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CHORANDO PARA ZERAR A FOME

Por Fabio Gomes

 

O programa Fome Zero tem gerado uma série de eventos de apoio, entre eles o Usina – Mobilização e Arte (Usina do Gasômetro – Porto Alegre), no dia 3 de agosto de 2003, envolvendo várias manifestações artísticas. Entre elas, uma roda de choro em que o grande destaque foi a estréia mundial (os antigos diriam “primeira audição”) do arranjo de Rafael Ferrari para “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro). O bandolinista da Camerata Brasileira dedicou o arranjo a seu professor Luís Machado, do Grupo Reminiscências, presente na platéia.

Ferrari misturou procedimentos tradicionais e modernos de interpretação no “Carinhoso”. Chama a atenção o bom uso de escala em oitavas nos trêmolos dele ao bandolim e de Luís Barcelos ao cavaquinho, com boa cadência, quando a melodia modula (na parte “Ah, se tu soubesses...”) e, quase ao final, uma breve citação de “Rosa” (Pixinguinha). Ferrari teve ainda atuação destacada nos melhores momentos desta participação da Camerata: no “Um a Zero” (Pixinguinha)(em que o grupo esteve primoroso, com ótimos improvisos), imitou uma cuíca ao bandolim, bem no início; já em “Santa Morena” (Jacob do Bandolim)(com Olé! e tudo), esteve bem no solo de acordes quadrados, em que tocou bandolim como se fosse banjo – sem contar que seu choro “Minha Vida” também foi um dos pontos altos da tarde.

Na seqüência, o grupo Acordes e Cordas (ex-Vou Vivendo), formado por Luís Palmeira (violão de 7), Guaraci Gomes (bandolim), Chico Pedroso (cavaquinho) e Valtinho (pandeiro), veio comprovar a tese de que o choro, antes de ser um gênero de composição, é uma forma de tocar, executando desde choros mesmo (“Ingênuo”, com bom desempenho de Palmeira, e “Chorei”, ambos de Pixinguinha) até “O Lago dos Cisnes” (Piotr Ilich Tchaikovski)/”Ave Maria” (Charles Gounod) – a mesma “Ave Maria” que Jorge Aragão gravou, mas aqui com um arranjo mais tradicional. Também se destacou um arranjo para músicas de The Beatles (“Yesterday”/“Here, Where, Anywhere”/“Till There Was You”/“If I Feel”). Um momento muito divertido foi o pot-pourri nordestino (“Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “Qui nem Jiló”, de Luiz Gonzaga, e “Só Quero um Xodó”, de Dominguinhos e Anastácia), com Valtinho tocando triângulo e Palmeira fazendo o resfolego da sanfona no violão de 7. Chico Pedroso, recuperando-se de uma torção no joelho, destacou-se também, com seus choros “Cavaco Amigo” e “Choro pro Telinho”, além de fazer o que Guaraci denominou cavaco maluco no “Jura” (Sinhô) – música em que, ao mesmo tempo em que Pedroso realmente fez um solo bastante livre, o grupo utilizou-se da seqüência de acordes da gravação original de Mário Reis, em 1929.

A cantora Terezinha Dias e o violonista Fabrício apresentaram-se em seguida. Cantaram juntos “Prece ao Vento” (Gilvan Chaves), em que Fabrício também declamou alguns versos. Por sinal, o vento, que foi constante a tarde inteira, ficou mais intenso nessa hora (deve ter ficado sensibilizado com a homenagem). Fabrício soltou o vozeirão em “Balada Triste”, do repertório de Agostinho dos Santos, e mostrou, junto com a cantora, obras suas como “Levanta o Estandarte”. As duas peças que Terezinha interpretou do repertório de Carmen Miranda, “O Tic-Tac do Meu Coração” (Alcyr Pires Vermelho - Walfrido Silva) e “Camisa Listada” (Assis Valente), deixaram a desejar, sendo cantadas de forma muito acelerada e com problemas de afinação.

Para encerrar, compareceu o grupo Samba de Fato – para quem não sabe ainda, é a identidade secreta da Camerata Brasileira, sem o violonista Moysés Lopes e com a inclusão da cantora Taíse Machado e dos percussionistas Edgar Araújo e Rodrigo Rocha, além de apresentar Ânderson Balbueno tocando outros instrumentos que não apenas o pandeiro. Aliás, os percussionistas também cantam no Samba de Fato: Ânderson dividiu os vocais com Taíse em “Não é Assim” (Paulinho da Viola) e Edgar, em “Alguém me Avisou” (Dona Ivone Lara – Délcio Carvalho). Basicamente, no Samba de Fato Ânderson toca tantã, Edgar surdo e Rodrigo pandeiro, mas em algumas músicas eles alternam: em “Acreditar” (Dona Ivone Lara – Délcio Carvalho), Edgar começou tocando pandeiro, depois voltando ao surdo. O ambiente aberto do terraço da Usina fazia com que o público não pudesse perceber todas essas sutilezas, até que Moysés Lopes se deu conta e ficou regendo os microfones.

O ponto alto da apresentação do Samba de Fato foram as músicas de Paulinho da Viola: um pot-pourri em que, além de “Não é Assim”, tocou-se “Coração Leviano”, “Argumento” e “Minha Viola”; e, mais pro final, o estupendo “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, com todo o andamento de samba-enredo a que temos direito, com excelentes solos de Ferrari no bandolim (de novo!) e Luís Barcelos no cavaquinho (a dupla igualmente mandou bem em “Se Acaso Você Chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins). Aliás, em boa parte do pot-pourri de Paulinho o cavaquinho foi Ferrari, pois Barcelos tinha se retirado do palco, mas reassumiu suas funções no “Não é Assim”. Depois do rio que passou, outro sambão, “O que é, o que é” (Gonzaguinha), encerrando com “Tristeza” (Niltinho – Haroldo Lobo).

A diretoria da Usina estima em 500 quilos o volume de alimentos arrecadados, destinados a crianças de até 6 anos com carência nutricional, moradoras da periferia de Porto Alegre.

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