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O DISCRETO DANTE SANTORO

Por Fabio Gomes

 

O flautista e compositor Dante Italino Santoro (Porto Alegre, 18/6/1904 - Rio de Janeiro, 12/8/1969) liderou o Regional da Rádio Nacional durante mais de trinta anos, de 1936 até pouco antes de morrer. Ali comandava cobras tais como os violonistas Carlos Lentine, Valzinho e César Faria. Com seu próprio regional, Dante gravava suas músicas (“Inferno de Dante”, “É Logo Ali”) e as de outros compositores (“Estudante”, de Arnaldo Passos; “Urubu Malandro”, de Louro). Cantores como Francisco Alves e Orlando Silva lançavam com êxito seus temas, compostos em parceria com o sambista Kid Pepe (“Lágrimas de Rosa”) e o radialista Ghiaroni, entre outros. Ghiaroni, autor da radionovela Vidas Maltraçadas, é o responsável pelo maior sucesso de Dante, a valsa “Vidas Maltraçadas”, uma parceria com Cila Gusmão, que Dante gravou na Odeon em maio de 1949.

Filho de imigrantes italianos, Dante começou a tocar flauta com 10 anos, animando festas em casas de família, estudando depois com Agenor Benf. O compositor Otávio Dutra também foi seu mestre, e deu a ele o apelido de Pato (no Rio, receberia outra alcunha: Bico de Ouro). As primeiras músicas que Dante gravou, na Victor, em 1933, eram de Otávio. Ele sempre se manteve fiel à obra do mestre, inclusive gravando com os Trigêmeos Vocalistas “Sempre Nós” (ou “Terror dos Facões”) (Otávio Dutra - Fernando Feijó), num disco Odeon de janeiro de 1950. “Facões”, na gíria, eram os maus músicos, que tinham medo de se apresentar no mesmo local em que estivesse tocando o grupo que Otávio Dutra fundara em 1913, tamanha a sua qualidade.

Talvez pela discrição de Dante, é impossível ter certeza sobre alguns aspectos fundamentais de sua vida. Por exemplo, não se sabe ao certo quando ele foi pro Rio de Janeiro. A versão mais aceita, citada inclusive em enciclopédias, diz que teria sido em 1919, com apenas 15 anos. Ele iria para a Europa e Estados Unidos com mais três músicos, que faleceram num desastre - e aí teria se deixado ficar pelo Rio. Também se fala que Dante teria saído daqui com formação clássica, concertista, diploma do Conservatório (com 15 anos!?), indo ao Rio direto para trabalhar numa rádio - escolha entre a Cajuti, a Educadora ou a Vera Cruz, mas não esqueça que em 1919 não existia nenhuma rádio no Brasil, a primeira surgiu em 1923.

Mais versões: sua despedida de Porto Alegre teria sido em 1934, depois dele tocar na Orquestra da Rádio Gaúcha, ou então em 35, levado por Ari Valdez, o Tatuzinho. Mas, como vimos, em 33 ele já gravava no Rio. A versão mais digna de crédito é da historiadora Núncia Santoro de Constantino, que afirma que Dante saiu daqui em 1929. Todas essas versões, tiradas de reportagens publicadas quando da morte do flautista, estão reproduzidas no encarte do CD triplo A Flauta Mágica de Dante Santoro, lançado com apoio do Fumproarte. Uma das pérolas do encarte saiu no Jornal do Brasil em 1969: “Dante Santoro iniciou sua vida artística em 1925, tocando flauta em pequenas regiões do interior do país”. Sem comentários.

Sobre a real importância de Dante Santoro como músico, existe outra polêmica. Enquanto o cavaquinista Henrique Cazes o ataca, em seu livro Choro - Do Quintal ao Municipal (Ed. 34, 1998, pág. 87), afirmando que Dante não era um músico dos mais caprichosos, pois teria “apenas uma introdução que adaptava a qualquer ritmo e andamento, mesmo que fosse no compasso ternário de uma valsa” (o que não é verdade), o jornalista e músico Arthur de Faria o defende. Para Arthur (fascículo A Música de Porto Alegre – As Origens, Unidade Editorial, s/d, s/p), Dante liderou “um dos três regionais mais importantes das décadas de trinta, quarenta e cinqüenta. Os outros dois eram os grupos de outros mestres que dividiam com ele o título de maior flautista de seu tempo: Pixinguinha e Benedito Lacerda”.

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