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CAROLINA - CORES CLÁSSICAS

Por Fabio Gomes

 

Cores Clássicas é o projeto que a jovem cantora Carolina, 24 anos, vem desenvolvendo na noite porto-alegrense com seu trio (ela própria na voz e no violão, Alexandre Vieira no baixo e Robson Serafini ao teclado), relendo pérolas da música brasileira e do rock. Relendo, e não fazendo “covers”, é importante frisar. Carolina não imita ninguém.

Na apresentação que o trio fez no Café Concerto SESC (Porto Alegre – RS) em 8 de agosto de 2003, Carolina dedicou mais tempo ao repertório brasileiro, deixando os clássicos roqueiros para o final. A platéia pôde se maravilhar com suas interpretações de “Onde Anda Você” (Hermano Silva - Vinicius de Moraes), do bolero “Que Será” (Marino Pinto – Mário Rossi), em que ela já inicia num tom relativamente alto, que sustentou o tempo todo, e do samba “Isto Aqui o que É” (Ary Barroso), no qual colocou o ritmo no violão e na voz a partir da segunda parte (“Morena boa que me faz penar...”), fechando com um longo final instrumental. Por sinal, o trio curte esse tipo de final à la Paralamas do Sucesso, também utilizado em “A Noite do Meu Bem” (Dolores Duran)(Carolina começou num tom alto, desenvolvendo depois a canção num tom mais baixo), “Bem Leve” (Marisa Monte – Arnaldo Antunes), no incrível pot-pourri “Come Together”/“The Wall”/“Ando Meio Desligado” e em “Thank You” (do Led Zeppelin). Utilizar este tipo de final demonstra um ótimo entrosamento do conjunto. O violão de Carolina exibe um toque preciso, limpo e com sutilezas, numa perfeita integração do ritmo com a melodia. Em “Thank You”, ela conseguiu lembrar o Jorge Ben do início dos anos 70 no dedilhado em arpejos oitavados, dialogando com o teclado sobre a base do baixo. Alexandre emprega o recurso de bater com a unha do polegar direito nas cordas mais graves do baixo em algumas músicas (uma delas, a já citada “Bem Leve”). Robson faz mais a base do acompanhamento ao teclado, mas aqui e ali se destaca por boas intervenções (como em “Thank You” e no mencionado pot-pourri “Come Together”/“The Wall”/“Ando Meio Desligado”).

Este pot-pourri é uma das peças de resistência do repertório do trio – resistência em vários sentidos, basta dizer que ele dura em torno de 15 minutos! Cada uma dessas músicas, sozinhas, já seria um número de respeito, juntas então é quase um exagero. A ordem das músicas pode variar (“Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, pode ser a primeira), o que não varia é a qualidade da interpretação. Neste dia, por exemplo, o trio fez “Ando Meio Desligado” numa levada caribenha, com Carolina já cantando alto, retomando “Come Together” com uma intensificação progressiva do ritmo, no rumo de um fortíssimo que foi suavizado no retorno a “Ando...”, em que a cantora colocou seus mais belos sustenidos.

Jovem e experiente (toca violão há 7 anos e já integrou a banda Chá de Camomila), ela não se acanha em eventuais tropeços, como no início de “Falando de Amor” (Tom Jobim), em que acertou o tom já no segundo verso, seguindo impávida para atingir um resultado belíssimo no final do choro, espaçando os acordes.

A voz de Carolina é sempre suave, mesmo nas passagens mais fortes dos rocks. Nas músicas em inglês, ela atinge um bom resultado dramático, enquanto em português impera uma delicadeza que impede as dores-de-cotovelo do repertório resvalarem para o dramalhão. Seu canto consegue criar um clima de paz no ambiente, que faz com que nos sintamos melhores por estar compartilhando de sua arte.

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