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CAMERATA BRASILEIRA: ENTROSADA E INQUIETA

Por Fabio Gomes

 

A Camerata Brasileira procurou valorizar a prata da casa na edição de julho de 2003 da série Na Roda do Choro, no dia 1º, na Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre – RS). O grande destaque da noite foram as composições de integrantes do próprio grupo: “Minha Vida” (Rafael Ferrari), “Deixa Assim” (Rafael Mallmith), “Sol e Lua” (Luís Barcelos) e “Hamiltando” (Rafael Ferrari - Luís Barcelos - Rafael Mallmith) - este, aliás, um curioso caso de choro com três autores. Dois autores em choro já é raro, o que dirá três! É mais uma prova do crescente entrosamento dos chorões.

Entrosados e inquietos: eles estão sempre mexendo nos arranjos. O “Um a Zero” (Pixinguinha) já não está mais no estilo carrossel holandês. Agora (ao menos nesse dia, de lá pra cá os cidadãos já podem ter mudado de novo!) o clássico inicia com um diálogo do bandolim de Ferrari com o violão de 7 de Mallmith. Os dois entram no tema, seguidos pelos outros. O pandeiro de Ânderson Balbueno marca forte cada breque, que assinala o aumento da intensidade de todos, enquanto Ferrari volta a fazer com o bandolim as voltinhas que Pixinguinha fazia no saxofone. Em seguida, Luís Barcelos sola no cavaquinho em alta velocidade, modulando para cima, depois do que ocorrem várias modulações para baixo, aceleradas e ralentandos. Ah, por algum motivo que desconheço, os músicos pararam de comemorar o gol.

Já ouvir “Noites Cariocas” (Jacob do Bandolim) com a Camerata é sempre um prazer renovado. Nesse dia, o grupo improvisou na terceira parte, com o violão de 7 fazendo uma base segura para o brilho do bandolim num tom altíssimo, fechando com uma modulação que lembra muito a gravação de Jacob e o Conjunto Época de Ouro no histórico LP Vibrações (RCA, 1967).

O grupo a cada apresentação demonstra que está maduro para o primeiro CD – que, por sinal, está a caminho. Além dos números citados, foram tocados os choros “Vê se Gostas” (Waldir Azevedo - Otaviano Pitanga), “Pedacinhos do Céu” (Waldir Azevedo), “Cadência” (Juventino Maciel), e, de Jacob do Bandolim, “Benzinho” e “Santa Morena” (neste, Luís tocou com tanto entusiasmo que chegou a palhetar o tampo do cavaquinho!). Só ficou um gostinho de “quero mais” em relação a algumas músicas de Tom Jobim que rolaram antes do início “pra valer” da roda – além de “Luíza”, que já sabíamos que Moysés Lopes toca maravilhosamente em seu violão de 6, surpreendeu a leveza e a saltitância que Ferrari imprimiu ao “Samba de uma Nota Só” (Tom – Newton Mendonça). Fico esperando a inclusão deste clássico da bossa nova no repertório “oficial” do grupo.

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