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DIA NACIONAL DO CHORO 2005

Por Fabio Gomes

 

Todo evento relativo ao Dia Nacional do Choro (23 de abril) se constitui numa homenagem natural a Pixinguinha. É comum que as comemorações aproveitem para celebrar outros chorões, seja de forma oficial - como em 2004 em Curitiba, quando os festejos da data foram denominados Semana Jacob do Bandolim -, seja informalmente, como aconteceu na edição 2005 do Dia Nacional do Choro em Porto Alegre, em que Plauto Cruz foi o grande homenageado.

Na roda de choro que encerrou a festa, ocorrida no Mercado Público em 22 de abril e que durou quatro horas, um dos momentos de maior emoção foi quando o grupo Choro Negro executou uma bela versão de "Choro Clássico", de Plauto. O autor, comovidíssimo, levantou de sua mesa e foi até perto do grupo. Alguém levou a flauta até Plauto, fazendo menção para que ele tocasse. Humildemente, ele recusou, puxando uma salva de palmas para os jovens chorões. Pouco antes, a apresentação de Plauto já havia balançado os corações de todos os presentes. Também se chama Plauto Cruz o troféu recebido pelos vencedores do Concurso de Choro de Porto Alegre. O organizador do evento, Moysés Lopes, teve a feliz lembrança de conceder um troféu ao próprio Plauto.

- Uma felicidade imensa (...) a emocionante homenagem que todos nós que estávamos presentes prestamos ao Plauto. O homem é divino, e fico feliz que tenhamos tido a oportunidade de demonstrar nosso carinho por ele. (Moysés Lopes)

Ao receber o troféu, Plauto assim agradeceu:

- Me sinto feliz, este evento é uma maravilha. Tomara que dure muitos anos, para a gente curtir o choro, música autêntica brasileira. Cheguei dia 9 de São Paulo, onde toquei no SESC Ipiranga, num projeto semelhante. Também ganhei troféu e chorei de emoção. Que este evento continue e saúde pra todos vocês!

(O mestre se referia a sua participação na série Temperos do Choro, onde se apresentou junto com os Chorões Gaúchos no dia 8 de abril)

Na sua parte do espetáculo, Plauto deu preferência a temas de sua autoria, sendo acompanhado de Maxwell dos Santos e Rafael Silva (violões), Rafael Ferrari (cavaquinho) e Demetrius Câmara (pandeiro). Músicas de outros compositores entraram no bis, quando o grupo foi reforçado por outro pandeirista, Ânderson Balbueno. Espero nunca deixar de me impressionar com o domínio completo do instrumento - incluo aí o fôlego - sempre demonstrado por este jovem de 75 anos chamado Plauto Cruz. De sua apresentação destaco um maravilhoso tema saltitante, "Choro para o Agnaldo", com o qual Plauto ganhou um festival em Diadema (SP) há alguns anos. Agnaldo, um amigo paulista, batizou outro choro como "Gaivota", por identificar semelhanças na linha melódica da composição com o vôo da ave. Da produção recente, o mestre tocou o inédito "Aos Amigos", contando que a música "agradou em São Paulo" (agradou em Porto Alegre também, Plauto, e agradará onde for tocada neste mundo, com toda a certeza!). Das mais antigas, fomos brindados com "Tema de Amor" e "Provocante", "uma das minhas primeiras músicas". Ao final, o homenageado Plauto resolveu também prestar seu tributo, apresentando de Lupicínio Rodrigues ("toquei em três LPs dele"), "Nervos de Aço" e "Se Acaso Você Chegasse" (Lupicínio - Felisberto Martins). Em meio a esta excelente interpretação, Ferrari sugeriu que emendassem com "Ai, Que Saudades da Amélia" (Ataulfo Alves - Mario Lago). Por ironia, foi bem nesta hora que estourou uma corda do seu cavaco. (Daqui a pouco, mais Plauto Cruz. Não sai daí!)

Concurso de Choro de Porto Alegre - Não foi fácil para os jurados Luis Machado (Grupo Reminiscências), Kim Ribeiro (flautista), Marcos Kröning Corrêa (violonista e professor da Universidade Federal de Santa Maria), Rafael Ferrari (Camerata Brasileira), Luis Barcelos e Rafael Mallmith (ambos do Trio Tiro de Brazuca) selecionarem os seis choros vencedores, devido à qualidade das mais de 20 composições inscritas. Cada selecionado recebeu o Troféu Plauto Cruz e R$ 500, não havendo a usual classificação em 1º lugar, 2º... Moysés Lopes fala do certame:

- Na minha opinião, foi um êxito. Conseguimos não só injetar ânimo e um pouco de dinheiro na música instrumental brasileira feita no Rio Grande do Sul, mas realizamos um mapeamento muito importante, dando visibilidade a compositores que nem sabíamos que compunham (choro). Outro ponto muito positivo do concurso foi a modernidade do material apresentado, e isto me deixou muito satisfeito, pois mostra que o pessoal está procurando uma expressão própria, pessoal, individual, exclusiva até.

A seguir, menciono os choros na ordem em que eles foram apresentados no Mercado no dia 22.

Roda de choro - O mesmo clima de "Choro Pampeano" se fez presente nas músicas que Dúnia executou ao lado do flautista Kim Ribeiro, como "Diário" (nesta, o teclado floreou um pouco a linha melódica) e "Traça Coco" (ambas de Kim). Em "Soluços" (Pixinguinha), a flauta esteve bem solta, enquanto o teclado cadenciava o acompanhamento. O teclado se destacou mais no solo de "Choro Bugio" (Dúnia) e na valsa romântica "Ternura" (K-Ximbinho).

Também de K-Ximbinho era uma das músicas tocadas pelo grupo Bem Brasil, "Eu Quero é Sossego", que contou com a participação do clarinetista Gabriel Fischer. No restante do repertório, com exceção de um clássico de Waldir Azevedo ("Carioquinha"), só deu Hamilton de Holanda ("Aquarela na Quixaba", "Daqui a Pouco Eu Volto" e "Destroçando a Macaxeira") no repertório apresentado por Andres Costa (bandolim), Luis Arnaldo (cavaquinho), Cristiano Fischer (violão de 7), e Reloginho (pandeiro).

Outro grupo, formado por instrumentistas revelados na oficina de choro de Luís Machado - Vinicius Ferrão (bandolim), Daniela Fracasso (flautas), Diogo Jackle (violão) e Guilherme Sanches (percussão) -, apresentou duas modificações importantes em relação à sua participação na Maratona de Choro do Santander Cultural (dezembro de 2004): adotou o nome de Choro Negro e promoveu a entrada de um novo percussionista, Tiago Coelho. É versátil o Tiago: tocou tamborim em "Cochichando" (Pixinguinha), agogô em "É Por Aí" (Avendano Jr.) e pandeiro em "Três Estrelinhas" (Anacleto de Medeiros). A outra música executada pelo Choro Negro foi comentada no início do texto: "Choro Clássico", que emocionou o autor, Plauto Cruz, e as aproximadamente 1.500 pessoas presentes.

Como já referimos, Plauto não quis interferir na apresentação do Choro Negro, aceitando em seguida tocar duas músicas (seu arranjo para "Jesus Alegria dos Homens", de Johann Sebastian Bach, e "Fascinação", de F. D. Marchetti), sem acompanhamento, durante a preparação para a entrada do grupo seguinte, o trio Tiro de Brazuca.

O trio é formado por Luis Barcelos (bandolim), Rafael Mallmith (violão de 7) e Ânderson Balbueno (pandeiro). É a um só tempo um dos mais novos grupos de choro de Porto Alegre (surgiu em março e foi batizado em abril) e um dos mais experientes (pois seus integrantes atuavam juntos na Camerata Brasileira desde fevereiro de 2003). Antes da estréia do grupo, ainda sem nome, na roda de choro do Café do Cofre, o trio Barcelos-Mallmith-Anderson já vinha se apresentando, seja representando a Camerata Brasileira (como na Noite do Brasileirinho de 20 de dezembro de 2004 ou na roda do Charla Bar em 31 de janeiro), seja com o nome de Macambira (Noite do Brasileirinho de 24 de janeiro). No grupo, Mallmith sola mais do que na Camerata, o que ficou audível já na primeira música, "Samambaia" (César Camargo Mariano). Em todas as outras, o grupo foi aplaudido em meio à execução: "Taquito Militar" (Mariano Mores), "Caminhando" (Nelson Cavaquinho) e "Risadas do Figura" (Luis Barcelos) - esta, dedicada a Mallmith, que chama todo mundo de... "figura". Destaco especialmente "Caminhando", com um excelente solo de violão com as cordas abafadas, enquanto o bandolim soava como cavaco. Ah, o figura, digo, o Mallmith aniversaria no mesmo dia que Pixinguinha: 23 de abril.

Ânderson se emocionou quando foi ao microfone agradecer o apoio que sempre recebeu de seus ex-colegas de Camerata, Moysés Lopes e Rafael Ferrari. Perto dele, Ferrari começou a chorar, enquanto Moysés se dirigiu até Ânderson e o abraçou, fazendo o mesmo em seguida com Barcelos e Mallmith.

Camerata Versão 2 - A última apresentação de Moysés, Mallmith, Ferrari, Barcelos e Ânderson como Camerata foi em 6 de janeiro, no foyer do Theatro São Pedro. Ainda fariam uma roda de choro na Cia. Sanduíches, em 12 de janeiro, só voltando a se reunir especialmente para gravar o programa da TVE-RS Sonora Tribo em 12 de março (que foi ao ar em 23 de abril).

Antes disso, porém, os cinco resolveram de forma plenamente satisfatória a questão levantada por Barcelos, Mallmith e Ânderson, que manifestaram vontade de se transferirem para o Rio de Janeiro. Os três formaram o Tiro de Brazuca, enquanto Moysés convidou Rodrigo Siervo (saxofone) e Demetrius Câmara (percussão) para fazerem parte do que ele mesmo chama, informalmente, de "Camerata Versão 2". A nova formação (ainda sem Demetrius) tocou em Cajamar (SP), a 16 de março, no lançamento do projeto Natura Musical (do qual esta edição do Dia Nacional do Choro faz parte). A respeito, Moysés me relatou:

- Na verdade, eu ainda nem conhecia o Demetrius, pois estive fora quase todo o mês de fevereiro. Quando voltei, tínhamos pouco mais de 10 dias para montar um pocket show com 3 ou 4 músicas, e optamos por trabalhar em 3. Seria mais simples tocarmos alguns "standards", mas tu bem sabes que não tocamos assim. Desta forma, ensaiamos durante todos os dias que antecederam o evento, e nos apresentamos em Cajamar. Fora esta apresentação, não tocamos em nenhum outro lugar mais.

De uma circunstância aparentemente desfavorável (a saída de mais da metade dos componentes do grupo), Moysés partiu para uma reinvenção da concepção musical da Camerata. Nesta primeira apresentação no Rio Grande do Sul da nova Camerata, a impressão foi a melhor possível. O violão de Moysés aparece mais no arranjo, como em "Brasileiro" (Hamilton de Holanda), com nítida influência do jazz. Rodrigo, além do sax, também reforça a percussão, quando necessário - tocou triângulo, enquanto Demetrius dava conta da zabumba em "Pra Vocês" (Rafael Ferrari), música que começa lenta, quase nostálgica, e passa a animada. Os músicos estão com nova postura de palco, inclusive reforçando significativas alterações do clima da música com brincadeiras cênicas, como em "Chorinho pra Ele" (Hermeto Paschoal). A música iniciou tranqüila, bem cadenciada, com o sax fazendo floreios e seguido de perto por violão e bandolim, este com grande destaque, enquanto o pandeiro segurava a base. De repente, bandolim e sax explodem em acordes estridentes, enquanto Ferrari e Moysés fazem um jogo de cena como se discutissem; em seguida, o arranjo evolui para um sambão.

Mesmo em peças que há muito a Camerata interpretava, como "Cochichando" (Pixinguinha), tudo mudou. O bandolim inicia lento, em seguida o violão surge grave; o bandolim passa a tocar em compasso quaternário, enquanto todos vão entrando forte (o sax bem solto); na bateria, Demetrius utiliza a vassourinha (em geral usada para passagens suaves) batendo forte com o cabo no aro de metal e acionando o bumbo com intensidade. Após uma passagem um tanto circense, todos vão acelerando até o bandolim ter seu momento de glória, dando lugar a um solo da percussão, seguido de uma ralentada geral que evolui para a entrada forte de bandolim, percussão e triângulo (novamente Rodrigo). Após uma citação de "Ó Abre Alas" (Chiquinha Gonzaga) quase como frevo, o sax comanda a volta ao começo. O final é caribenho.

Para encerrar com chave de ouro sua estréia, a Camerata apresentou uma junção de músicas de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Violão e percussão iniciaram com sons aleatórios, remetendo à África, para introduzir "Berimbau", na qual sax e violão ora faziam variações, ora tangenciavam o tema; uma parte bem livre, com vários improvisos, conduzia a uma versão suave de "O Astronauta"; em seguida, bandolim e caixa lembravam o som de berimbau, enquanto o sax surgia rascante para comandar o carnaval em "Formosa".

Afinidade - Outra seleção de Baden fora o ponto alto da apresentação do violonista Marco Pereira (violão) e Gabriel Grossi (gaita de boca) no Teatro Dante Barone, no dia 21 de abril, que abriu as comemorações do Dia Nacional do Choro. Na única parte do show em que atuou sozinho, Marco juntou "Violão Vadio" (Baden - Paulo César Pinheiro), "Canto de Ossanha" (Baden - Vinicius)(na qual começou forte, valorizou a pausa, ralentou e pisou no acelerador de novo), "Consolação" (Baden - Vinicius)(forte) e fechou com "Berimbau". Foi um dos momentos merecidamente mais aplaudidos do show.

Não vá aqui algum reparo à atuação de Gabriel. Ao lado de Marco, ele foi responsável por momentos memoráveis como "Mulher Rendeira" (Zé do Norte), em que o violão começou floreando uma variação do tema, passando a desenvolvê-lo em oitavas; em seguida, enquanto a gaita sustentava o tema, o violão alternava tema e variações em andamentos cadenciado e acelerado, até que ambos desembestaram sertão afora. Que dizer então do medley que reuniu músicas de Dorival Caymmi ("Maracangalha" e "Você Já Foi à Bahia?") com temas de Ernesto Nazareth? Foram aplaudidíssimas as variações incríveis que Gabriel desenvolveu, principalmente suingando com as células melódicas de "Maracangalha". Para o bis, a dupla reservou uma versão suave de "As Rosas não Falam" (Cartola). A gaita conduziu o tema majestaticamente, com os comentários do violão em belos improvisos.

Fala, Moysés:

- Sem palavras. Um dos shows mais emocionantes que já vi em toda minha vida. Simplesmente fantástico. Dois grandes músicos (e duas pessoas maravilhosas também) e um público caloroso transformaram aquela noite em um momento mágico.

Pode parecer incrível, mas assim como a "Camerata Versão 2", a dupla Marco-Gabriel também atua junto há pouco tempo. Os dois se conheceram durante os ensaios da gravação do CD Eu Me Transformo em Outras, de Zélia Duncan (2004), tocaram em todas as faixas e assinaram também os arranjos, ao lado de Bia Paes Leme, Hamilton de Holanda e Marcio Bahia. Deve sair em breve o CD da dupla, batizado Afinidade por Marco por analogia ao LP Afinity (1979), do pianista americano Bill Evans, que contou com a participação do gaitista sueco Toots Thielemans.

Na maioria das composições apresentadas no Dante Barone, o violão iniciou, passando a emoldurar o tema quando a gaita assumia o lugar central até que os dois terminassem a música juntos. Foram assim as interpretações de "Coisa nº 8" (Moacir Santos), "Choro pro Waldir" (Cristóvão Bastos), "Foi a Noite" (Tom Jobim - Newton Mendonça) e das composições de Marco Pereira "Ponto de Luz" e "Sombra da Lu". Houve poucos solos, como o de violão em "Nos Horizontes do Mundo" (Paulinho da Viola) e o de gaita em "Modinha" (Tom Jobim - Vinicius de Moraes).

Balanço - A relação dos eventos do Dia Nacional do Choro não ficaria completa sem a menção à exposição de banners reproduzindo partituras manuscritas, fotos, documentos, recortes de jornal e selos de disco relacionados a Pixinguinha. A exposição transcende o evento:

- Fico feliz em oportunizar às pessoas um pouco mais de esclarecimento sobre este grande gênio que foi Pixinguinha. A idéia é de que a exposição fique no Mercado Público até o dia 29 de abril e depois passe a fazer parte do acervo da Discoteca Pública Natho Henn (na Casa de Cultura Mário Quintana). (Moysés Lopes)

Projetos para 2006, Moysés?

- Fazer uma semana de programação em Porto Alegre e ampliar o público atingido. Na verdade, estamos trabalhando no projeto de 2006 desde dezembro de 2004.

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