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UMA MANHÃ NA CONTEMPORÂNEA

Por Fabio Gomes

 

Todos os sábados, grande agitação toma conta de uma sala nos fundos da Loja Contemporânea (Rua Gen. Osório, 46, Santa Ifigênia), em São Paulo. É a tradicional roda de choro, promovida pelo proprietário Miguel Fasanelli, reunindo na Sala Evandro do Bandolim chorões de várias gerações. De várias MESMO: no sábado em que estive lá, 8 de novembro de 2003, estavam desde os veteranos Fazanaro no bandolim e Toninho ao cavaquinho, até a bandolinista Elisa, de 10 anos.

O clima é bem descontraído, a qualquer momento quem é espectador pode passar a protagonista. Não há uma divisão física entre platéia e músicos, todos ocupam bancos de madeira dispostos pela sala, apenas os músicos ficam num canto em quatro bancos que corresponderiam ao palco de um show. De repente, alguém se levanta, vai até o centro do quadrado formado pelos bancos dos músicos e canta "Chuvas de Verão" (Fernando Lobo) ou "Pensando em Ti" (Herivelto Martins - David Nasser) - e esse alguém pode ser João Macacão, que se orgulha (com razão!) de ter acompanhado Sílvio Caldas ao violão por 22 anos.

Um senhor a meu lado espinafra o compositor Adelino Moreira, que ele julgava ser o autor de "Pensando em Ti". Esclareço o equívoco. Ele retribui a gentileza sem saber, revelando que o lendário Izaías do Bandolim (Izaías Bueno de Almeida, 50 anos de choro) vinha sempre à Contemporânea, mas se afastou porque... não gosta de acompanhar cantor!

Em seguida, continua o choro, com pérolas como "Doce de Coco" (Jacob do Bandolim), solado por Elisa com o bandolim do Fazanaro, ou a valsa "Sonho de Magia" - em que Fazanaro pede aos companheiros de roda que vão com calma, não judiem dele...

Dali a pouco uma irmã de Elisa, Corina, chega com sua flauta transversa para brilhar em "Proezas do Solon" e "Treme-Treme" (Jacob). Ouvir Corina tocando "Um a Zero" (Pixinguinha) no piccolo me dá a certeza que o choro é a trilha sonora do Paraíso (aquele do Céu, não o bairro paulistano). Outra irmã de Elisa e Corina, Lia, já estava tocando seu violão, discretamente, mas com muito brilho na interpretação.

O repertório de Orlando Silva, o Cantor das Multidões, é moeda corrente na roda: "Amigo Leal" (Benedito Lacerda - Aldo Cabral), "Coqueiro Velho" (Fernandinho - José Marcílio), "Errei... Erramos" (Ataulfo Alves) e "Meu Romance" (J. Cascata), entre outras. Lupicínio Rodrigues também é figurinha carimbada na área: "Quem Há de Dizer" (parceria com Alcides Gonçalves), "Meu Pecado" (parceria com Felisberto Martins), "Esses Moços"... Mas o que faz o público cantar com gosto é uma sucessão de sambas de Adoniram Barbosa, como "Prova de Carinho" (parceria com Hervê Cordovil) e "Iracema". Outra música que levantou os presentes foi o samba fenomenal de Wilson Batista e Jorge de Castro "Mãe Solteira" ("Hoje não tem ensaio não, na escola de samba...").

Mais uma flautista bem jovem, Clara Lia Rodrigues, a Clarinha, entra na roda, solando números difíceis como "Adeus Batucada" (Sinval Silva) e "Jura" (Sinhô). Clara e Corina vão alternando solos em diferentes choros, tocando juntas em "Carinhoso" (Pixinguinha - João de Barro), em que Corina fez a base para Clara, e em "Rosa" (Pixinguinha), na qual as duas se revezaram no comando das operações. A interpretação de "Rosa" foi tão bonita que, se essa valsa já não fosse uma das 10 mais da minha vida, teria passado a ser na hora. Tenho certeza que os estudantes de Jornalismo Jeniffer e Jônathas, da Unicsul (Universidade Cruzeiro do Sul), entenderam quando interrompi nossa conversa para fruir o momento. Tanto eles entenderam que voltaram a filmar, como parte de um trabalho que estavam fazendo para a cadeira de Cultura Brasileira.

O número de músicos vai variando com o passar das horas. Por volta das 11h, quando cheguei, o regional estava com quatro violões de 6, 2 de 7, bandolim e pandeiro; aos poucos, vão se chegando flauta, cavaquinho e gaita de boca (ou harmônica, como queiram). Passam pelos bancos Arnaldinho do Cavaco (tocando violão), Guta do Pandeiro, Sorriso no bandolim. Curiosamente, mesmo com uma renovação constante de intérpretes, dois violonistas não param nunca e o total de instrumentistas jamais passa dos dez, embora ninguém fique contando (a não ser eu, né, mas eu precisava informar vocês!).

Todos os músicos citados têm suas caricaturas, assinadas por Mário Beltrame, na parede, ao lado de fotos, reportagens, partituras e letras de músicas sobre esses sábados maravilhosos.

Oficialmente, a roda começa às 10 da manhã e termina às 2 da tarde, mas já eram mais de 14h20 quando os veteranos violonistas, os tais que não paravam nunca, pararam. Um pequeno grupo continuou tocando com o gaitista que chegara no final. Quando saio dali, me informam que recém começou uma roda de samba, também promovida por Miguel Fasanelli, em frente à Contemporânea, na calçada. Ficou pra próxima!

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