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DAÚDE: NEGUINHATEAMO

Por Tatiane Marchesan

 

Daúde é sempre algo surpreendente e pessoal pros que se deparam com a negra pela primeira vez. Susto que pro fã é qualidade.

Depois de tempos sem gravar, a bela retorna ao país distribuída pela EMI com o todo desprendimento permitido pela word music, a melhor definição do seu som. Ecos sutis que passeiam pelo mundo permeados por intensa brasilidade e negritude. Nascem marcados por esse traço no sentido global, ou seja, tanto geográfico quanto musical do termo.

No repertório, temos Baden Powell e Vinicius de Moraes com "Canto de Ossanha", Jorge Benjor ("Crioula") e uma diferente forma de cantar um dos maiores sambistas do país, Aniceto do Império. "Dora", originalmente um partido alto, aparece aqui com elementos percussivos como surdo, atabaque, ganzá africano, caxixi entre outros. A base de cordas é feita no cavaquinho e bandolim. O diferente fica notável pela marcação mais africana do que brasileira. Tudo ressaltado pelo tom minimalista misturado às sutis pegadas eletrônicas características do trabalho da moça. No final é possível escutar cada componente da obra com bastante nitidez. Um pouco antes, nesse passeio sensual e delicadamente engajado, Daúde derrete com "Uma Neguinha" (Paulo Padilha)(letra abaixo), onde conta uma história de amor que, segundo o encarte do disco, faz parte da sua vida e, provavelmente, de muita negrinha por aí: "Você tem que ser menos preconceituoso e mais curioso pra poder gostar de mim", recomenda. Na primeira audição essa foi minha paixão. Lindamente adolescente, quente, molinha. Não vou descrever mais nada. Deixarei para vocês descobrirem o restante. É um CD com cara de viagem, bom para dançar e relaxar, mas confesso que para os amantes da convencionalidade Dáude não é a melhor pedida. Para os que se permitem misturas, tenho certeza que é tiro certo. Indo do samba ao jazz, passando pela África, Cuba e englobando o bom da música eletrônica, saiu do forno DaúdeNeguinhaTeAmo. Aproveitem.

Uma Neguinha

(Paulo Padilha)

 

Uma neguinha
Um certo dia passou por aqui
Jogou seu charme
E disse que gostava do meu jeito acanhado
E essa história me deixou meu confuso
Ela comentou que era muito natural
E eu que nunca tinha nem ao menos namorado
Confesso que fiquei até um pouco envergonhado
E eu disse pra ela:

Eu não que não vou
Que você tem o cabelo ruim

E ela me disse:
Você tem que se mais curioso pra poder gostar de mim

No outro dia
Essa neguinha passou por aqui
Joguei meu charme
E disse que gostava de cabelo enrolado, despenteado
E ela me respondeu:

Eu não, que não vou,
Nessa conversa eu não entro não
Não é só pelo cabelo que se concretiza uma paixão
Você tem que ser mais curioso e menos preconceituoso
Você tem que ser menos preconceituoso e mais curioso.

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