo). Findo este solo, a Camerata encerrou a música num estilo bem choro-tradicional, como se nada de mais tivesse acontecido.

A mistura de tradição e inovação deu a tônica da seqüência do show, com "Cochichando" (creditada no CD Noves Fora como "reflexões da Camerata Brasileira sobre 'Cochichando' de Pixinguinha"), a seleção de músicas de Baden Powell e Vinicius de Moraes ("Berimbau", "O Astronauta" e "Formosa") e "Tumaracá" (Camerata). Na primeira, em dado momento Moysés simula receber um telefonema - o toque do seu celular é "Ó Abre Alas" (Chiquinha Gonzaga)... - e, usando novamente os sons incompreensíveis, pede para que Ferrari e Rodrigo se aproximem para ouvirem o toque outras vezes (no sábado, os três dividiram o microfone de Rodrigo, num estilo banda pop, para fazerem um vocalise de "Ó Abre Alas"). Já na última, um "maracatu gaúcho" que o grupo criou quando esteve no Recife em maio de 2006 gravando Noves Fora, destaco o "solo duplo" de bandolim e bateria, em que Edgar chegou a tocar só com uma baqueta na mão direita, percutindo peças da bateria diretamente com a esquerda (no domingo, Moysés e Rodrigo aproveitaram esse momento para fazer algumas dancinhas no canto direito do palco). Em seguida, fechou-se o espetáculo com a "volta à tradição" representada pelo "Descendo a Serra", que motivou a declaração de Moysés no sábado de não saber se o rótulo "choro" ainda dá conta de definir o som da Camerata.

Eu acredito que, sim, a Camerata segue sendo um grupo de choro. Pode até não ser um choro no sentido restrito - aquele estilo de "Fulano e seu regional", em que só o solista brilha, sendo os demais meros acompanhantes (o que, a bem da verdade, a Camerata jamais foi), e em que, como se recorre sempre a uma estrutura musical já consolidada, as músicas se parecem muito umas com as outras. Nunca é demais lembrar: o choro surgiu como uma forma de tocar músicas de gêneros os mais variados, com grande liberdade; aos poucos, determinadas características dessa interpretação se cristalizaram e o choro passou a ser considerado um gênero à parte. Pensando em choro num sentido amplo, sua essência, portanto, estaria na liberdade com o que o músico trata o material executado e não na obediência a um modelo (o que seria a própria negação da liberdade). Eu vejo a Camerata como um grupo de choro no sentido amplo.

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