Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

"BRASILEIRINHO" - O CHORO

Por Fabio Gomes

 

O choro "Brasileirinho" foi composto em 1947 por Waldir Azevedo (1923-1980), a pedido de seu sobrinho de 10 anos, que queria que o tio tocasse para ele. Waldir resistiu, alegando que em casa só tinha um cavaquinho com uma corda - o cavaquinho bom estava na Rádio Clube do Brasil (Rio de Janeiro), onde desde 1945 ele tocava no regional do violonista Dilermando Reis -, mas acabou cedendo. Em função disso, o início da composição é todo tocado apenas na corda ré. Foi a primeira música feita por Waldir.

Pouco depois, Dilermando afastou-se da emissora, passando então Waldir a comandar o grupo. Tornou-se assim um dos primeiros, se não o primeiro, cavaquinistas a serem líderes de grupo, tirando o cavaco do eterno papel de coadjuvante e alçando-o ao primeiro plano no choro.

Em maio de 1949, o diretor da gravadora Continental, João de Barro, estava preocupadíssimo: Jacob do Bandolim fora contratado pela RCA Victor e era necessário conseguir um bom regional para dar uma resposta à altura. O técnico Norival Reis sugeriu o conjunto de Waldir, que continuava se apresentava na Rádio Clube - por sinal, no mesmo prédio em que ficava a gravadora... Seu ex-patrão Dilermando avalizou a indicação. Não só Waldir e seu grupo foram bem recomendados: a dupla de Reis (Norival e Dilermando) disse a João de Barro que o novo contratado tinha "um Choro ligeiro com algo especial" (conforme relata Henrique Cazes em Choro: Do Quintal ao Municipal, Ed. 34, 1998). Naturalmente, era "Brasileirinho", que ele já vinha tocando no rádio e foi seu primeiro disco. A gravação obteve grande sucesso, que permitiu a Waldir comprar um apartamento à vista apenas com a arrecadação dos direitos autorais, fato raro em música brasileira.

Em 1950, como a cantora Ademilde Fonseca queria gravar a composição, Pereira da Costa escreveu a letra. Acompanhando a maior intérprete do choro cantado, o próprio regional de Waldir. O autor voltaria a registrar seu maior sucesso no LP Gente do Choro (1978).

De acordo com Ary Vasconcelos no livro Carinhoso Etc. - História e Inventário do Choro (edição do autor, 1984), "Brasileirinho" teve 17 gravações instrumentais até 1978 (Vasconcelos não relaciona as gravações cantadas), por intérpretes como Chiquinho do Acordeon (1950), Altamiro Carrilho (várias, a primeira em 1972), Rosinha de Valença (1975), e, no exterior, Artie Ryerson com Percy Faith e sua orquestra (EUA, 1958) - o disco, Álbum Columbia de Música Brasileira, vendeu mais de um milhão de cópias e tinha ainda o baião "Delicado", também de Waldir. Ao longo dos anos, novas versões se somaram às antigas. As mais recentes incluem distorção em bandolim elétrico (Pepeu Gomes, no LP Instrumental on the Road, WEA, 1989), a retomada do arranjo original com poucas modificações (Roberto Barbosa, o "Canhotinho", CD coletânea Chorinhos de Ouro, CID) ou uma curiosa versão dance do DJ Christian Labra, com adição de batidas eletrônicas e a voz de uma moça dizendo "Brasileirinho" de quando em quando. Embora dance, a versão de Labra mantém a melodia original com poucas alterações. Chama a atenção no seu arranjo um som sampleado, repetido vááááárias vezes, que deveria lembrar um cavaquinho e parece um banjo acordando.

Além de ser um marco na carreira do autor, proporcionando a Waldir e seu grupo excursionarem por vários países, inclusive em duas Caravanas da Música Popular Brasileira, "Brasileirinho" geralmente é o número reservado ao encerramento em grande estilo dos espetáculos de choro. Sem contar que recebeu uma homenagem inusitada para uma música: seus 30 anos de sucesso mereceram um show no Teatro Municipal de São Paulo reunindo Waldir, Paulinho da Viola, Ademilde Fonseca e Paulo Moura em novembro de 1979.

Numa votação realizada para apontar as melhores músicas do século XX, numa promoção da TV Globo que resultou no programa 100 Anos de Música, "Brasileirinho" ficou em 14º lugar, sendo interpretada por Elza Soares e Baby do Brasil com orquestra regida por Edson Frederico no 2º programa, exibido em 29/12/1999.

Copyright © 2004. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais.